O novo governo de Bauru, comandado por Clodoaldo Gazzetta, enfrenta os percalços naturais de um time que foi montado sob um tabuleiro político por demais heterogêneo e com recheios de falta de experiência em gestão pública de muitos dos integrantes do primeiro e segundo escalões. Portanto, recai sobre a gestão que tomou as rédeas da cidade há pouco mais de 100 dias o peso do aprendizado na mesma medida da paciência por resultados ao longo dos próximos meses.
Mas o povo mais sofrido é, naturalmente, imediatista. E os fisiologistas de plantão também não têm o menor pudor em pressionar, com sede, por espaços na administração. De outro lado, entretanto, o tempo necessário para o entrosamento do time e o aprendizado do "modus operandi" da emperrada engrenagem pública não podem servir de motivo para que se deite a ampulheta. O governo municipal precisa demonstrar em sua ações, rapidamente, que não só já era sabido que o "cobertor era curto", mas também que a máquina está rangendo em burocracia e desmotivação, que o caixa e os balanços apontavam, de antemão, frise-se, escassez de recursos para enfrentar a enorme lista de desafios.
Apesar disso, o governo de Clodoaldo Gazzetta iniciou sua jornada, em janeiro passado, apontando para a priorização de colocar "a cidade em movimento", como seu próprio slogan repete. Mas é preciso pontuar ainda que pela necessidade do contraponto, que ansiedade pode atrapalhar. Até este momento, o novo governo não apresentou nenhuma medida substancial que sinalize corte nos gastos estruturais. No "frigir dos ovos", mesmo as medidas que buscam eliminar, aqui ou acolá, algum departamento ou reduzir atuação de governo, vieram engolidas pelo aumento de despesas em outra ponta.
Não há, ainda que a vontade de fazer do novo governo queira, espaço para aumento de despesas. Ao contrário, o caminho tomado por boa parte dos novos gestores em inúmeras prefeituras tem sido o de informar e mostrar à população a importância, nesta fase, de se cortar na carne. Por fim, preocupa se deparar com manchetes como o caso da compra de marmitas sob a fundamentação do "decreto de emergência das chuvas". Não é só o preço acima do mercado para uma marmita e conteúdo com peso total bem menor que chama a atenção. Preocupa a formatação do silogismo utilizado para a compra sem licitação. Porque ela, em si, é frágil.
Mas preocupa, também, porque o novo time indica que não soube realizar o "governo de transição", fase fundamental para se levantar dados, mas também para antecipar problemas e falta de planejamento. O simbolismo da marmita crua preocupa porque já está anunciada a abertura de editais para contratar Parceria-Público-Privada (PPP) para serviços do lixo, da iluminação pública e outros. São contratos de longo prazo, em formato que a cidade nunca experimentou. Nem os bauruenses e nem o governo conhecem a fundo, regra geral, essas modalidades.
Além disso, quem acompanha a máquina pública há um bom tempo sabe que tem taturana sobrevivendo em áreas estratégicas. E elas ainda não foram atacadas! Nenhum governo bem intencionado quer ser manchete de notícia ruim. Mas se a casa não for dedetizada, os cupins, baratas e ratos sobem à mesa. O bom sinal, talvez, é que o novo governo, para ser justo, também demonstrou racionalidade ao rever o processo de demolição intempestiva do Pronto-Socorro e não tem se furtado em dialogar, por exemplo. A simbologia do uso da marreta deu lugar à discussão. E isso é bom.
Que o episódio da marmita, contratada sem licitação, sirva de sinal para que o novo governo se acostume mais a degustar a escassez e a razão do que a gula.