Economia & Negócios

Primeira-dama da Peugeot no Brasil

Nélson gonçalves
| Tempo de leitura: 8 min

Douglas Reis
Inauguração da Lumière Peugeot

Ana Theresa Borsari e Luis Carlos Bianchini

Ana Theresa Borsari assumiu o comando nacional da Peugeot no Brasil em meados de 2015, focou no projeto de reposicionamento da marca e, mesmo no período de crise, conseguiu ver o construtor de carros franceses ter crescimento nas vendas, enquanto o mercado nacional de veículos despencava. Única mulher no comando de uma das 15 montadoras de veículos por aqui, Borsari inaugurou revenda em Bauru, semana passada, apontada como projeto piloto da guinada que a marca quer dar no mercado interno.

Para tanto, a executiva inclui elementos diferenciais de seu plano de negócios. O reposicionamento da marca na direção do segmento de carros premium (luxo), o que significa ampliação das margens em detrimento a menor volume de venda, a determinação (característica que ela atribuiu como essencial da mulher) e escolha criteriosa de parceiros: no Interior, o empresário dono do grupo Lumiére, Luiz Carlos Banchini, é o porta-voz dessa estratégia.      

Ana Theresa Borsari, 44 anos, é advogada formada pela USP e está na Peugeot desde 1995. Como executiva no grupo, passou por diferentes postos na operação brasileira. Em 2010 deixou o cargo de diretora de marketing da marca no País para ser responsável pela coordenação comercial da Peugeot no sul da Europa e a primeira mulher a comandar uma unidade do Grupo PSA no mundo. Borsari concedeu entrevista exclusiva sobre negócios, mercado, pós-venda, venda de carros de luxo no Brasil e a arte de vender carros.   

Jornal da Cidade - Das 15 marcas que atuam no Brasil, a Peugeot conseguiu crescer mesmo no meio da crise. Mas a participação de mercado da montadora no País caiu nos últimos anos de algo perto de 3% para 1%. Como a senhora avalia esses dois patamares?

Ana Theresa Borsari - Com relação à marca, ela se reposicionou. Ao final de 2014, há um novo posicionamento mundial da marca, passando a atuar nos segmentos mais premium do mercado. Com esse posicionamento em modelos voltados ao segmento premium, é normal que aconteça uma redução na participação global de mercado. Mas, apesar disso, e mesmo diante da crise, a Peugeot cresceu em participação de mercado em 2015 e em 2016, passando de 1% para 1,3% de share, ou seja, cresceu 25% mesmo em um ano de crise econômica, em um ano de catástrofe de performance do setor automotivo. E isso se deu porque ela já estava com esse processo de reposicionamento para o segmento premium consolidado. Então, a questão da crise é relativa. Porque ela traz mudanças nas vendas, nos números, mas também dá oportunidade para a marca se reposicionar.

JC - O preço médio dos veículos da Peugeot também aumentou. Algo em torno médio de R$ 3 mil. Se estava em curso o reposicionamento da marca para o segmento premium, isso significa pouco impacto. Mas como a senhora vê essa questão de patamar de preços e modelos para manter e atrair clientes da classe média brasileira?

Borsari - A boa comparação, para nós, sugere voltar ao preço médio de 2014. Porque é a partir de lá que a marca inicia o reposicionamento de segmento com seus produtos, e isso faz diferença na análise seguinte. Em termos de preço médio, de uma forma global, a Peugeot tem aumento de 30% no preço dos carros no mercado em razão de sua estratégia para o segmento premium. Outra coisa importante a dizer é que a Peugeot não é uma marca de atuação exclusiva em um segmento. A Peugeot atua inclusive nos segmentos mais compactos. Mas, de outro lado, temos em cada um desses segmentos carros mais equipados e com mais tecnologia embarcada, o que leva a marca a se posicionar nesses segmentos com preços acima em razão dessas características.

JC - Apesar do reposicionamento voltado ao segmento premium, como a marca está agindo para tirar proveito de ter o carro mais econômico do Brasil?

Borsari - Nós lançamos no ano passado o novo Peugeot 208, com uma nova configuração do motor 1.2 Pure Tech Flex tri-cilíndrico, revolucionário no mercado brasileiro e que hoje é o carro mais econômico do Brasil. Então é uma quebra de paradigma, porque a Peugeot tem hoje o carro, pelo Inmetro, mais econômico do mercado brasileiro e com motor 1.2 e isso exprime esse momento novo da marca também no mercado nacional e da estratégia de trazer o melhor da tecnologia embarcada do grupo para o consumidor brasileiro.

JC - De que forma sua experiência com a área de Direito, em especial com o Procon e o Direito do Consumidor, lhe trazem outro olhar executivo no segmento automotivo?

Borsari - Sem dúvida, o consumidor é exigente e, cada vez mais, olha, pesquisa e observa condições sob vários aspectos para decidir sua opção pela compra por esta ou aquela marca. E, além do projeto do carro e da tecnologia, da segurança e conforto, da economia, da performance, é fundamental para a Peugeot o tipo de parceiro que ela vai escolher para ser os nossos consumidores. O perfil de quem vai distribuir, vender e prestar serviços para o consumidor é fundamental para esse novo patamar do negócio. É uma plataforma de pós-venda concebida com esse compromisso, para atender a essa demanda. E a Peugeot trouxe para o Brasil a melhor plataforma de mercado de pós-venda para o consumidor.

JC - Fidelizar é tão importante quanto vender o carro. O que é fundamental para conquistar o consumidor brasileiro?

Borsari - Nós acreditamos que seja no encantamento do cliente no contato, no serviço de pós-venda, que a gente vai acrescentar ao nosso fantástico potencial de produto o ingrediente essencial, a mais, para fidelizar. Dar segurança na compra de um carro novo e satisfação na relação pós-venda. Além disso, lançamos um novo produto de recompra garantida de carros da marca, que se chama o Renova Peugeot, para dar a segurança para o consumidor, ao comprar seu carro novo. Ele sabe exatamente, de sua revenda, por quanto esta revenda vai comprar este carro e isso é uma garantia diferenciada no mercado.

JC - E como essa política de pós-venda se encaixa com a característica do mercado brasileiro de depreciação abrupta do valor do carro novo para o semi-novo e nossa cultura de renovação do carro?

Borsari - Na verdade, o ciclo de vida de um carro novo no Brasil é de dois anos e meio. É uma característica específica do Brasil. Na Europa, isso é de oito anos. O consumidor brasileiro considera que ele vai renovar o carro dele há cada dois anos e meio, na média. Isso, por um lado, gera um mercado de seminovos recente bastante atrativo. E tem ofertas nessa faixa de preços para consumidores que não conseguem acessar o carro novo de ofertas muito boas, em ótimo estado mecânico, e que acabam também sendo interessante para o consumidor final.

JC - Mulher, segundo as pesquisas de mercado, decidem mais a compra do que os homens. Como o olhar feminino executivo da senhora está sendo colocado a serviço da estratégia da marca?

Borsari - A maior característica da mulher é a determinação. Quando a mulher quer alguma coisa, ela acha os caminhos para que a coisa aconteça. E talvez essa seja a dinâmica principal que a gente quis implementar na Peugeot, sobretudo a partir deste novo momento da marca, neste ano. Por exemplo, colocando a crise de lado e não como centro dos negócios. Colocar a crise como algo existente, mas que pode e deve gerar sinergia para negócios. A aceleração do business talvez seja nossa principal missão, uma determinação para manter essa estratégia de negócios. O foco.

JC - Então, no meio da crise, a Peugeot abriu revendas, como este projeto modelo em Bauru, enquanto várias marcas fecharam portas. Capilaridade integra a estratégia?

Borsari - Sem dúvida. A estratégia de abrir concessionárias, sobretudo no Interior de São Paulo, é algo sensível nessa estratégia. Nós abrimos 18 só no Interior do ano passado até agora e serão mais cinco até o final do ano. Estamos, sim, em uma ofensiva, e de novo na contramão da história do mercado interno. Nós queremos aumentar a capilaridade, enquanto outros construtores estão reduzindo. E a região do Interior de São Paulo é estratégica para a Peugeot. Aqui os consumidores gostam de produto de qualidade e com muita afinidade com o que a marca Peugeot quer.

JC - No meio da crise, montadoras lançaram mão de diferentes ações para vender. Pagar IPVA, dar bônus, pagar até parcela de financiamento no início. A Peugeot lançou dar R$ 500,00 para quem, após test drive da marca, comprasse carro do concorrente. O que funciona e o que não funciona nisso?

Borsari - Estratégias de ofertas pontuais são sempre bem-vindas para conquistar o consumidor em situações específicas de mercado. Mas o verdadeiro trabalho de fundo, para que as equipes conheçam os produtos que elas vendem, é o treinamento para tornar aquele produto diferente e ter percepção sobre os aspectos racionais da compra. Em momento de crise, os aspectos racionais despontam na hora da compra. Saber ter estratégia para as ofertas pontuais, mas também valorizar o que a marca oferece e unir isso aos aspectos racionais da compra. Os consumidores vão se surpreender com o novo SUV 3008. Dirija um carro Peugeot e converse conosco.      

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