Uma mãe me procura e pede minha ajuda para retirar o filho de uma biqueira. Eu tinha acabado de chegar após rodar 700 km, cansado, respiro fundo e digo: "Sim, vamos lá."
Após a chuva, em meio à lama, o fedor dos ratos, dos marmitex azedos, da falta de banhos, sem luz, deixava o lugar realmente a porta de qualquer inferno em terra, em vida.
Moleque branco, mas muito sujo, me lembrava o Mussum. Sorrindo, vem até mim e de forma sóbria me diz: eu quero aqui ficar. Eu quero ficar. Trago a mãe, que em prantos vê e ouve o filho repetir isso, por muitos minutos.
A mãe, em um momento de fúria, medo, força e amor, dá uma surra no moleque, pra ver se ele reage, mas nada acontece.
Realmente, por escolha, por opção e por gosto, o moleque quer ali ficar.
Escorrego junto com a mãe e sento no solo imundo e de barro vejo minhas roupas. A mãe, de 35 anos, exausta, grita muito.
Em um segundo eu sussurro: apenas ame!
Não sei porque eu disse aquilo.
Ela respira, fecha os olhos, reza, reza mesmo, em busca de algum lampião, que ilumine seus pensamentos. Então, levanta, pega em minha mão e pede para irmos embora.
Não falei nada, apenas a coloquei no carro e, com minha força de troglodita, voltei para a casa para retirar o moleque de lá e jogá-lo em meu carro, afinal foi para isso que fui.
No entanto, quando cheguei à porta, um grito:
"Altivo, eu amo meu filho e o amarei até o fim, e por o amar muito, eu aceito a sua escolha de aqui querer ficar." Me pede, então, que fossemos embora. Quando a deixei em sua casa, ela me abraçou, seca de lágrimas, mas havia visto um outro mundo, naquela condição humilhante, "a condição de escolha".
A escolha dele e dela de o amar apenas como ele quer ser e não como ela gostaria que ele fosse. Sim, ela o ama. Sim, ela precisou ser fria o suficiente para notar que não precisamos de nada para amar. Queremos ou não amar e ponto. Sei que ela fez todo o possível e o que nem imaginava que poderia fazer para tirar o filho daquele inferno, mas nunca poderá escolher por ele seus pensamentos, seus sentimentos, suas ações, seus resultados, porque tudo isso são apenas escolhas dele. Tem, então, outra meta. "Como fazer com ele fique feliz, mesmo estando no inferno de sua escolha."
Ame e, ao amar, notará que nunca pedirá mudanças, oferecerá escolhas, que podem ou não serem acatadas. Amar, inclusive, é uma escolha sempre.
Agora, depois de chorar muito, porque eu ainda sou um ignorante em amar, vou tomar um banho e dormir um pouco, porque amanhã terei novas escolhas.
Seja presente, sem mudar a essência de ninguém, porque pelo aceite, se abre a porta para "amar" mesmo.
Você pode mais. Você é importante. Hojetudodacerto