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O violinista do Titanic

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Enquanto o navio soçobrava em águas geladas, o violinista da pequena orquestra do Titanic decidiu tocar alguma coisa para acalmar os passageiros. Escolheu a canção "Near, my God, to Thee" (Perto, meu Deus, de Ti). A letra diz, em tradução livre, que a cruz que Deus coloca sobre os nossos ombros, é para nos aliviar. Termina com a visão de uma escada que desce do céu e de anjos em acenos. Sempre choro. No Brasil de hoje, ouço ao longe os mesmos acordes plangentes do violinista do Titanic. A diferença é que o meu País afunda num mar de lama sob tchauzinhos dos querubins.

O País foi transformado numa cleptocracia. Em dez anos, a Odebrecht cresceu 520%. Mais do que a Microsoft. Dominava o governo federal, Câmara e Senado, governos estaduais e até municipais. Os depoimentos atingem os cinco ex-presidentes da República vivos: Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor e Jose Sarney. E ainda o atual, Michel Temer. A delação também envolve 12 governadores - entre eles o Santo, Geraldo Alckmin. No próximo 3 de maio, em Curitiba, Lula estará frente a frente com o juiz Sérgio Moro. Quer arrastar a militância às portas do Fórum. "Mexeu comigo, mexeu com todos". Como se fosse ele vítima de algum assédio.

Nem só de políticos vivia a Odebrecht. O balanço anual das propinas ultrapassava R$ 2 bilhões e incluía entre os beneficiários, dirigentes da CUT, da Força Sindical, índios e policiais. O objetivo era o de evitar greves de trabalhadores e proteger os canteiros de obras das hidrelétricas. Houve momentos em que o patriarca Emílio Odebrecht teve que chamar Lula às falas: "Seu pessoal está com a goela muito aberta. Estão passando de jacaré a crocodilo". A mala de dinheiro tornou-se impraticável. Os executivos da empresa passaram a utilizar mochilas onde cabem 2 a 3 milhões de reais em notas grandes. Calcula-se que 451 mochilas foram repassadas nos 76 inquéritos abertos pelo ministro do STF Edson Fachin.

Os executivos ganhavam bônus conforme o sucesso nas tratativas do chamado Caixa 2. Chegaram a ser distribuídos R$ 8 milhões em gratificações pelo bom desempenho desses compradores de consciências. Há casos de família unida: Rodrigo Maia, presidente da Câmara, filho do ex-prefeito do Rio César Maia e genro do ministro secretário-geral da Presidência Moreira Franco. Todos beneficiários do propinoduto. Nem debaixo d'água eles deixavam de trabalhar. Para construir cinco submarinos - um deles à energia nuclear -, em sociedade com a França, a Odebrecht distribuiu 40 milhões de euros. Em protesto contra o excesso de trabalho, os executivos da empresa entraram em greve: "Às segundas e sextas não pagamos mais ninguém. Seja quem for. Tá legal?!" (vaias). O vinho era a bebida oficial da Lava Jato. O ex-gerente da Petrobras, Pedro Barusco, pediu ao então diretor da Odebrecht Rogério Araújo, que escondesse em sua adega 24 garrafas de vinho avaliadas em 10 mil dólares cada. Araújo entrou na delação e a mulher de Barusco foi buscar as garrafas de volta. Desaforo!

Machado de Assis escreveu que o mundo dominado pelo pecado, mais cedo ou mais tarde irá praticar a virtude. Quem sabe, tudo o que vivemos hoje, seja o prenúncio de um Brasil melhor.

Quem escreveu "bu..." com todas as letras foi a moça assediada por Zé Mayer, em sua denúncia à Globo. Apenas transcrevi. O mesmo fez os correspondentes do NYTimes, El País e do Independent. A Folha, também, pelo menos no portal. Se fosse eu, escreveria "bo...", como me ensinou há quase 70 anos o padre Schmidt, reitor do Colégio São Bento. Com seu sotaque alemão, reuniu os garotos no pátio, subiu numa cadeira e berrou não admitir que seus alunos errassem na ortografia. No muro da escola alguém havia pichado bu... "I-gui-no-rrante!"

Até hoje não sei qual a diferença entre um palavrão completo, de outro, com três pontinhos. Deve ser a hipocrisia do politicamente correto. O mesmo que chamar o dinheiro da corrupção de Caixa 2, ou de recursos não contabilizados. Agradeço ao Alfredo d'Abril pelo carinho e compreensão que emanam da sua crônica de sexta-feira (minha mulher não me deixa mais apagar a luz da área). A gente só se vê em velório. Infelizmente, cada vez com mais frequência. "Viver é muito perigoso". Para ser jovem, bastam alguns anos. Para ser velho, é preciso talento. Ainda clamam por censura nesse País! Esquecem que o bom da liberdade de expressão é, justamente, o de poder dizer as coisas que outros não querem ouvir. A funcionária assediada quis contar o seu drama com toda "a nudez crua da verdade". Deixou de lado "o manto diáfano da fantasia", como recomendava o velho Eça, no século 19. Boa Páscoa.

O autor é jornalista e articulista do JC

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