O filme 'Fragmentado' (Split, 2016), de M. Night Shyamalan, chama a atenção pelo fato do protagonista ter 23 personalidades distintas que se alternam em seu cotidiano.
A narrativa ganha em dramaticidade quando ele sequestra três adolescentes. Para além da tensão que o drama traz, está uma questão de fundo que pode se tornar patológica - se já não o é.
As dimensões fascinantes da era moderna, onde as redes sociais são centrais fontes de informação e de exposição, geram uma possibilidade nunca antes vista de fragmentação e criação de personalidades. A brincadeira de poder ser o que não se é sem ninguém descobrir abre infinitas possibilidades.
Se Fernando Pessoa tinha seus celebres heterônimos, com personalidades diferentes bem demarcadas, hoje é fácil ter dezenas, centenas, até milhares mesmo delas, se a pessoa for sistemática, de perfis no facebook.
O que pode ser um exercício divertido de escrita, também corre o risco de esbarrar na diluição permanente entre o real e o imaginário.
É essencial discutir os componentes éticos dessa jornada, principalmente quando ocorre a interação com outras pessoas, que talvez também disfarcem ser quem são.
Instaura-se uma corrente em que o fingimento e a ficção constroem uma realidade paralela, e até perigosa, pois é geralmente bem mais interessante do que aquela que a maioria julga ser real.
O autor é doutor em Educação, Arte e História da Cultura e Mestre em Artes Visuais, atua na Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp.