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Crime e castigo

Marcondes Serotini Filho
| Tempo de leitura: 3 min

Grande obra de Dostoievski, russo maluco que escreveu tal romance com tamanha profundidade que ela poderia ser encaixada nas lides da Filosofia, da Antropologia, da Psicologia, Medicina, que não se cometeria erro algum neste aporte. Como só iria acontecer em seus livros, a pitada autobiográfica dá a grande inspiração para o mergulho denso e dolorido nas entranhas da alma humana, principalmente quando se trata de esmiuçar um crime e suas correlações.

De maneira alguma ali se encontra qualquer mísero estilhaço da consciência política brasileira. O protagonista se martiriza e faz conjecturas macrocósmicas daquilo que foi um duplo assassinato cometido por ele. Não. Não se trata de um livro sobre o assassinato de uma velha agiota e avarenta e de sua irmã horrenda. O autor faz perguntas a respeito de seu merecido castigo diante da necessidade ou não daquilo ter acontecido. Com o corpo em febre, procura dentro de si as explicações que o levaram a cometer aquele ato extremo.

A grande canalha que se esconde atrás de mandatos políticos, alcançados às custas de grandes somas de dinheiro, apoiados por setores da economia e da sociedade brasileira, formadora de lobbies que fizeram desse país um exportador de propinas e do sistema que aliciou até candidaturas de presidentes de outro países, jamais questiona esse binômio "crime e castigo", que dá nome ao famoso livro.

Desde cedo se aprendeu que o Brasil é o país da impunidade e raciocínios foram criados de maneira a fazerem ficar soltos os maiores bandidos que se esconderam sempre sob o manto da imunidade parlamentar. Por isso as reeleições a qualquer preço.

Vivemos este momento conturbado, onde após a derrubada de uma presidente por motivos bastante convincentes, somados ao estado de corrupção a que foi submetido o país pelo partido que a apoiava, vemos o seu sucessor se utilizar dos mesmos expedientes que ela para salvar seus amigos. Nomear ministros de governo, políticos acusados para adquirir imunidade, manipular informação, costurar por debaixo dos panos acordos destinados a alcançar uma pretensa governabilidade.

Dostoievski coloca o dedo na ferida quando debate historicamente a moral, questionando os homens que tomam decisões acima da legalidade.

Vivemos este estado de coisas que gera distorções monstruosas e reações até compreensíveis, quando o povo, acuado e sem esperança, defende ícones ultranacionalistas, que defendem com discursos eloquentes a morte aos bandidos, o porte de armas e a execução crua, nua e simples de quem cometer erros, rasgando o sentido de cidadania que é representado pela Constituição em vigor.

Por outro lado, com razão, a força policial que é o último bastião a quem recorremos quando nos vemos ameaçados, sofre represálias por sua ação contra bandidos que estão anos na frente em matéria de armamentos e organização. Esses PCCs da vida têm até sistema previdenciário. O que não foi assumido pelo Estado está nas mãos de criminosos. Esses policiais, maltratados pela imprensa e pela sociedade organizada, quando cruzam os braços pedindo um aumento do salário congelado há 6 anos, mostram a barbárie e um "estado de sítio" forçado que nossas cidades podem ser vitimas.

O crime sem castigo, sem julgamento e sem a devida lição que uma atrocidade pode e deve suscitar, fornece a faca e o queijo para que a barbárie domine nosso cotidiano.

 

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