Tribuna do Leitor

As nuances da cor rosa...

Janira Fainer Bastos - doutora em Estética e História da Arte
| Tempo de leitura: 3 min

Não se preocupem, não vou comentar cores e nem flores. Geraldo Vandré fez isso. De verdade, ele diz que caminhando e cantando somos todos iguais, braços dados ou não... Se eu fosse escrever sobre a obra de Cicero Dias discutiria quadros e cores. Talvez eu contasse sobre quem era seu padrinho de batismo: padim Ciço. Excomungado... Qual o motivo? O pintor acreditava em disputa pelo poder, rivalidade, dor de cotovelo pelo prestigio do homem santo. Hoje quase santo mesmo: foi beatificado. Caetano Veloso?

Eu abordaria poesia e terreiros, onde Iemanjá é minha predileta. Se tivesse que discorrer sobre catolicismo escolheria o padre Fábio de Melo pela sua coragem em defender a aceitação das pessoas independente de sua escolha sexual, afinal somos todos iguais, braços dados ou não... Se fosse falar em Ruth Cardoso contaria sobre seu trabalho social, ah! Ruth Cardoso me lembrou sobre um troféu designado Triangulo Rosa. Triangulo, figura geométrica limitada por três retas, daí trilátero. Rosa simboliza paz e amor. Em alguns países orientais significa confiança e está ligada ao casamento. Na Amazônia existe uma lenda famosa sobre o boto cor de rosa. Um sedutor por natureza!

Enfim, a cor rosa tem muitas nuances e não pretendo falar aqui sobre elas. Vou contar como o tal trilátero apareceu. Foi na Alemanha nazista, onde os campos de concentração abrigaram milhares de judeus. Para diferenciar as pessoas, foram empregados triângulos amarelos, pretos e rosas. Depois de algum tempo, a estrela de David amarela identificava os judeus e o triangulo rosa os homossexuais. Na atualidade passou a ser símbolo de movimentos internacionais favoráveis às minorias sexuais.

Menos conhecido que a bandeira arco íris, o triangulo acabou escolhido pelo Grupo Gay da Bahia como o símbolo para homenagear esses defensores, sejam eles quais forem, mas preferencialmente aqueles que de maneira direta ou indireta defendem os gays. Isso não quer dizer que os premiados sejam homossexuais. No inicio do texto eu citei algumas pessoas sem nenhum tipo de preconceito que discursaram a favor desses agrupamentos humanos ou sociais e foram premiadas. Entidades como a Prefeitura de Fortaleza, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, a Petrobras estão entre elas.

Nesse ano, além da C&A e da apresentadora Luciana Gimenez, o senhor Roberto Francisco Daniel, sim, ele mesmo... o Beto foram os ganhadores do troféu Triangulo Rosa. O padre Beto, excomungado pela igreja católica por ter feito declarações a favor da diversidade sexual. Ué, onde está o pecado? Jesus não aceitava as prostitutas e não tirou os vendilhões do templo? Esse é o Cristo que eu admiro. Quanto a dar a outra face, jamais!

A postura de contestação das verdades cristalizadas e nem sempre verdadeiras é o motivo de minha admiração pelo Beto e me fez vibrar ao ver o nome dele entre os premiados. Pois, padre Beto faz o discurso antecipado do papa. Recentemente, Francisco usou "genocídio" para designar os fatos ocorridos na Armênia, logo depois declarou: "a Igreja Católica deveria pedir perdão aos gays" pela maneira como os têm tratado. Se Cicero Dias fosse vivo eu repetiria a pergunta: excomungado por quê? Ele deve estar rindo lá no céu e dizendo: a injustiça se repetiu. Não sei se digo valei-me meu padim Ciço ou parabéns pelo merecido Triângulo Rosa Padim Beto!

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