Muito se fala em desenvolvimento sustentável, no entanto, é interessante aclarar o entendimento destas duas palavras. Via de regra a palavra desenvolvimento é usada de forma restrita e vinculada a uma única dimensão econômica, geralmente medida por meio do PIB per capita ou medido apenas em dinheiro e fluxos de caixa. Com todas as inovações tecnológicas, a economia global foi transformada em um cassino gigantesco, operado eletronicamente: uma rede de máquinas programadas de acordo com um único valor - ganhar dinheiro para ganhar mais dinheiro - com a exclusão de todos os outros valores. Na economia global, o dinheiro tornou-se quase que inteiramente independente da produção e dos serviços, ele circula na realidade virtual das redes eletrônicas. O capital é global, a mão de obra é local. Desse modo, o capital e a mão de obra, cada vez mais, existem em diferentes espaços e tempos: o espaço virtual dos fluxos financeiros e o espaço real dos lugares onde as pessoas são empregadas; o tempo instantâneo das comunicações eletrônicas e o tempo biológico da vida cotidiana.
O desenvolvimento associado ao crescimento quantitativo ilimitado em um planeta finito é claramente insustentável, mas, uma sociedade ou economia que não cresce morre mais cedo ou mais tarde. Entretanto, a natureza nos mostra que esse crescimento não é linear e ilimitado: enquanto certos ecossistemas crescem, outros decaem, liberando e reciclando seus componentes que fomentam um novo crescimento. O processo de desenvolvimento precisa, então, ser compreendido como sendo mais que um processo puramente econômico, ele precisa incluir as dimensões sociais, ecológicas, culturais e espirituais, só assim será sustentável.
O mau crescimento envolve processos de produção e de serviços que exteriorizam custos sociais e ambientais, baseiam-se em combustíveis fósseis, envolvem substâncias tóxicas, esgotam os recursos naturais e degradam os ecossistemas da Terra. O bom crescimento utiliza processos e serviços eficientes, levam em consideração os custos sociais e ambientais, utilizam energias renováveis, minimizam a emissão de poluentes, promovem a reciclagem e restauram os ecossistemas da Terra.
A mudança do crescimento quantitativo para o qualitativo exigirá mudanças profundas não apenas nos níveis sociais e econômicos, mas também, no nível individual. Isso significa superar a satisfação do condicionamento materialista e procurar encontrar essa mesma satisfação nas relações humanas e na contribuição à comunidade. Essa mudança de paradigma não é fácil, pois, somos bombardeados diariamente por uma enxurrada de mensagens publicitárias assegurando-nos que o acúmulo de bens materiais é a estrada real para a felicidade e o verdadeiro propósito dessa vida. Mas, a verdade é uma só: nada do que temos é, inerentemente, nosso. Tudo nos é dado e o passo inicial para essa mudança, é aprender a apreciar não somente os bens materiais, mas também, as relações sociais e as qualidades de nosso corpo, mente e espírito.
Outro passo para a sustentabilidade terá que ser dado pela educação: é preciso introduzir, em todos os níveis de ensino, o conceito de alfabetização ecológica ou a compreensão dos princípios de organização que os ecossistemas desenvolvem para sustentar a vida. Ela permitirá que os jovens de hoje evitem os erros cometidos pelas gerações anteriores, portanto, passar a acreditar que o futuro existirá para seus descendentes.
O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru