Em 1984 lecionava eu na EEPSG "Profª Heloísa de Assumpção", em Quitaúna, Osasco. Onde há seres humanos surgem conflitos eventuais ou mais duradouros. Lembro de um jovem loiro, de olhos azuis. Hiperativo, inteligente.
Ele era considerado uma "persona non grata" pela maior parte dos professores que lecionavam na classe dele. Mister se faz ressaltar que nas minhas aulas nunca tive qualquer problema disciplinar com ele. Ele sentava-se numa postura correta, prestava atenção o tempo todo nas minhas explanações, em silêncio profundo e respeitoso. Impressionante!
Era assíduo nas minhas aulas. Mas nas reuniões pedagógicas vários professores reputavam-no como mal-educado, postura corporal não correta ao sentar-se, não dando a mínima para a aula ministrada. Devo registrar aqui que, infelizmente, os professores queixosos, embora tinham competência naquilo que ministravam, eram arrogantes, provocando um enorme abismo nas relações professor X alunos. O que gerava atritos na sala de aula. Havia uma empatia entre mim e o jovem loiro, de olhos azuis.
Porque não me julgava nem superior nem inferior a ele. Era um igual. Éramos simplesmente dois seres humanos. Aos meus colendos colegas de profissão faltava jogo de cintura por parte de quem deveria ter maturidade biológica, embora com estudos aprendidos na Faculdade, como Psicologia, Pedagogia, Didática, etc. O bom mestre tem que saber pacificar as relações entre os educandos e ele próprio, na sala de aula. A sala de aula é como um tabuleiro de xadrez. Cabe ao mestre movimentar sabiamente suas peças (ensino) para que o aluno aprenda.
O final do jogo de xadrez (na educação) tem que obrigatoriamente ser um xeque-mate (ensino-aprendizagem) dado pelo mestre. Caso contrário (xeque-mate dos alunos), não houve apreensão do que se propõe transmitir. Retornando ao jovem loiro, de olhos azuis, numa determinada semana ela parou de vir às minhas aulas e as outras, dos meus colegas de profissão. Notícia ruim chega sempre de maneira célere. O jovem se envolvera no consumo de drogas. Uma dívida não paga decretou sua pena de morte, dada pelo chefe do tráfico.
Jamais olvidei a figura ímpar daquele jovem rejeitado pela maioria dos professores da mesma sala de aula. Porém, eu e ele tínhamos uma comunhão perfeita, como seres humanos...