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O óbvio ululante

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Depois de planejada, toda casa deve começar pelo alicerce. Há coisas que, sendo tão óbvias, nunca deveriam ser enunciadas. Essa frase, por exemplo, é uma delas. Que novidade pode existir ao se dizer que nada para em pé sem a devida base? Como contestar tamanho truísmo? Em educação, por incrível que pareça, muito temos construído e pouca coisa tem parado em pé. Pudera, temos nos esquecido justamente do que alicerce é.

Depois de tantos resultados vexatórios na avaliação internacional do Pisa, em leitura, matemática e ciências, estamos, agora, de queixo caído diante do sucesso dos nossos irmãos portugueses. No ranking do mesmo exame, Portugal ocupa o 17º lugar em ciências, 18º em leitura e 22º em matemática. Agora, só para sentir o drama, vamos aos nossos números: 63º, 59º e 44º respectivamente. E pensar que há três anos os portugueses estavam em 36º, 33º, e 31º. Na prova de 2015, Portugal superou a média da OCDE, organização que envolve os países desenvolvidos, ultrapassando os Estados Unidos e a Espanha.

Tamanho avanço educacional tem explicação: a casa começou pelo alicerce. Foi o que disse Nuno Crato, 65, ministro da Educação de Portugal de 2011 a 2015: "Fizemos coisas simples. Demos prioridade às disciplinas fundamentais, primeiro português e matemática e, depois, história geografia e ciências. Na justificativa, o óbvio. "Se o aluno tiver dificuldade de leitura, vai ser muito difícil estudar história. Se tiver conhecimento fraco de história, será difícil estudar política, sociologia, história da arte." Crato disse o que todo mundo está careca de saber: é pela base, que tudo se estrutura. Sem o domínio da leitura e da escrita, das informações gerais de ciências e das operações fundamentais de matemática, escola nenhuma para em pé.

E tem mais chuva no molhado, o óbvio ululante continua. O lugar do burro, todos sabemos, é na frente da carroça. Incrível, mas nem isso temos observado. Gostamos de nomes "ibopados" que caracterizam os processos cognitivos superiores. "Espírito crítico" e "criatividade", por exemplo, sempre estão entre as palavras badaladas e, claro, não se lhes pode negar o devido valor. Mas aí vem a novidade, que nunca novidade foi. O ministro Crato vai de novo pelo notório: "A ideia é que as tarefas cognitivas de ordem superior são baseadas em processos da ordem inferior. E o grande erro da pedagogia romântica é pensar que se pode chegar aos processos cognitivos superiores esquecendo-se dos inferiores". Melhor traduzir: o primeiro andar fica embaixo do segundo e para acessá-lo devemos passar pelo primeiro. Credo! Verdadeiro festival do óbvio ululante! Dizendo de outra forma: primeiro deve se aprender o arroz com feijão e só depois, a culinária sofisticada. Primeiro o burro, depois a carroça.

A escola quer alunos criativos, mas criatividade é desconstrução, coisa possível só a quem, primeiro, aprendeu a construir. Quer alunos críticos, mas, primeiro, há de se lhes garantir as informações fundamentais e o respeito à opinião contrária, sem o que o debate vira delírio. Quer alunos hábeis na resolução de problemas, mas a eles tem negado a possibilidade de serem sujeitos do próprio aprendizado. Mais orelhas são do que bocas. Como objeto, recebem verdades prontas, copiam verdades da lousa, repetem verdades memorizadas. Nesse templo do saber, pouco se questiona e de quase nada se duvida. E, assim, regressam com as costas arcadas sob o peso das mochilas carregadas de informação. Na verdade, estamos expondo nossos alunos à grave ameaça, não só de lesão à estrutura cervical, mas também ao cérebro que precisa ser mais exercitado a pensar.

Em face de tanta obviedade, prometo ser esta a última. Nenhum processo educativo será bem sucedido, nenhuma reforma de ensino será eficiente , nenhuma tecnologia salvará a escola sem que se aperte o botão correto: o da valorização do professor. Disso muito se tem falado, sobre isso todos concordam e é o que se tem repetido em cada discurso e em cada eleição.

No reino das palavras, essa é uma realidade inquestionável, uma verdade solar, o óbvio ululante. O tempo, todavia, insiste em se manter nublado. Nada disso vejo acontecendo.

 

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