| Samantha Ciuffa |
![]() |
| Gilberto Nunes da Cunha é um apaixonado por fotografia |
Chegar aos 87 anos - e meio! - sem nenhum problema grave de saúde não é para muitos, não. Felizmente, foi para o médico bauruense Gilberto Nunes da Cunha, que aplicou 32.500 anestesias durante o período em que trabalhou na Santa Casa, é apaixonado pelos seis filhos (um já falecido), dez netos e por fotografia. Aliás, fotografia é o que não falta no apartamento de Gilberto Cunha. Eles estão por todos os lugares: nas paredes, estantes, mesinhas de canto, aparadores, mesa de escritório, porta de armários e guarda-roupas. A mesa onde ele nos recebeu para a entrevista estava forrada de fotos, álbuns e porta-retratos. Elas também fazem parte de todos os assuntos. Gilberto Cunha sempre tem uma foto à mão para reforçar uma frase. E quando não a tem, levanta-se para buscá-la. Só lamenta duas coisas: ter perdido a esposa, Nair Matos da Cunha, muito cedo (ela faleceu em 2008, aos 77 anos) e não ter bisnetos. Aliás, atenção netos: ele disse que os chamará para uma conversa sobre isso...
JC - O senhor é um dos grandes nomes da medicina em Bauru.
Gilberto Nunes da Cunha - Sempre tive vontade de ser médico. Não sei bem porque. Tinha um tio médico. E quando terminei o primeiro ano do ginásio, no Ernesto Monte, em Bauru, fui para São Paulo estudar. Fiquei por lá até me formar em medicina, em 1955. De lá, fui para os Estados Unidos. Fiquei lá em 1956 a 1957 me especializando. Sou especialista em anestesiologia. Quando terminei a residência, vim para Bauru. Comecei a trabalhar aqui em 1 de janeiro de 1958, na Santa Casa.
JC - O senhor foi um dos primeiros médicos da Santa Casa de Bauru, então.
Gilberto Cunha - Vim para Bauru logo que me formei, quando o médico que tinha aqui, o doutor Luiz Carlos de Almeida, sofreu um derrame e não podia mais trabalhar. Trabalhei na Santa Casa durante 24 anos, fazendo só anestesia. Fiz 32.500 anestesias. Metade disso em pessoas que não podiam pagar. Não tinha SUS, INPS. Então, eram internados na Santa Casa de graça. E eu fazia anestesia de graça. No fim do ano, o Estado fazia uma doação para hospital para cobrir essa despesa. Mas era uma briga. Tinha de ter a interferência de deputados. E o dinheiro ia todo para a irmandade, para manter o hospital. E quem trabalhava com as pessoas que não podiam pagar, também não recebiam. Os médicos, quando entravam na Santa Casa, assinavam um documento de compromisso para atender os indigentes gratuitamente. Recebíamos o direito de ter pacientes particulares, de quem cobrávamos.
JC - Mais de 32 mil anestesias. Era um trabalho intenso.
Gilberto Cunha - Depois, outros médicos foram contratados. E em 1978, o prédio novo da Coca-Cola ficou pronto em Bauru e o dono, Horácio, que era meu amigo de pescaria, me convidou para ser médico lá. Entrei na Coca-Cola em 1968 e fiquei até fechar. Trabalhava no hospital durante o dia e à tarde ia para a Coca-Cola. Em 1982, pedi demissão do serviço de anestesia da Santa Casa e fiquei só na empresa.
JC - Soube que o senhor é apaixonado por fotografias...
Gilberto Cunha - Tenho muita fotografia. Nem sei quantas. Comecei a mexer com elas ainda na adolescência. Com 16 anos, ganhei uma máquina fotográfica e saí fazendo foto. Gostei. E hoje tenho álbuns e mais álbuns. Não sei quantos. Tenho caixas e caixas. Esse aqui (ele mostra um álbum de capa dura verde claro, impecável) é a bíblia da família. Tem fotografia de 1898 (e abre a primeira página, onde bem no centro está a fotografia da avó ainda menina, e ao redor da imagem, há textos explicativos), essa aqui, em que está a mãe do meu pai, minha vó Cota, que tinha 11 anos nesta foto. Todo mundo da família está nesta bíblia e todos os familiares vêm ver.
JC - São imagens raras.
Gilberto Cunha - O primeiro membro dessa família, da família do meu pai, que veio para cá foi Francisco Mariano de Almeida, aos 17 anos. Veio em 1808, junto com dom João VI. Por coincidência, estou lendo livros que tratam desse período ("1808 - Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil", de Laurentino Gomes). A viagem durou 2 meses e meio. E estou lendo com muito carinho.
JC - Mas hoje as pessoas não ligam muito para foto, não. Tiram fotos com celular e nunca mais voltam a olhar.
Gilberto Cunha - É uma tristeza. Jogam tudo fora. É um absurdo! As pessoas não vão conhecer o passado delas. Olha essa do tempo de slide (e mostra uma caixinha com slides cuidadosamente guardados). Vou levar para revelar.
JC - O senhor viu Bauru crescer. Como avalia a cidade atualmente?
Gilberto Cunha - Eu gostaria que Bauru ficasse do tamanho que está. Não quero que cresça mais. Já não é a mesma coisa. Por exemplo, estou renovando a minha carta de motorista. Renovaram por mais 3 anos. Vou até os 90 dirigindo... Mas onde eu ando, o trânsito ainda é tranquilo. Da Duque de Caxias para baixo está complica. A cidade não foi desenhada para ter essa frota. Aliás, o mundo inteiro. É um absurdo a quantidade de automóveis. Fiquei fora de Bauru enquanto estudei, depois voltei para trabalhar. Estou há 60 anos aqui. Acho uma beleza o que a cidade cresceu, mas não gostaria que crescesse mais.
JC - E na sua área, a medicina, como o senhor avalia o crescimento?
Gilberto Cunha - Bauru já perdeu terreno. E em todas as especialidades. Bauru já comporta uma faculdade de medicina. Saiu em Marília, em Botucatu, em outras cidades. E Bauru? Nada. Para cidade seria muito bom. Pessoal fala que não tem hospital para residência, mas tem hospital grande. Tem o da Famesp. Como as outras conseguiram? Bauru é o centro do Estado. Tem médicos ótimos, mas falta algo mais. E a faculdade de medicina seria interessante. Penso que falta força política. Não só em Bauru, mas no País inteiro. Precisamos vencer essa crise. Bauru tem que tomar um novo impulso.
JC - O senhor está com 87 anos...
Gilberto Cunha - E meio! (risos)
JC - Ok. O senhor está com 87 anos e meio, ainda dirige, é muito ativo...
Gilberto Cunha - Mas depois que eu perdi minha mulher, Nair, metade da minha felicidade foi interrompida. Me dava muito bem com ela. Ela me aguentava. Era uma mulher maravilhosa. Não tinha mulher igual. Enfrentou a morte do irmão dela (Fuas de Matos Sabino), da cunhada (Mirian) e de dois sobrinhos. Sofreram um acidente na Dutra, em 1974. Morreu o casal e dois filhos pequenos. Fuas era ortopedista em Bauru e faleceu com 46 anos. A mulher, Mirian de Oliveira... Foi uma tragédia. E a Nair enfrentou. Aceitou os sobrinhos que sobreviveram como filhos. Eu também aceitei. Fui dormir com três filhos e acordei com seis. E hoje tenho dez netos, nenhum bisneto. Antes de eu morrer quero ter um bisneto. Preciso chamar esses netos e conversar com eles (risos).
| Samantha Ciuffa |
![]() |
| Gilberto Nunes da Cunha com as irmãs Maria Teresa e Gilda |
PERFIL
Gilberto Nunes da Cunha tem 87 anos - "e meio", frisa. Nasceu em 20 de setembro de 1929, em Bauru, em uma casa que ficava na rua 7 de setembro com a Antônio Alves. Causou-se com Nair Matos da Cunha, com teve três filhos biológicos, mas criou seis - Gilberto, Carlos Roberto (falecido), Ana Cristina, Patrícia, Fernão e Pedro. Tem como hobby a fotografia. Gosta de música clássica, mas quase não ouve. "O ouvido anda meio ruim", reclama. Time? São Paulo é o time do coração, mas ele confidencia que, hoje, não sabe nem a escalação. E dá Nota 10 para a esposa Nair Matos da Cunha, que faleceu em 2008. "Ela foi tudo para mim." Nota 0? "Não ia ter espaço" (risos). E emenda: "Mas imagina esse (Sérgio) Cabral, ex-governador do Estado do Rio de Janeiro. O que ele fez... Pode uma coisa dessa? O que merece uma pessoa dessa?".

.jpg)