Sentado na sala pequena depois de um duro dia de trabalho, coluna dolorida, olhou com afeto para o filho mais velho acudindo o mais novo de um quase tombo. Foram várias quase quedas em um espaço estreitinho de tempo. Era uma espécie de abdominal cai não cai. A mulher da casa ainda trabalhando. Estava esperando o horário da liberdade para então esperar do lado de fora o ônibus, apelidado de coletivo. Andando o tempo, avistou um coletivo irônico chacoalhando em sua direção, transbordava gente lutando por privacidade. Saltando de uma inevitável experiência de micro invasões de espaço, o corpo teve um momento de alívio e ânsia de se afetar com as suas crianças. Chegou em casa e ela ficou mais apertada, ao mesmo tempo, mais feliz.
O tempo dos afagos da chegada foi curto, pois o pouso em casa tinha que ser tomado pela razão de preparar mais um dia de amanhã, mais um dia dureza da vida. O lapso de tempo dos afagos foi sentido longo e duradouro, como que deixando um registro da vida que vale na memória. Vale a pena! Depois da labuta - segunda jornada - descansaram casal com pouca conversa para esvaziar a cabeça e folgar as dores. Ele percebia que desemprego provoca busca - andança, que por sua vez constrói dores, aquela das pernas e a outra da humilhação. Esta mais difícil de explicar, pois carrega a cabeça e o peito fica angústia.
Numa espécie de anestesia televisiva escutavam conselhos de especialistas engravatados ou descolados: a solução para vida de pouca renda é poupar para depois, mas antes de tudo quitar dívidas; a solução para muitas dívidas é renegociar e financiar uma dívida em 49 meses; a solução para as dores é trabalhar mais; a solução para desemprego é da sua conta; a solução para doença é da sua conta. Contribua... Contribuia por quarenta e nove anos que seu dia virá... Vale a pena! Quase pegando no sono, sentindo a madeira do sofá vencido, ouviam lá longe um mantra: saiam da zona de conforto... saiam da zona de conforto...
Parece que os conselheiros eram apelidados de economistas e não se interessavam por gente. O casal enfim pegou no sono e sonharam quase juntos o mesmo pesadelo. Em imagem preto e branco se viam deixando como herança para os filhos, já sofridos na infância, uma pena de 49 anos de trabalhos forçados. Deixavam como herança o abandono e o desamparo. Era o presente de um tempo em que os mais velhos não acudiam os mais novos e riam de seus tombos. Tempo em que os mais velhos seriam apenas peso para os mais novos. No pesadelo, os filhos passariam a vida com um lastro, espécie de tornozeleira de uma condenação, âncora que os puxava sempre para baixo. Os velhos morreriam ao próprio azar e ninguém reparava. O peso da condenação de ambos ia sendo reforçado maquiavelicamente dica após dica...
Acordaram assustados com a sensação de que o futuro nunca chegaria, nem para os filhos! Acordaram novamente assustados e logo de manhã foram para a rua. Acordaram e outra manhã foram para rua. Acordaram e foram para as ruas!