"Agora eu era herói..." Não, agora, eu sou herói, tenho que viver em um mundo em que pessoas não sabem se amam pessoas e, o que é pior, não sabem se amam a si mesmas ou se são as mesmas! O mundo, vasto mundo, diria Drummond, ou devasto mundo ou escasso mundo ou mundo líquido, como diria Bauman: "Como se pode lutar contra as adversidades do destino sozinho, sem a ajuda de amigos fiéis e dedicados, sem um companheiro de vida, pronto para compartilhar os altos e baixos?"
O que somos, a quem amamos, por que lutamos, a quem respeitamos, os inimigos somos nós? Creio que seja raro o ser que não assistiu ao campeão de repetições na Sessão da Tarde, o filme "Lagoa Azul". Datado de 1980, a película mostra duas crianças e um velho marinheiro que se tornam náufragos e, com o passar do tempo, o idoso morre e os jovens se veem em uma situação de solidão e desafios, apaixonam-se, engravidam, amam-se... Como era ingênuo e puro este mundo!
O jovem, substantivo comum de dois, quer ser incomum de um, ele não quer ouvir, dizer, ele quer ver, ser, precisa de alguém que seja também! O adolescente não é aborrecente, ele é gente, ele precisa de gente, de docente, de parente, de poder ser crente que existe um outro que lhe quer, que o ama, que o abraça! O jogo da Baleia Azul, como todas as emergências ou existências, trouxe a discussão sobre o próximo e o último! A morte é o fim de qualquer sorte?
Richard Simonetti fala da depressão e suicídio há tempos, escreve, descreve, debate, "pingafogueia" sobre o tema e o tópico é levado a sério? Não, pois ele não parece existir, no entanto, emerge e assusta, e quem tem coragem de abordar tal obscuro e temido tema? Precisamos voltar a cantar, dançar, ter teatro, música, nas escolas, na vida, precisamos rir de desenhos infantis, carecemos de brincar, seja de "queima", "mãe da rua" ou " Pera, uva, maçã". Necessita-se de abraço, tão frequente pelos jovens do Ceac ou dos jovens da Igreja São Cristóvão, somos nós e não eles, o eu tem que ser nós a pessoa pode ser primeira, mas tem que amar para ser segunda, terceira, aonde vamos?
Leia-se o Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano, abrace-se o seu próximo que não é o último, mas, quiçá, o único ou o múltiplo, beijemos nossos amigos, parentes, quadros, bonecos, cheiremos a flor, passeemos com os animais sem exibi-los, mas amando-os, façamos bolinhos de chuva em um dia de sol, estouremos pipocas e comamos os " piruás", façamos o almoço de domingo para nossos pais, dancemos uma música antiga com a mãe ou com o pai, cumprimentemos os vizinhos, choremos de alegria!
Desejo que a baleia tenha dentro de si Gepeto e Pinóquio, ou que seja mãe e não madrasta, que os jogos não sejam vorazes, mas capazes, que ninguém atire a primeira pedra, mas a primeira pétala! Sejamos novamente comunidade com ou sem comum idade. Sejamos irmãos, a Páscoa não trouxe a Baleia, a Páscoa trouxe Cristo, certo, Padre Ricci? Vamos jogar, sim, jogar o mal fora, procurar nossos amigos, mutilar as maldades, abraçar, beijar, rir, chorar, vamos jogar?
O autor está vendo Lagoa Azul ao som de Boate Azul