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Entrevista da Semana: Manoel de Queiroz Pereira Calças

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 7 min

Samantha Ciuffa
"Você tem que ser vocacionado, atender o chamamento interno..." , realça Manoel de Queiroz Pereira Calças

Quando a entrevista com o corregedor-geral da Justiça do Estado de São Paulo, desembargador Manoel de Queiroz Pereira Calças, começa, já nas primeiras perguntas as respostas surpreendem não só pelo didatismo (sim, ele é professor) como pela paixão com que discorre sobre cada tema. Uma hora depois, ao final da conversa, têm-se a certeza de estar diante de homem apaixonado pelo direito, tanto quanto ama a família que construiu, a mulher, o casal de filhos e os dois netos.

Jornal da Cidade - Qual o segredo de, quatro décadas após formado, ainda ter esse brilho nos olhos?

Manoel de Queiroz Pereira Calças - Fazer o que amo. Costumo dizer isso aos meus alunos: vocês têm que ser vocacionados, atender o chamamento interno. Dentro da gama enorme de opções que a advocacia proporciona há de existir um lugar para o qual foi talhado, encontre esse lugar". 

JC - Foi o seu caso?

Manoel de Queiroz Pereira Calças - Sim. Na verdade, eu tenho três profissões. Há 41 anos sou magistrado, há 43 anos, professor de direito (comecei cedo, tive que esperar porque para ser juiz a gente tinha que ter 25 anos completos) e também sou pecuarista de corte.

JC - De corte? Mas o senhor não é de Lins, de família tradicional de criadores de gado de leite?

Manoel de Queiroz Pereira Calças - A família da minha mulher, Maria Amélia Junqueira de Andrade é sim dos Junqueira, tradicional família de criadores de gado leiteiro, mas ela se encantou pelo gado de corte,  e é uma grande administradora. Devo muito a ela. Breve vamos completar quatro décadas de casados.

JC - É uma marca e tanto...

Manoel de Queiroz Pereira Calças - Sim, a fórmula além de muito amor, é ter tolerância, comprometimento. Eu sempre digo que "amar as qualidades é muito fácil, o difícil é conviver com nossos defeitos e, como o ser humano é cheio de defeitos, o segredo está em tolerá-los". 

JC - O senhor também atuou em Vara de Família?

Manoel de Queiroz Pereira Calças - Sim e procurei exercitar isso com os casais em litígio.  Ao longo do tempo aprendi que em uma separação não há um só culpado. Mesmo quando um deles dá o motivo, a culpa é de ambos. E infelizmente toda separação acaba trazendo problemas, traumas, insegurança para os filhos. Minha experiência mostra que eles são os que mais sofrem, mesmo quando já não são mais crianças.

JC - A família é muito importante?

Manoel de Queiroz Pereira Calças - Sim, claro. Venho de uma família grande, oito irmãos. Estudei e fui criado dentro de uma moral católica, de integridade, de valores éticos. Como professor também tento passar isso a meus alunos, há valores seculares que temos que prezar, temos que aplicar o "bonus pater familiae" do latin forense, ou seja sermos "bons pais de família".

JC - A obrigação de um juiz é ser um exemplo?

Manoel de Queiroz Pereira Calças - Temos que ser modelos de moral, prezar por todos os valores éticos. Digo aos que querem atuar na área, que isso não significa que um juiz, não seja um homem contemporâneo e não decida dentro dos valores sociais da época. E por bons pais, não falo só na figura masculina, mas na feminina também. A mulher é muito importante. Hoje elas são as comandantes da família em muitos casos, sabemos disso. 

JC - No caso do senhor o exemplo profissional deu certo...

Manoel de Queiroz Pereira Calças - De fato, meus dois filhos seguiram a mesma carreira minha. O Thomaz (Thomaz Henrique Junqueira de Andrade Pereira)  mora no Rio de Janeiro, atualmente é professor da FGV/Direito Rio, estudou em Yale (Yale Law School, em New Haven, EUA) e é muito requisitado como consultor, fala muito bem, vive na Globo News... e a Ruth, mora aqui em Bauru, formada pela PUC-SP e dá aulas na Instituição Toledo de Ensino (ITE). 

Samantha Ciuffa
Um homem, três profissões: juiz, professor e pecuarista de corte

JC - Um orgulho ter a filha dando aulas onde o senhor se formou em 1972 e onde até outro dia também era professor...

Manoel de Queiroz Pereira Calças - Não posso negar que é isso mesmo. Ela é muito competente. E eu tive que abrir mão das aulas, após assumir a Corregedoria.

JC - O senhor nunca perdeu o vínculo com Bauru? 

Manoel de Queiroz Pereira Calças - Nem aqui e nem com São José do Rio Preto onde também exerci a profissão, embora tenha ido para São Paulo logo que me formei. Continuei tendo amigos na cidade. Acompanhei Bauru...na minha época era uma efervescência, cheguei a ser sócio-estudante do Automóvel Clube. Lamento muito o que Bauru perdeu como referência na ferrovia do país, uma pena. Mas Bauru é uma cidade muito boa, tem muitas referências, como em odontologia, será também em medicina (a filha é casada com um neurocirurgião, Mateus Violin e Silva). Vai se tornar maior ainda o ano que vem, quando a Uninove (Universidade Nove de Julho) implantar o curso de medicina. 

JC - O senhor dá aula lá também?

Manoel de Queiroz Pereira Calças - Sim, sou professor permanente do mestrado e o reitor me disse pessoalmente isso: que o Campus de Medicina de Bauru vai ser o maior deles. Com hospital-modelo, inclusive.

JC - A propósito: entre as universidades em que leciona estão a PUC/SP e a USP/SP, duas, digamos assim, "rivais". 

Manoel de Queiroz Pereira Calças - Pois é, prestei concurso e passei nas duas. E me aceitaram [risos]. Algo difícil de ocorrer. Mas comigo foi assim.

JC - Sua vinda a Bauru esta semana foi como corregedor (não está aqui o professor, nem o amigo de muitos, nem o pai, nem o avô): pode-se deduzir que veio "passar um pito"?

Manoel de Queiroz Pereira Calças - A  Corregedoria já teve esse viés, hoje, não mais. Entendo que se a presidência do Tribunal é o cérebro, a Corregedoria é o coração. Hoje a postura é de orientação, aconselhamento, de aperfeiçoamento, reciclagem dos recursos eletrônicos e, acima de tudo, valorização dos   recursos humanos tudo para aperfeiçoarmos cada vez mais o atendimento ao público.

JC - Para finalizar, o senhor está ciente de que Bauru pleiteia um novo Fórum, uma "cidade judiciária"?

Manoel de Queiroz Pereira Calças - Fui informado pelo dr. João Parra que foi formalizada a doação de terreno de 50 mil metros quadrados para nele ser construído o novo Fórum da Comarca. Soube que já foram solucionadas dúvidas de cumprimento das normas ambientais, que, obviamente, devem ser rigorosamente observadas.

Arquivo Pessoal
Manoel com Maria Amélia (esposa), Mateus Violin e Silva (genro), Lucas (neto), Ruth Maria (filha), Gabriel (neto), Thomaz (filho) e a mulher dele, Gisela Ferreira Mation 

JC - E o que falta?

Manoel de Queiroz Pereira Calças - Diante disso, vamos iniciar um trabalho perante o Poder Executivo, que é o encarregado de construir os prédios do Poder Judiciário, para a aprovação do projeto de edificação do novo Fórum. Não sei se será possível instalar uma "cidade judiciária", (concentração dos prédios do Ministério Público, Justiça Federal, etc). No entanto, tenho convicção de que será possível trabalharmos para a construção de um novo Fórum. Para isso será necessário que as forças políticas de Bauru se unam. Lembro-me sempre de uma lição que recebi no Rio Grande do Sul. Conversava eu com senadores e deputados do Rio Grande do Sul quando fui fazer uma palestra em Porto Alegre e, um deles disse-me o seguinte: "aqui no Rio Grande do Sul, quanto lutamos por algo que beneficie nosso Estado, somos todos "gaúchos", independentemente do partido político que cada um de nós integre".

JC - Então...

Manoel de Queiroz Pereira Calças - Por isso, o conselho que devemos observar quanto ao objetivo comum de edificação do Fórum de Bauru é: "somos todos bauruenses na empreitada do novo fórum, independentemente do partido político de cada Deputado Estadual ou Federal, de cada vereador, do Prefeito, etc". Se agirmos assim, Bauru logrará obter um novo Fórum para reunirmos todos os Juízes, Servidores, Membros do MP e demais operadores do sistema de Justiça da Comarca de Bauru.

Perfil

Com um pé na história da região, o desembargador é de origem portuguesa e neto de desbravador (Manoel Pereira Calças foi um dos fundadores de Lins). É também o avô de Gabriel (10 anos) e Lucas (4 anos) e só “lamenta” o fato de eles serem corintianos e não são-paulinos como ele, brinca, aos risos. Mas o forte dele não é o futebol, gosta mesmo é de uma boa montaria, andar a cavalo. E, nas horas vagas, transforma-se em um leitor voraz. Elege “Um Pilar de Ferro”, lançado em 1965, da escritora Taylor Caldwell, como o seu livro de cabeceira.

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