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Câncer é azar, herdado ou descuido? Por Alberto Consolaro


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Câncer interessa a todos, pois nos leva vivo e consciente ao limite do fim da vida com o início da morte. Diferente do infarto, o câncer dá um tempo para você pensar, refletir, medir, decidir e aceitar! No infarto ou acidente é de repente, acabou-se!

O câncer permite que negocies seu perdão com todos o que fez na vida, dá a oportunidade de articular sua morte! Terás alguns meses para gerenciar sua morte, o que beira o macabro, mas é real. Se não virar um ser melhor depois de um câncer curado, Vinicius de Moraes recomendaria a música "Testamento".

CASTIGO?

Na época dos tataravós, quando alguém nascia com defeitos, a sociedade traduzia como castigo divino e carma. As famílias escondiam estas pessoas. A ignorância era grande e atribuir isto como obra de Deus era compreensível, mas hoje esta explicação é pura maldade, pois sabemos como e por que ocorrem! Deus jamais permitiria este tipo de castigo!

Se têm dezenas de tipos de câncer, afinal temos 206 tipos de células no total de 10 trilhões. A grande maioria está a proliferar a qualquer momento, um processo de divisão chamado mitose. Em poucos minutos, a célula terá que copiar rapidamente 25 mil informações para que funcione normalmente. Estas informações são chamadas de genes.

Imagine trilhões de células se duplicando em minutos: qual a possibilidade de algumas células copiadas saírem defeituosas? Estatisticamente, a chance é enorme e ocorre todos os dias, recebendo o nome de mutações. Só não temos câncer todos os dias por que se acionam os mecanismos que reconhecem e destroem as células defeituosas com mutações. Potencialmente temos células cancerosas todos os dias no corpo!

Estes mecanismos eliminadores das células mutadas, e cancerosas em potencial, são: 1) As células NK ou "Natural Killer" que circulam como policiais de vanguarda pelo organismo, 2) Os linfócitos T do sistema imunológico e 3) O gene p53 da própria célula defeituosa e que induz sua autodestruição, um suicídio conhecido como apoptose, para que não se gere novas formações no corpo conhecidas como neoplasias (neo=novas plasias=formações).

QUE AZAR!

De todos os tipos de cânceres humanos, apenas 10% são familiares. Nestes casos, o câncer é decorrência de defeitos celulares que ocorreram e ficaram registrados nos gametas ou células reprodutivas do pai ou mãe. Desta forma, as informações defeituosas herdadas podem gerar câncer nas gerações subsequentes. Certos tipos de câncer de mama e alguns de intestino grosso assim se comportam. Os casos familiares chamam muita atenção da opinião pública, mas saibamos: câncer não é hereditário em 90% dos tipos.

Células que não tem mutações herdadas no corpo podem passar a tê-las por duas situações. 1) A primeira, que representa a minoria das mutações encontradas, foram induzidas por fatores ambientais como raios solares, HPV, álcool, tabaco e agentes químicos ingeridos e respirados. 2) A segunda, e que representa 66% das mutações que dão origem aos cânceres humanos, simplesmente ocorreu por um azar, má-sorte, estatisticamente erros aleatórios nas 10 trilhões de células se multiplicando a todo momento: algumas acabam saindo defeituosas e escapam!

Estes dados eram conhecidos, mas receberam um reforço de credibilidade muito grande a partir do estudo publicado na "Science" sobre 17 tipos de tumores em 69 países por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins e Escola de Saúde Pública Bloomberg, coordenados por Cristina Tomasetti e Bert Vogelstein.

COMO ASSIM?

Se as células NK, os linfócitos T e o gene p53 estiver funcionando adequadamente, as chances destas células mutadas dar origem a um câncer diminuem muito! Excluindo os 10% de tipos de câncer que são herdados, os outros cânceres são descuidos na forma de viver pelos contatos com fatores ambientais indevidos ou a falta de ação mais efetiva dos mecanismos de defesa contra o início de um câncer, o que tem a ver com o estilo de vida!

Vinicius de Morais termina a música "Testamento" assim: - Você que não para pra pensar, o tempo é curto e não para de passar, você vai ver um dia, que remorso! E continua: - Como é bom parar, ver um sol se pôr ou ver um sol raiar e desligar, e desligar!

Se cuide.

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. 

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