No momento, é mais fácil ser de esquerda do que não ser, mas nem sempre foi assim. Nos tempos da Revolução Comunista que ocasionou a formação do regime soviético na Rússia, para Lenin, especialmente, sempre foi muito difícil ser Lenin. Até assumir o comando da União Soviética, ou pouco antes, o homem praticamente não tinha onde cair morto. Vivia a dois passos da prisão, exilado, em desconforto material extremo, sem ajuda da mídia, dos formadores de opinião e da classe artística. Ninguém chagava lá, na época, financiado pelo imposto sindical, por comerciais de televisão milionários e pelo caixa dois de empreiteiras de obras públicas. A vida era dura. Para ser de esquerda, o sujeito tinha realmente de ser de esquerda.
É curioso que o primeiro centenário da Revolução de 1917 venha ocorrer quando o regime criado por ela já não existe mais - foi demolido, sem o disparo de um único buscapé por parte dos adversários, em consequência de seus fracassos, sua demência interna e suas enfermidades de nascença. É também interessante notar que o regime revolucionário produziu uma ditadura absoluta do primeiro ao último dia de sua existência. O comunismo, enfim, acabou sendo uma das experiências que deram mais errado na história política dos seres vivos. Dá para comemorar uma coisa dessas? Sim, podem ter certeza de que dá. É compreensível, levando-se em conta a quantidade cada vez maior de "gente de esquerda" espalhada hoje em dia mundo afora - e "gente de esquerda" tem entre os seus deveres mentais prestar reverência automática a essas assombrações do passado.
A verdade é que no momento é mais fácil ser de "esquerda" do que não ser, e nem sempre foi assim, ao contrário, e já foi difícil - e perigoso, acredite se quiser, mas houve tempo neste país em que você podia acabar na cadeia por ser de esquerda.
Hoje ser de esquerda no Brasil é a coisa mais fácil desta vida. Você pode ser ministro do governo de Michel Temer e ser de esquerda. Pode ser um Eike Batista e, ao mesmo tempo, "campeão nacional" dos ex-presidentes Lula e Dilma. Pode ser o ex-governador Sérgio Cabral, que viveu anos como um herói do PT. Pode receber prêmio literário de 100.000 euros, dos quais o governo brasileiro pagou a metade, e discursar contra o "golpe" na hora de pegar o dinheiro. Pode ser ministro do Supremo Tribunal Federal, depois de advogar para o maior partido da esquerda nacional ou para "movimentos sociais". Pode, como militante, receber verbas do Banco do Brasil, cesta básica e lanche quando é chamado para se manifestar na rua, além de diária e ônibus fretado. Pode estar na cadeia por corrupção. Pode ter emprego no Itamaraty. Pode ser reitor, procurador público, arcebispo. Pode trabalhar na Rede Globo. Não precisa ler um único livro - Marx, então, nem pensar. Não precisa, Deus o livre, exigir a extinção da propriedade privada, sobretudo a sua. Não precisa entrar no PT e pagar contribuição mensal de 10% do que ganha.
É preciso apenas ter "posição" sobre uns tantos assuntos. E quais são as "posições" que o brasileiro interessado em tirar a sua certidão de "pessoa de esquerda" deve assumir?
Alguns exemplos: ser contra qualquer mudança na legislação trabalhista. Num momento em que 12 milhões de brasileiros estão desempregados, sustentar que as pessoas não precisam de emprego, e sim de proteção - mesmo que não tenham mais emprego nenhum para ser protegido. Ser a favor da aposentadoria das mulheres aos 50 anos, e de todas as regras parecidas com essa - a começar pelas que permitem a aposentados do serviço público ganhar mais de R$ 50.000 por mês, ou seja lá quanto for.
Ser contra o "agronegócio" e a favor da "agricultura familiar".
Acreditar que a única maneira de reduzir a pobreza é tirar dos ricos. Só o Estado, com a arrecadação dos impostos - que idealmente, devem ser sempre maiores - tem a capacidade de distribuir renda. Cobrar imposto, por esse entendimento, é criar riqueza. Pelo mesmo entendimento, os pobres só existem porque existem os ricos.
Assinar manifestos de intelectuais, mesmo que você confunda Kant com Clark Kent.
Por hoje é o que temos. Adeus, Lenin.