Tribuna do Leitor

REGULARIZE-SE E CIVILIZE-SE

Thyago Cezar, Fellype Borges e Mário Henrique da Luz do Prado
| Tempo de leitura: 2 min

Vemos nosso município desejando, por meio do Poder Legislativo, tornar clandestinas as festas que não estivessem realizadas dentro de suas exigências de regularização. Cremos, de início, que os vereadores que encabeçaram o projeto não conhecem uma linha sequer da Constituição da República do Brasil, mas quanto a isso não trataremos neste artigo, para não tornar sua leitura técnica - mas talvez divertida, enquanto isto não for proibido por legisladores elitistas.

Foi há dez mil anos que o homem descobriu o método de fabricação da cerveja, mas o primeiro bar demorou a surgir, pois aguardava-se autorização para funcionar. O homem descobriu também o fogo, mas não podia fazer "fogueira de São João", pois não existia, ainda, nenhum São João. Usava o fogo só para se esquentar e fazer luz - que chato, né?

A festa de Pentecostes, relatadas no velho testamento, só acontecia uma vez por ano - e as de hoje só acontecem nos dias de pagamento de salário. E a cerveja, criada muito antes, não era vendida pois ainda se aguardava a licença de sua venda (a repartição pública era muito ocupada). Nos Feudos, as festas eram restritas aos Senhores Feudais - os Vassalos, por mais "puxa-saco" que fossem, não eram convidados para a festinha de aniversário das crianças da elite Feudal.

Os escravos faziam suas festas - que eram tidas por clandestinas, e eram, por muitas das vezes, reprimidas. Muito tempo demorou para que o homem fosse suficientemente livre para festejar. Não se faz possível crer que uma dezena de homens engravatados possa querer definir o conceito de festa, e restringir este conceito para um sistema de aceitabilidade que passe pelo seu crivo regulatório.

A Câmara de Vereadores de Bauru é, claramente, local onde se votam as leis da cidade por gente que não conhece a cidade, não conhece seu povo. E, provavelmente, local onde nunca foi lido o texto da Constituição da República, em que o lazer é direito fundamental. Lembra-se, com igual temor, da política antidrogas dos Estados Unidos da América, que não trouxe senão autorização para a polícia podre, torpe e truculenta agir com seus abusos contra negros e pobres nos guetos.

Alguém aí duvida que, com a Lei das Festas de Bauru, a nossa polícia, a que mais mata no mundo todo, irá ser truculenta - agora com autorização legal - nos bairros pobres, e será permissiva na zona sul? Todo mundo já sabe como será.

A criminalização das festas servirá para definir bem quem pode se divertir: negativo para quem quer beber cerveja barata nas comunidades, positivo para quem quer beber cerveja "premium" importada nos barzinhos da Getúlio Vargas.

Choremos, mas sem clamor. Rasguemos a Constituição, mas não celebremos, pois a isto somos proibidos.

 

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