Tribuna do Leitor

Crimes, reforma política e democracia ferida

Antonio Carlos Azevedo dos Santos
| Tempo de leitura: 3 min

Dilma Rousseff gastou 300 milhões de reais na campanha. Cabe na cabeça de alguém que um candidato precise gastar tanto para se eleger?

Com o financiamento público das campanhas (como querem os nobres congressistas) o contribuinte, que já é roubado em todos os serviços públicos, será roubado para pagar as despesas dos políticos que o roubam. Parece um insulto, e é um insulto, diante dessa situação de calamidade permanente e progressiva. Querem dar mais dinheiro público aos políticos, é o que a justiça chama de crime continuado, não existe nenhuma razão para justificar uma coisa dessas, é impossível, de qualquer ponto de vista lógico, citar um único benefício que qualquer cidadão brasileiro poderia obter com o "financiamento público" da campanha eleitoral, como se apresenta esta aberração - salvo os próprios políticos, é claro.

Esta hipocrisia custará ao bolso do contribuinte 4 bilhões de reais, nos cálculos mais modestos, e entregar esse dinheiro aos candidatos às eleições de 2018, é o financiamento público da campanha, tanto defendido pelo PT e dos partidos de esquerda, que sempre defenderam este financiamento, pasmem, para evitar a "influência do poder econômico" nas eleições brasileiras. Logo o PT e os partidos aliados que são os maiores tomadores de dinheiro privado (empreiteiras de obras, bancos, grandes grupos, etc) nas épocas de eleições e adjacências.

Junto com este pacote, para piorar de vez, querem impor a votação em "lista fechada" - uma trapaça pela qual os votos não serão mais dados a um candidato escolhido pelo eleitor, mas a um bloco de políticos que cada partido terá direito de nomear. Imaginem-se os gigantes que vão parar nas tais listas - sim, são esses mesmos em que o leitor está pensando, sempre os mesmos da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, preparando uma extorsão legal para o eleitor. Eleitos, os candidatos terão o direito de manter a impunidade que a "imunidade parlamentar" lhes assegura. É isso, o resto é hipocrisia.

Com quase metade dos governadores (incluindo as três principais unidades da federação: São Paulo, Rio e Minas) que aparecem nas delações de ilícitos da Odebrecht, mais os presidentes do Senado e da Câmara, 24 senadores e 39 deputados - todos no bolso da empreiteira que não havia distinção ideológica entre os políticos escolhidos, numa amplitude impressionante.

Após a divulgação da lista na semana passada, é certo que a reação dos políticos virá, sempre somente pensando nos seus interesses, pois a punição exemplar que levou gente como Marcelo Odebrecht a colaborar com as autoridades, pode deixar executivos e políticos aterrorizados na prisão, assim, quando as grades se fecham às suas costas, aí eles passam a compreender finalmente que se tornou uma pessoa comum, e quem sabe balizar o comportamento de políticos e empresários de agora em diante. Um passo essencial e salutar para ajudar no primeiro passo dado, que é a Lava-jato, pode ser o seguinte: reformar o sistema político-eleitoral, restabelecendo princípios democráticos sobre as falcatruas que criam categorias distintas de cidadãos e eleitores.

Abolir a quantidade obscena de cargos ocupados por indicação política, adotando-se o critério do mérito. Profissionalizar por inteiro a burocracia estatal, para vencer a corrupção sistêmica.

Enxugar o gigantismo do Estado, que serve como o mais apetitoso convite à roubalheira.

Votar com ética, em quem tem ética. É fundamental dar os próximos passos, do contrário, corremos o risco de ficar presos no labirinto de escândalos sob uma democracia ferida.

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