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Zarcillo

Alfredo Enéias Gonçalves d'Abril
| Tempo de leitura: 3 min

Depois da higienização pessoal realizada ao raiar do dia, habituei-me a apagar as luzes externas de minha casa mantidas acessas durante a noite, como ponto de partida de um ritual de vida há anos repisado. Sigo o conselho do amigo Pegoraro que, certa vez, conversando sobre a proteção da casa contra ladrões, disse que a iluminação residencial funciona tão bem senão melhor que vigias noturnos. Há muitos anos escutei o discurso sobre o mesmo assunto pronunciado pelo prof. Otávio Pinheiro Brisolla, como seu aluno em uma das aulas de Direito Penal ministrada na ITE.

Dizia que a estatística daquela época recomendava que as cidades deveriam ser bem iluminadas para afugentar ladrões de sua execrável intenção em apropriarem-se de bem alheio porque eles atuavam nas sombras. O lembrado professor se orientava nas lições de Basileu Garcia, consagrado doutrinador de Direito Penal, disciplina defendida com sabedoria na década de 90, na Faculdade de Direito do Largo de S. Francisco.

Mas os tempos mudaram e na atualidade a iluminação não constitui embaraço para inibir ou atrapalhar a ação dos criminosos agirem em qualquer horário, porque a qualquer momento do dia ou da noite comete-se atentado contra o patrimônio do indivíduo, excetuando os volumosos ataques ao patrimônio da pessoa pública, bastante em moda com a diferença que esta investida invariavelmente é praticada à sorrelfa.

Prosseguindo no meu hábito matinal, recolho os jornais, da Cidade e o "Estadão", lançados na área da casa, preparo o desjejum que tem início em conjunto com a leitura dos periódicos. Essa seqüência de atos, em razão de ter vencido mais de duas décadas sem a menor alteração, acabou se transformando em uma liturgia pela diária repetição durante nos anos que me encontro no "ócio com dignidade" concedido pela aposentadoria. Nos dias de domingo, a leitura começa pelo Jornal da Cidade e, invariavelmente, é lido o texto assinado por Zarcillo Barbosa.

Na edição do Jornal da Cidade do domingo último, Zarcillo escreveu como ponto central do texto abusos cometidos pelo homem sobre a mulher, aproveitando-se do prestígio conquistado no exercício da profissão e destacado na badalada exposição da mídia. A esse fenômeno social deu-se o nome de celebridade. Em tempos idos a celebridade ou a pessoa sem essa designação "cantava" a mulher desejada, porém, não incidia na prática de delito apenas por esse fato. Hoje, o mesmo comportamento tem o nome de assédio e está inserido no ordenamento penal.

O artigo de Zarcillo, a exemplo de seus trabalhos anteriores, o identifica pela criteriosa redação, recheadas de frases curtas de fácil entendimento que se entrelaçam para atingir com clareza o objeto da explanação. Contudo, a despeito disso, deixou de agradar certo leitor que na edição do dia 10, sob o título " Grotesto", na Tribuna do Leitor, teceu severas críticas ao jornalista e ao seu artigo, ao ponto de cometer injustiça a ambos, notadamente ao autor do escrito. Talvez sua intolerância esteja centrada nas expressões pouco usuais no jornalismo, as quais poderiam poupar as críticas do leitor se substituídas pelas letras b... e c..., igualmente entendidas como foram os substantivos escritos por inteiro, sem comprometer a precisão na abordagem da matéria.

Qualquer que seja o lado da crítica, bom ou ruim, faz parte da imprensa operando no regime de liberdade. Quem escreve se torna alvo natural da crítica e precisa conviver com tais comentários.

Afinal, sem elas os articulistas estariam no mesmo nível de qualificação, o que seria, isto sim, injusto para o Zarcillo.

 

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