| Samantha Ciuffa |
![]() |
| Guilherme Pastrello, 27 anos, é 'anjo guardião' (às vezes até incompreendido) de quem insiste em estacionar errado, porque ali multam mesmo! |
Era para facilitar, mas infelizmente é só mais um motivo de irritação na vida dos motoristas que já chegaram à chamada terceira idade. Afinal, quando se trata de vaga preferencial a frase "esta vaga não é sua, nem por um minutinho" deveria estar gravada junto com a placa indicativa de vaga de estacionamento para idosos e portadores de necessidades especiais. Só para tentar lembrar quem dirige que o local tem dono certo. É que, infelizmente busca-se (e muito!) quem respeite o espaço destinado a eles.
Sem o menor pudor motoristas usam vagas destinadas aos idosos e tornam a vida das pessoas da chamada terceira idade mais difícil quando o quesito é estacionar e dirigir-se a um estabelecimento de uso comum, seja banco, órgão público, escola, supermercado. Mas felizmente há quem respeite e, até cuide para quem cometa a infração não seja multado.
"Quem avisa, amigo é"
Guilherme Pastrello é, mesmo sem querer ser, uma espécie de anjo da guarda dos motoristas infratores. É que, por questão de consciência pessoal, costuma dar um toque para quem tenta usar a vaga de forma irregular em frente ao seu ponto comercial, destinada a idosos.
Toda dia a partir das cinco da tarde, até as nove da noite ele assume o ponto de vendedor de churrasquinho, na esquina das ruas Manoel Bento Cruz e Azarias Leite. Ali ele está em local estratégico e a freguesia é boa, o trânsito de estudantes é muito grande. E muitos aproveitam para comer um (ou mais) dos seus espetinhos já que não têm tempo de voltar para casa e jantar.
Grande movimento
São três instituições escolares (Fatec/Etec/Senais) em duas quadras e, com uma peculiaridade: a vaga para idosos fica a poucos metros de um edifício que tem inúmeros moradores da terceira idade e, praticamente 90% deles têm dois automóveis. Ocorre que o edifício em questão, o Ouro Branco, foi projetado com garagem para só um automóvel, embora os apartamentos sejam grandes, até com 140 metros quadrados e três dormitórios. Então, além do estacionamento de estudantes (no trecho que vai entre a rua Quinze de Novembro e a avenida Duque de Caxias) também os moradores, disputam as vagas livres, com o segundo veículo que vão, invariavelmente posar na rua.
Com isso, não é de se espantar que até 20 pessoas numa só noite chegue a utilizar irregularmente aquela vaga de idoso. E Guilherme faz questão de avisar a todos: ali, por já conhecer a situação, o policiamento é mais ostensivo e "dá-lhe multa, aqui os homens (a polícia) não perdoam mesmo. Eu aviso, né? Mas muitos nem gostam, sabe-se lá o que pensam, mas é que eu faço para os outros o mesmo que gostaria que fizessem para mim. E depois, quem avisa, amigo, é".
Desculpas que não colam
| Samantha Ciuffa |
![]() |
| Airton usa a vaga corretamente e ainda guarda espaço para outro idoso |
É justo que as vagas devam ser destinadas conforme estabelecido, e não usadas pelos “espertinhos” da vida. Concorda? A resposta deve ser sim, não é? E se é sim, por que razão tanta gente comete esse deslize? Aqui alguns dos perfis de quem comete o desrespeito, segundo um agente de trânsito que pediu para não ser identificado, porque ele multa mesmo.
“As pessoas não aceitam que essas vagas não são privilégio e sim uma necessidade, e a partir dela um direito adquirido. A maioria sequer lembra que um dia irá envelhecer e a locomoção fica muito mais difícil”, contou.
•O ATRASADO - Dizer que não tem tempo para procurar outra vaga é a desculpa de praxe
•A RAPIDINHA - “só por um minuto” é a desculpa mais usada por mulher
•A FOLGADA - “Já vou sair”. Usada quando há outras vagas livres por perto e o “já”, quase sempre feminino, dura uma eternidade.
•O DESINFORMADO - Culpa a burocracia e dificuldade junto ao órgão da prefeitura que expede o documento. Pura falta de informação (veja infográfico anexo).
•O PREGUIÇOSO - Aquele motorista que conhece seu direito, pode fazer uso dele e não providencia a documentação necessária
•O DESRESPEITOSO - O repórterfotográfico Malavolta Jr. flagrou em plena antevéspera de feriado um veículo comercial na rua Rio Branco, ao lado da Prefeitura Municipal, estacionado em vaga de portador de necessidade especial.
É só fazer a coisa certa
Airton Camargo Pinheiro, 63 anos, mestre de obras e que voltou a estudar "para a gente ficar sempre atualizado e conhecer novidades, novas técnicas" tem que agradecer mesmo ao jovem Guilherme por "guardar bem minha vaga", diz brincando e acrescenta "minha não, nossa, é que tem outro companheiro de aula que também está com tudo em dia e nós dividimos essa vaga". De fato, ele deixa o seu veículo bem para a frente, porque a vaga é grande e cabem os dois carros no local identificado.
Quando foi utilizar a região no período noturno, prontamente Aírton se dirigiu ao setor da Emdurb, no Terminal Rodoviário (veja infográfico ao lado) e conseguiu sua placa de identificação. "Não vi dificuldades, levei os documentos que eles pediram e em 15 dias fui avisado de que estava tudo certo e pude pegar minha credencial. Deu muito certo", comemora e lamenta encontrar, às vezes, a vaga que chama de sua rindo, ocupada.
Outro que usa a credencial é o jornalista Luciano Dias Pires, mas não tem o mesmo "far play" do mestre de obras. Ao contrário, bem ao estilo de sua verve, ele saca da caneta e papel e faz questão de deixar um bilhete para o motorista do mal, como define o "espertinho" que usa a vaga de forma errada. "E deixo um recado malcriado mesmo, preso no limpador de para-brisas. Afinal, quem não respeita o outro, não respeita a vaga de quem precisa, abre o precedente, merece ser desrespeitado", conta o veterano jornalista.
![]() |


