Ou, do heroísmo à vergonha é o que podemos dizer, comparando o Brasil da Inconfidência Mineira com o Brasil da operação Lava Jato. São dois extremos, do heroísmo, castigado com grilhão e execução, ao crime organizado, tratado com a brandura do processo jurídico que premia o criminoso com um adorno eletrônico no tornozelo e conforto domiciliar. Para comparar as imagens basta confrontar o quadro de Eduardo de Sá, óleo sobre tela, "A leitura da sentença de Tiradentes", onde o réu aparece agrilhoado - uma pesada corrente ligando o punho ao tornozelo esquerdo e o quadro dantesco "Tiradentes esquartejado", de Pedro Américo, com as cenas televisivas atuais dos condenados da Lava Jato. Para libertar o Brasil, a ignomínia e para o crime de lesa-pátria, até a concessão ardilosa de direitos políticos.
O sonho de Tiradentes foi realizado e consagrado pelo príncipe D. Pedro, no Hino da Independência, que Evaristo da Veiga bem traduziu nesta estrofe: "Os grilhões que nos forjava, Da perfídia astuto ardil... Houve mão mais poderosa: Zombou deles o Brasil". A promessa portuguesa de colonizar as terras descobertas, dividindo o Brasil em sesmarias não passou de uma perfídia, com deslealdade, traição e falsidade, como escreveu Sérgio Buarque de Holanda, pois o verdadeiro propósito era a exploração do ouro.
Perfídia ou traição também foi o governo lulopetista, com a promessa de melhorar a vida da parte mais pobre da população, pois o verdadeiro propósito era assumir e se perpetuar no poder, para o qual mancomunou-se com políticos e empresários venais, saqueando o cofre público.
Que houve propinas em contratos públicos, de prefeituras a governo federal, sempre se soube, com alguns casos notáveis, como nos governos de Adhemar de Barros e Paulo Maluf, mas o governo lulopetista extrapolou todos os limites, institucionalizando a propina, que assumiu proporções gigantescas, a ponto de a Odebrecht montar um fundo na Suíça ( Departamento de Operações Estruturadas), para administrá-la. "A boca do jacaré virou boca de crocodilo", disse Emílio Odebrecht a Lula.
Só nos últimos 9 anos esse departamento movimentou mais de 10,5 bilhões de reais em propinas. E quanto saiu do bolso da Odebrecht? Nem um centavo, pelo contrário, foi tudo dinheiro público obtido pelos aditivos dos contratos com órgãos públicos, que também ia para o seu caixa. É o dinheiro que está faltando para a saúde, educação, segurança, infraestrutura enfim, que deixou o Brasil na penúria.
Em 1788 a sonegação do quinto real do ouro explorado em Minas Gerais chegou a tal ponto, que a dívida dos coletores ultrapassou de 8 toneladas de ouro. Como eles não seriam capazes de acertar as contas com a coroa, foi criado um imposto excepcional a ser pago por todos os habitantes da capitania e anunciada a arrecadação, que ficou conhecida como 'derrama'. Esse foi estopim da Inconfidência Mineira, onde assumiu destaque a figura de Joaquim José da Silva Xavier - o Tiradentes, cuja relevância histórica justifica o feriado nacional no dia de sua execução - 21 de abriu de 1792.
O príncipe D. Pedro realizou o seu sonho e o Brasil passou a ser um país livre, para formar e consolidar-se como nação e assim aconteceu, melhor que o domínio espanhol, todo retalhado. As trapalhadas políticas, contudo, por diversas vezes interromperam e atrasaram o seu desenvolvimento. Quem sabe a operação Lava Jato consiga remover essa mancha, tirando de cena os sujismundos do poder.
Luis Wanderley Torres, na introdução de seu livro: "Tiradentes - a Áspera Estrada Para a Liberdade", após dizer que Tiradentes havia ficado à margem da História, escreve: "As pesquisas, no entanto, revelam ter sido ele o motor, o idealizador de tudo. Na 4ª vez que compareceu a Juízo, quando foi pela 1ª vez acareado com o infame delator, Joaquim Silvério dos Reis, antes seu amigo e inconfidente, agora seu acusador, resolveu o Alferes tudo dizer 'para não perder ninguém'. E assumiu a responsabilidade dos acontecimentos afirmando: 'que é verdade que se premeditava o levante, que ele respondente confessa ter sido quem ideou tudo, sem que nenhuma outra pessoa o movesse, nem lhe inspirasse coisa alguma'.
Quem assim fala, diante da forca e do esquartejamento, vem seguramente fortalecido por uma ideia. E esta era a libertação da Pátria." Bem diferente dos que arruinaram o Brasil nestes últimos tempos, que dizem não saber porque estão sendo acusados, tudo foi feito dentro da lei, são inocentes e confiam na Justiça, como se todos fôssemos idiotas.
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.