Bairros

Praça Machado de Mello busca um 'novo sentido'

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 7 min

Fotos: Malavolta Jr.
No dia 1 de agosto de 1996, quando a cidade completou 100 anos de existência, a praça foi reinaugurada, porque passou por revitalização
Se o local abrigasse eventos atraentes ao público, as vendas e a sensação de segurança alavancariam; enquanto isso não ocorre, a região é frequentada, basicamente, por moradores de rua e usuários de drogas
No centro da praça está o busto de Machado de Mello, que deu o nome ao espaço

Logo no início do Calçadão da Batista de Carvalho está a Praça Machado de Mello, que era o portal de entrada em Bauru, no auge da ferrovia, no século passado. O espaço foi inaugurado no dia 13 de maio de 1910, quase simultaneamente à chegada dos primeiros trens, e muita coisa mudou de lá para cá. Tanto que precisa ser repensada e revitalizada para que a população volte a frequentá-la. Assim como ela, outras praças foram esquecidas pelo poder público e pela mudança de hábito das pessoas.

A reforma da Machado de Mello é uma reivindicação antiga dos comerciantes do entorno. Se o local abrigasse eventos atraentes ao público, as vendas e a sensação de segurança seriam alavancadas. Enquanto isso não ocorre, a região é frequentada, basicamente, por moradores de rua e usuários de drogas.

No dia 1 de agosto de 1996, quando a cidade completou 100 anos de existência, a praça foi reinaugurada, porque passou por uma revitalização. Contudo, o processo não bastou para que a movimentação de outrora fosse, de fato, recuperada, ainda que agora sem o embalo das viagens por linha férrea.

UMA DAS MAIS ANTIGAS

Jornalista e editor do Bauru Ilustrado, Luciano Dias Pires relembra que o espaço "nasceu" com a ferrovia. Inclusive, o nome da praça é uma homenagem ao engenheiro responsável por sua construção. Machado de Mello estudou na França e já havia projetado diversas estradas de ferro Brasil afora.

Em volta, bares e pequenos hotéis começaram a se instalar. Viajantes e funcionários da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) convergiam para um único espaço. O pico da movimentação, normalmente, era antes das 11h e depois das 17h, ou melhor, no contraturno do expediente da ferrovia.

Uma das mais antigas praças de Bauru, a Machado de Mello era um ponto de encontro e de passagem também. Com o passar do tempo, esse propósito deixou de existir, mas ela continua lá e pode ganhar novo sentido para existir. Inclusive, a Casa do Hip Hop vem atraindo os jovens para o espaço: no domingo passado, por exemplo, levou música, dança e grafite à velha Estação, agora ocupada não por viajantes e funcionários da ferrovia, mas por manifestações populares de cultura.

Nas próximas páginas, será possível identificar os principais problemas da Machado de Mello e, ainda, uma "luz ao fim do túnel": atrair o público através das atividades culturais e de lazer. O que se sabe é que só a revitalização não basta.

Comerciantes querem mais 'vida' no local

A sensação de insegurança, provocada pela presença de usuários de drogas e moradores de rua, espanta os consumidores do entorno da praça

Fotos: Malavolta Jr.
O vazio da Praça Machado de Mello contrasta com o "corre-corre" do Calçadão da Batista; insegurança é apontada como motivo

Parecia domingo, mas era dia útil. O vazio da Praça Machado de Mello contrastava com o "corre-corre" do Calçadão da Batista, já que a presença de usuários de drogas e moradores de rua espanta qualquer consumidor em potencial. Diante disso, os comerciantes do entorno querem atrações que levem mais "vida" ao local.

Taxista há 31 anos, Geraldo Santana, de 83, possui um ponto em frente à praça. Ele alega que a sensação de insegurança em relação ao espaço não é recente. Porém, a movimentação caiu bastante nas últimas três décadas, fato que intensificou o problema. 

Santana vai além, ao alegar que nem a presença de uma base da Polícia Militar (PM) ameniza a situação. "Antes, eu 'molhava a camisa' de tanto trabalhar. Agora, tenho poucos clientes. O pessoal tem medo de passar pela praça", critica.

Proprietários de uma sorveteria em frente à Machado de Mello, Maria de Lourdes Pirola Lopes, de 56 anos, e Sebastião Lopes, de 60, dizem sentir receio, porém, não houve qualquer ocorrência desde que chegaram ao local, há 11 anos.

Mesmo assim, Maria sugere que as atrações culturais sejam realizadas no entorno da praça e, assim, atraiam o público para o início da Batista. "Com mais gente, maior a sensação de segurança e, claro, venderíamos bastante", acrescenta.

SEGURANÇA

Inaugurada na década de 80, a base da PM, na Machado de Mello, passou por projeto de revitalização há dois anos. O espaço ganhou ar-condicionado, outra pintura, novos pisos, bem como móveis na sala de recepção, banheiro, alojamento e cozinha.

Todas as benfeitorias foram custeadas por entidades que representam o comércio e a indústria de Bauru, como a CDL e a Acib, além de outras oito empresas. A unidade é responsável pela segurança do quadrilátero que vai da avenida Pedro de Toledo até a Marechal Rondon, bem como da Duque de Caxias com a rua Célio Daibem.

Malavolta Jr.
João Rosan/JC Imagens/Arquivo
Em 1996, havia camelôs espalhados pela Machado de Mello; hoje, o local está vazio (fotos acima)
Fotos: Malavolta Jr.
Geraldo Santana, taxista: "Antes, eu 'molhava a camisa' de tanto trabalhar. Agora, tenho poucos clientes. O pessoal tem medo de passar pela praça"
Proprietários de uma sorveteria em frente à Machado de Mello, Maria de Lourdes Pirola Lopes e Sebastião Lopes dizem sentir receio

Aos poucos, Hip Hop retoma o agito de antes

O evento 'Estação Hip Hop' trouxe música, dança e grafite ao entorno da praça; 
com isso, os frequentadores veem uma 'luz ao fim do túnel'

Samantha Ciuffa
Gilson David "Negrito" dança durante o "Estação Hip Hop", cujo objetivo é dar espaço aos artistas locais e regionais

De forma tímida, a Praça Machado de Mello vem reconquistando frequentadores, principalmente em decorrência de ações culturais, tais como o "Estação Hip Hop", promovido pela Casa do Hip Hop, que está instalada na Estação Ferroviária, em frente ao espaço.

Com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura, o evento ocorre mensalmente, aos domingos. Assessora de comunicação da Casa do Hip Hop, Luana Protazio revela que o objetivo é dar espaço aos artistas locais e regionais. A iniciativa, segundo ela, também tira os jovens das ruas e os incentiva a participar das manifestações artísticas.

Luana acredita, ainda, que a instalação da Casa do Hip Hop dentro da Estação Ferroviária estimulou outras organizações a fazer o mesmo. "Com isso, o entorno da praça acaba retomando a movimentação, mesmo que aos poucos", argumenta.

Quem curtia o evento do último domingo era a secretária Daniela Cristina Garcia, de 40 anos. Ao lado da avó, a pensionista Neuza Peral, de 85, ela elogiava a iniciativa. A idosa, por sua vez, relembra a época em que a Machado de Mello funcionava como um ponto de encontro. Inclusive, Neuza conheceu seu marido no local. "Ele trabalhava na ferrovia e passava por lá diariamente", acrescenta.

OPÇÃO DE LAZER

Já a estudante Karen Cristina de Oliveira Pereira, de 17 anos, frequenta o "Estação Hip Hop" há um ano. Segundo ela, a iniciativa é uma das poucas opções de lazer que os jovens têm, logo, não pode deixar de ser aproveitada.

Grafiteiro desde 2008, Walter Vinicius de Mattos, de 27, acredita que o evento seja uma forma de mostrar o caminho à periferia. E mais: realizá-lo em uma área tão central garante o fácil acesso àqueles que vêm de qualquer bairro da cidade.

Também grafiteira e uma das gestoras da Casa do Hip Hop, Tatiana Vieira, de 33, alega que a organização realiza um trabalho social importante, inclusive, junto aos moradores de rua que pernoitam no entorno da praça. É uma forma sutil de diminuir a sensação de insegurança e reconquistar a confiança dos frequentadores.

SERVIÇO

A Casa do Hip Hop fica no primeiro andar da Estação Ferroviária, situada na Praça Machado de Mello. Telefone: (14) 99828- 4411. Site: https://www.casahiphopbauru.com.br. Facebook: Casa do Hip Hop Bauru.

TODO MÊS

Com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura, o evento ocorre mensalmente, aos domingos.

Samantha Ciuffa
"Estação Hip Hop": proposta é dar espaço aos artistas e aos jovens

 

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