Na contramão do mundo moderno, estamos nós afogados na praia e ainda com o firme desejo de continuar a nadar. Somos homens e mulheres, novatos e experientes, e mesmo assim nos enganamos quase que diariamente; pensamos bobagens, remoemos ideias antigas e transpiramos uma infinidade de sonhos e lutas perdidas, pois, somos tão inocentes e tontos que incorporamos utopias distantes, sonhos errantes e futuros brilhantes que não nos pertencem. É o que nos faz continuar, aliás, depende, pois o salário não é muito atraente.
Na maioria das vezes, somos conduzidos por sistemas robóticos, gestores tóxicos, pressões, imposições e avaliações que nos levam a parar e refletir: continuar ou desistir? Diante disso choramos, gritamos e esperneamos por dentro de nós mesmos - ninguém percebe - mas nossas almas gritam em silêncio e, talvez, por muito orgulho ou medo, centenas de sapos a seco acostumamos a diariamente engolir, a fim de manter ao mundo aquele sorriso amarelo, as cadernetas assinadas e a irônica esperança sempre por perto, de como se nada estivesse acontecendo. Mas, acontece.
Seguimos fadados à esperança, preparamos jovens e crianças, a serem mastigados e engolidos pelo mundo covarde que insiste em nos devorar. Construímos as mãos do operário e também as do doutor; somos nós os responsáveis por todas as formas existentes de labor e nos enchemos de alegria, quando no final de mais um fracassado dia, encontramos na rua, todo contente, aquele ex-aluno que de longe grita sorridente: "- Ei, professor! Hoje também sou como o senhor!"
E, por mais que a razão nos pressione a pedir, para que o quanto antes o jovem Mestre deva desistir, nossa alma em desacordo entrará festa, transbordando com a pouca alegria que nos resta, pois sabemos, lá no fundo, que não haverá nesse mundo um único dia, sem que exista um louco com muito amor ao ensinar.
A luta é constante, as correntes e os grilhões que arrastamos ao longo da vida apenas se soltam no exato momento em que nosso espírito se desgruda dos nossos corpos errantes. Estamos condenados à esperança, e isso supera qualquer outra pena cruel, pois, somos obrigados a nunca desistir - é esse mesmo o nosso papel? Fomos sentenciados pelos tribunais da vida a sustentar, com terno amor e alegria, nos ombros cansados, os sonhos regrados por um mundo inteiro, em silêncio, pois o mesmo mundo que construímos com muito sangue e suor se tornou também o algoz das nossas maiores tristezas e desprezos.
Que continue brilhando nos olhos dos jovens o perpétuo desejo do sempre aprender - estes meninos e meninas nos ajudam, sem negar e temer, a carregar, pelo denso deserto da história, as bolas de ferro do ainda querer ser, eternamente, professor.