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As tentações da carne

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Quem disse que "a carne é fraca" foi Jesus (Mateus, 26.41). Alguns não conseguem vencer as fraquezas da carne porque fingem que elas não existem, que elas não são fortes. Acabam derrubados. Santo Agostinho, que mergulhou fundo no mistério das tentações, ensinava que o homem é feito de carne, sujeito a toda sorte de desvios na vida que deveria ser sã, conforme os preceitos deixados na terra pelo Salvador. Conhecer a si mesmo, saber o quanto é fraco para evitar os descaminhos, seria uma maneira de resistir às tentações.

Justamente na Quaresma, quando os católicos procuram se abster da carne, surge mais esse escândalo. O Brasil é o maior exportador do mudo em carne bovina e suína. O quarto em carne de frango. O faturamento anual dos produtos mandados para o exterior chega a R$ 14,5 bilhões.

A agropecuária nacional ganhou fama com seus avanços tecnológicos. Os criadores conseguiram afastar as suspeitas quanto as possibilidades de transmissão de doenças virais como a febre aftosa, carbúnculo, peste suína e gripe aviária. Muitos recursos foram dispendidos em medicamentos preventivos e cuidados sanitários, para que o Brasil conseguisse ser aceito pelo exigente mercado internacional. Confirmadas algumas das denúncias, corremos o risco de todo o esforço se perder, por causa das tentações do dinheiro fácil.

O grupo JBS (Friboi), com 200 mil funcionários, transformou-se num grande player a partir de 2003, no governo Lula, graças aos generosos empréstimos do BNDES. Boa parte dos financiamentos foram convertidos em ações. O banco estatal de desenvolvimento é importante sócio da empresa.

Graças ao dinheiro público, o ex-açougueiro de Goiânia comprou empresas com o dobro do seu tamanho: Swift, Seara e frigoríficos nos Estados Unidos e Austrália. Tem ainda fábricas de celulose, biodiesel, emissora de tevê (Canal Rural), curtumes no Brasil e no Vietnã. Tudo comprado com o nosso dinheiro.

A concorrente BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, briga com o JBS pelo mesmo nicho de mercado e os custos finais para os consumidores são importantes na hora de vender. Fazem parte dessa composição de preços, distribuir propinas a fiscais, financiar campanhas de partidos políticos (R$ 388 milhões), usar carne vencida ou armazenada em temperaturas inadequadas e até lançar mão de produtos cancerígenos para disfarçar cor e cheiro. Bismark dizia que se todos soubessem como são feitas as salsichas, ninguém comia. Papelão e cabeça de porco nos embutidos fazem parte desse realismo fantástico.

Os chineses e os árabes, maiores compradores, não estão gostando nada dessas notícias. Pelos mesmos motivos os alunos das escolas públicas do Paraná, que consumiram merenda com essas porcarias. As tentações da cobiça atingem o próprio ministro da Justiça Osmar Serraglio (PMDB-PR) que teve conversa grampeada com o fiscal agropecuário, tido como o articulador da máfia. Durante o diálogo, chama Daniel Gonçalves Filho de "grande chefe'. Ao assumir a Justiça, Serraglio comprometeu-se a jamais interferir em investigações da Polícia Federal. Outros seis ministros são alvos de pedido de inquérito na Operação Lava Jato. Enquanto a coisa anda, o Brasil vira piada internacional.

Viralizou no YouTube a paródia do comercial premiado, com Tony Ramos. No vídeo, o autor mostra a linha de produção da JBS e diz: "Aqui misturamos frango com papelão". Todos os contratos de publicidade estão suspensos. Melhor não falar em carne por um bom tempo. O que fazer com Fátima Bernardes que é personificação do presunto e da linguiça?

Vários sites internacionais contam a história dos fantasmas pressentidos pelo presidente brasileiro no Palácio Alvorada. A energia era negativa, o clima pesado, o que fazia com que Temer não conseguisse dormir. A residência oficial estaria assombrada por fantasmas.

O Papa Francisco, ainda na sexta-feira recomendava o exorcismo para quem tem inquietações espirituais. A consciência pesada é que produz transtornos de natureza psicológica, a exemplo do personagem de Dickens. Outro dia, o presidente elogiou a mulher, mas em matéria de economia doméstica.

O Brasil tem sido notícia no mundo pelas piores razões. Um escândalo por semana e duas patacoadas por mês, do presidente. Não são só os fantasmas que querem Temer fora do governo.

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