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| A história que está nos cinemas retrata - com liberdade poética - o Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) |
Kevin (James McAvoy) é um homem com pelo menos 23 personalidades. Após sequestrar três adolescentes no estacionamento de um shopping, ele as mantém em cárcere privado em um porão de um subsolo.
As personalidades fazem uma espécie de "rodízio" para tomar controle dele - algumas se associam em "gangue" e interagem, de forma amigável ou não, com as jovens.
Essa é a premissa w o mesmo responsável por Corpo Fechado, Sexto Sentido, A Vila e Sinais.
A história que está nos cinemas retrata - com liberdade poética - o Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), conhecido por muitos como "dupla personalidade" (o nome não é mais usado atualmente, até porque podem ser mais de duas).
"A ideia básica é que a pessoa passa por um trauma forte, muitas vezes na infância, de cunho sexual, físico ou psíquico. A partir daí, fragilizada, ela desenvolve uma defesa na qual cria uma personagem dela mesma", explica Renato Antunes, professor de Psiquiatria e Psicologia Médica da Universidade de Brasília (UnB) e psiquiatra do Hospital Universitário de Brasília. É o que ocorre com Kevin, que cresceu com uma mãe rígida e agressiva e criou identidades para se refugiar da realidade complicada.
No filme, Kevin incorpora, pelo menos, uma criança inocente, uma senhora com interesse em cultura hindu, um homossexual estilista e um adulto agressivo. De fato, pessoas com TDI têm identidades muito diferentes uma da outra. "Elas têm um jeito de pensar, sentir e se relacionar muito específico, personalidades diferentes e até sexo e sexualidade opostos", diz Erlei Sassi Júnior, psiquiatra coordenador do Ambulatório Integrado de Transtornos de Personalidade e Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Não há regra, mas há casos em que as identidades sabem da existência das outras. "É como se fossem vizinhos morando no mesmo condomínio. Alguns podem não gostar dos outros e formar 'gangues' entre si, mas cada um tem características próprias", diz Júnior.
"Há relatos de uma identidade que fala mal da outra. Ela pode ter certa aversão à outra, achar que é fraca e mau caráter, e isso é verbalizado às vezes", acrescenta.
Entre os sintomas mais comuns, além do aparecimento de outras versões de si mesmo, são desmaios, pseudoconvulsão e, o mais comum, a amnésia - o indivíduo simplesmente esquece de suas ações no período em que o alter ego tomou o controle. É uma forma que a mente cria para proteger o ego (a parte da nossa mente ligada a razão e senso comuns) do mundo que, no passado, o machucou.
EXAGERO
Mas, como você pode imaginar, Shyamalan exagerou alguns aspectos da doença em Fragmentado. Não é como se pessoas com TDI fossem assassinas - e nenhuma identidade tem superpoderes, é claro. O que os relatos descritos na literatura apontam são pacientes cujas identidades adquirem sotaques diferentes ou falam apenas um idioma, desenvolvem asma, passam a necessitar de óculos de grau, desenvolvem maior ou menor sensibilidade à dor, adquirem outras idades, entre outros.
Um caso famoso descrito na literatura remete ao século XVIII, quando aristocratas da França fugiram para Stuttgart, na Alemanha, no começo da Revolução Francesa. Uma jovem alemã de 20 anos ficou impressionada com a visão e passou a criar uma personalidade que imitava os modos de uma francesa, falando francês fluentemente e alemão com sotaque. Ao trocar para a personalidade alemã, a mulher não se lembrava de nada.
Entre o oito e o 80. Mas a questão é que você e Kevin têm, na verdade, mais em comum do que parece. Na verdade, todos nós temos várias identidades dentro de nós e as apresentamos, em situações variadas, ao mundo - em um momento somos filhos, em outros pais. Em alguns, chefes e, em outros, subordinados.
Às vezes temos pensamentos bons e, em outros momentos, pensamentos ruins. Não há preto ou branco na nossa mente. Só que, apesar da variação, mantemos tudo dentro de um só alter ego. Já portadores de TDI, não - eles dividem as nuances em outras versões de si mesmo.
"Somos o que lembramos de nós mesmos. Nossas vivências nos fazem agregar uma série de informações dentro de uma caixa - e esta caixa é quem nós somos.
Quem tem TDI fragmenta essa caixa de memórias em várias caixinhas", explica de forma didática Antunes, do Hospital Universitário de Brasília. "Ao fazer isso, ela passa a ter outras identidades, cada uma com uma história de vida", afirma.
No filme, Kevin tem algumas versões perigosas de si mesmo - o suficiente para sequestrar três adolescentes. É um retrato, um pouco forçado, de pacientes que criam identidades mais agressivas para se sentirem preparadas para novos perigos. "Algumas pessoas desenvolvem isso para estarem prontas para lidarem com o mundo de forma diferente àquela que lidaram quando sofreram o abuso", elucida Antunes, professor de psiquiatria da UnB.
