Polícia

Em 2017, crimes já causam 7 vezes mais mortes do que 2016 em Bauru

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

2017 começou com explosão nas mortes violentas em Bauru. Só no primeiro bimestre, 14 pessoas perderam a vida em crimes, uma média de uma morte a cada quatro dias. O número é sete vezes maior do que o registrado no mesmo período de 2016, quando duas pessoas foram vítimas de homicídio, uma em janeiro e outra em fevereiro.

Curiosamente, a maioria dos casos se concentra em bairros existentes entre as regiões norte e noroeste da cidade, como mostra o mapa elaborado pelo JC (veja o quadro abaixo).

DROGAS

Para o major Fernando Xavier Pinto, comandante interino do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I), a maioria dos casos, que é caracterizada por crime de execução, está ligada ao avanço das drogas na cidade.

"Mesmo que tivéssemos uma viatura em cada quarteirão, isso não impediria o criminoso de executar um concorrente dele", opina o major. "São queimas de arquivo em decorrência de brigas por pontos de tráfico, ou seja, por lucro", acrescenta o comandante do 4.º BPM-I.

Ele diz que o policiamento ostensivo tem agido para diminuir a circulação de entorpecentes. A atuação mais intensa conta, inclusive, com um serviço de inteligência da própria corporação, realizado por policiais não fardados.

"Mas não temos como ser onipresentes. É mais um problema de saúde do que de segurança pública", dispara o major Xavier.

A falta de fiscalização aos estabelecimentos que vendem produtos alcoólicos também é apontada pela PM como um fator impulsionador da criminalidade.

"A crise potencializou o uso de álcool. E as desavenças em bares, geralmente nos que funcionam de forma indiscriminada, causaram alguns homicídios. A embriaguez faz as pessoas perderem a noção e as encoraja a matar", pontua o major Xavier.

Sobre a concentração de casos nas áreas norte e noroeste, ele aponta que essas regiões, inclusive, têm recebido maior concentração policial por conta do problema.

INVESTIGAÇÕES

Das 14 mortes citadas, algumas foram esclarecidas pela Polícia Civil, outras ainda seguem em investigação. A Delegacia de Investigações Gerais (DIG) trabalha para chegar a todos os assassinos e apurar as reais motivações de cada homicídio.

Sobre o assunto, o delegado titular da DIG Eduardo Herrera limitou-se a dizer que "algumas prisões já foram realizadas e mandados de prisões foram expedidos".

TENDÊNCIA?

Para o delegado seccional Ricardo Martines, o aumento de casos é sazonal e não aponta, necessariamente, uma tendência de que 2017 será mais violento em Bauru.

"A maioria é crime de difícil prevenção, por ser cometido por motivo fútil, por dívida de drogas e, alguns, com uso de arma branca ou agressão física", finaliza.

Intervenção policial

Das 14 mortes violentas ocorridas entre janeiro e fevereiro deste ano, três decorreram de intervenções policiais em dois roubos registrados, nos bairros Bela Vista e Octávio Rasi. Neste último, um policial militar de folga matou dois assaltantes.

Os inquéritos sobre os casos ainda seguem em andamento tanto na Polícia Civil quanto na PM que instaurou procedimento interno para apurar a conduta dos policiais envolvidos. "A intervenção só ocorre em reprimenda de crimes graves. A morte, infelizmente, é resultado da petulância dos próprios marginais, que preferem resistir e revidar ao se entregar", afirma o major Xavier.

'Descrença na economia, na política e nas leis impulsiona a violência'

"A violência contra alguém parece uma ação individual, mas é um reflexo das grandes estruturas da sociedade". A frase é do antropólogo Claudio Bertolli Filho, professor da Unesp de Bauru. Para ele, o aumento da violência é uma consequência do momento político-social que o País atravessa. 

"Com a crise, a sociedade está à flor da pele; o desemprego ajuda muito. Existe ainda um fator conjuntural, a corrupção e a demora em punir culpados incita as pessoas a cometerem crimes. Tudo parece coagir o indivíduo a viver fora dos padrões legais", avalia. 

Ainda sobre o assunto, ele alerta que a reação policial, de aumentar o patrulhamento nas regiões mais problemáticas da cidade, não deve ser única. "Bauru pensa muito em asfalto e em políticas para os animais, mas não vemos uma grande ação social declarada para socorrer os homens", finaliza.

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