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BBB 17: o médico e o monstro da audiência

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 4 min

Quem usa redes sociais sabe que vivemos da madrugada de domingo, até a noite de segunda-feira, um tsunami de #hashtags capitaneadas pelos telespectadores do BBB 17. Uma comoção e tanto! Ninguém tão preocupado com as finais do campeonato paulista de futebol (sim, de futebol... esse que já foi chamado de ópio do povo, sem falar no basquete do Bauru e do Noroeste, aqui nesta capital do Centro Paulista), como com a saída (por sinal, necessária) expulsão do tal médico Marcos Harter, do BBB 17.

Aqui um parênteses: vou falar só de assunto "ameno": esporte e celebridades. Esquece a política, a economia, a reforma da Previdência. Fiquemos no que hoje é o novo ópio do povo: as redes sociais, os posts a partir da não menos alienadora televisão que esqueceu do seu papel formador e educador em nome de um monstro chamado audiência.

Pois é, instaurou-se a dúvida cruel: Marcos agrediu ou não agrediu a mocinha Emilly? Estava a menininha inocente (pode-se ter dúvidas sobre essa inocência, mas, convenhamos, aos 20 anos, quem é que tem muito na cabeça?) realmente apaixonada pelo dito cujo a ponto de aceitar a violência psicológica?

Raciocinemos: faz ou não faz diferença se ele agrediu ou não, se encostou um dedo nela, deu beliscões, apertou a ponto de deixar marcas roxas, puxou-a agressivamente pelo braço? Não faz diferença, respondo eu mesma do meu modo de vista, como diria o Kleber Bambam, o primeiro vencedor desse pseudojogo. Isso não tem mais a menor importância - embora possa servir para instaurar um inquérito por agressão.

O que vale mesmo é que ele, o médico, soube manipular as pessoas ali dentro. E acreditou tanto no seu poder que surtou. Não apenas uma vez. O dedo em riste deixa isso claro. Promoveu a torto e a direito uma violência psicológica tamanha a ponto de levar o violentado a dois aspectos: ou ao medo, caso das pessoas que foram coadjuvantes (a própria Marinalva, a quinta colocada, disse isso), ou à inversão de papel. Não havia outra saída. Ou se encolhiam, como a veterana e experiente Ieda (ela poderia tê-lo peitado! parecia ter cacife para isso, mas não) ou então se subjugavam. O que houve foi uma inversão daquelas que leva a mulher a pensar que ela está errada, duvida até de sua sanidade, de sua própria percepção e acha-se "merecedora". Muitas de nós mulheres sabemos o que é isso. Sabemos o que é o "apanhou porque pediu", ou o "foi estuprada porque não sabe se comportar", ou ainda "provocou, usa essas roupas, está pedindo". Quem nunca? Quase todas. Quem não, ajoelhe e agradeça.

Mas convenhamos: que postura é essa? Em que sociedade estão se inserindo minhas netas ou seus filhos, seus descendentes, caro leitor e leitora? Já se perguntou? Parece-me essa a grande inversão de valores, esse é o grande Big Brother, o grande e nefasto irmão que, em nome da audiência, à guiza de pretensamente saber o que queremos de divertimento, distração, entretenimento, esquece o valor maior da sociedade: o respeito, a ética.

E, ademais, mais um agravante: quer dizer que se a moça não admitiu, não denunciou, então tá tudo certo? É como o pai cometer o incesto na filha na calada da noite e se a filha não denuncia, não fala, então ele está certo? Se a mãe vê e se cala, estão os dois certos? Que horror! Que argumento mais pífio.

Ninguém parou para pensar no que está acontecendo com a sociedade brasileira quando o que choca mais é um médico agredindo em rede nacional e menos o público dando o aval para ele continuar no jogo? Ninguém se lembrou disso?.

Afinal, só 23% votaram na noite de domingo para que ele saísse. Repito: alguém precisa parar para pensar se o que choca mais é um médico dando de dedo na cara da moça em rede nacional, ou o público aplaudindo esse comportamento.

Por favor, imploro, alguém precisa se debruçar nessa última questão. A mim, este lado é o mais preocupante. Há algo de muito ruim, há uma geração que não sabe mesmo o que é ética. E isso fica claro, claríssimo nas escolhas dos telespectadores da "casa mais vigiada do Brasil". Os 77% de aprovação do Marcos, para mim, mostraram uma cara muito feia desse nosso país.

E depois ousam reclamar dos políticos que nos representam, seja em Bauru, São Paulo ou Brasília. Ih! Melhor parar. Eu prometi que não iria falar de política, mas... é tudo uma questão de escolha. Que pena!

A autora é editora no Jornal da Cidade

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