Cheguei a Los Angeles para começar um circuito turístico e corri logo atrás de uma teleobjetiva para minha Canon. Foi-me aconselhado levar também um tripé para garantir imagens mais nítidas. Arrastei o trambolho pelos estúdios de cinema de Hollywood. Fui à praia de Venice, fiz trilhas no Grand Canyon e no Yosemite Park e caprichei nas fotos dos letreiros a neon de Las Vegas. No Lago Tahoe, um fotógrafo profissional, com dó deste pobre amador, aconselhou-me a trocar a lente por outra, com estabilizador de imagens, para evitar o tripé. Assegurou que as lentes modernas fazem a correção da vibração e captam imagens nítidas mesmo quando na mão. "Agora que eu já paguei e usei, como vou devolver?" Diante do meu comentário, o americano abriu para mim uma realidade mágica. "Qual é o problema? Vá à loja, devolva a mercadoria e peça o dinheiro de volta, sem mais explicações". Descobri que isso é tão sistemático nos Estados Unidos que não incomoda ninguém. Todos os dias, os lojistas recebem de volta milhares de artigos já usados. Comprei a tal lente, pouco mais cara que aquela defasada que devolvi, mesmo usada, empoeirada e já com alguns risquinhos.
Sabia do direito ao arrependimento, mas não tinha ideia de que devolver lá, é mais fácil do que comprar. Os varejistas devolvem o valor do numerário mesmo se o cartão foi usado na transação. Sem fazer perguntas nem tentar convencer o cliente a ficar com o produto. Mais surpreendente ainda: aceitam a devolução sem nota fiscal ou tíquete de caixa, mesmo sem a embalagem. Basta a etiqueta. Nas roupas, cada grande magazine tem sua etiqueta com código, pregada no lado interno. É o que basta.
O que me deixou de queixo caído foi perceber que os prazos de devolução são flexíveis, embora a lei só obrigue a 30 dias quando não há uma política específica de devolução, oferecida pela loja. Fiquei meio envergonhado quando assisti, na Macy's, o freguês devolver um terno que fora comprado há dois anos. "Dois anos!", gritei dentro da minha cabeça a olhar para aquilo. Sem nota e visivelmente usado. O cliente tinha cartão de crédito da cadeia de lojas e disse à funcionária que mal tinha vestido o terno. Nem ela acreditou nisso, lançando um olhar esgazeado à colega de caixa. Mas aceitou e devolveu o preço integral de 150 dólares.
Para um tapuia, é difícil aceitar que isto faça sentido. Mas já é parte da ordem mundial do consumo. O segredo é de uma sociedade onde a prioridade é fazer com que você passe (aqui a gente enfia) a banda magnética do seu cartão na maquineta de débito ou crédito. Os norte-americanos são incentivados a gastar tudo o que ganham e mais um pouco. Eles usam múltiplos cartões de crédito, essenciais para se construir um bom histórico (credit score). Este histórico de crédito é usado, por exemplo, quando se tenta alugar uma casa, comprar um iPhone com descontos camaradas ou fazer leasing de carro. Se a pessoa tem um bom histórico, paga juros mais baixos e terá melhores condições de pagamento. Ainda receberá em casa cupons de descontos para voltar à loja.
No Natal ganhei uma bermuda comprada em Bauru. Ficou grande. Até hoje não consegui trocá-la porque o meu número está em falta e dinheiro não se devolve. Perguntei para a minha irmã que mora há mais de 20 anos nos Estados Unidos, o que é que fazem com os artigos usados e devolvidos. A resposta foi dada em poucos minutos. Ela me levou para a seção de descontos da Marshalls. Tênis, roupas e agasalhos pela metade do preço. O negócio deles é o giro rápido. Vale tudo. O freguês tem sempre razão. Passe o cartão e seja feliz. Eles contam com aqueles que, mesmo insatisfeitos, não voltam para devolver.
Promove-se um ambiente que encoraja a comprar primeiro e ver se é bom depois. Você pode até devolver o jornal à banca e pedir o dinheiro de volta por não concordar com a maneira como ele está tratando o Trump. Nos supermercados é possível devolver gêneros alimentícios mesmo com o pacote aberto, sem precisar que esteja estragado. Aqui em Bauru essa política de devolução já é adotada. Outro dia comprei duas bandejas de couves-de-bruxelas. Tão caras como se fossem apanhadas sob a luz do luar por criadores de unicórnios. Quando cheguei em casa, caiu a ficha. "Eu nunca gostei de couves-de-bruxelas". Corri trocá-las pela couve-manteiga, que é a que todos querem lá em casa.