Regional

Mulher na política está longe do ideal

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 9 min

O número de vereadoras eleitas nas Câmaras Municipais na região de Bauru ainda está longe do ideal da participação delas na política. Levantamento encomendado pelo Projeto Mulheres Inspiradoras (PMI) com base no banco de dados do Banco Mundial e Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aponta que nos 39 municípios da região administrativa bauruense nas últimas eleições se elegeram 5,69% das 1.274 candidatas. Mesmo assim o percentual é considerado 42% acima da média do Estado. As mulheres representaram 98.043 votos válidos.

A região é desigual no quesito de participação feminina. Há cidades que chegaram a eleger até quatro candidatas para nove vagas e outras nenhuma candidata. O Brasil ocupa a 115.ª posição no ranking de presença feminina no Parlamento entre 138 países. 

Os municípios com melhor representação são Pirajuí, Sabino, Pongaí, Uru, Cabrália Paulista e Iacanga que elegeram acima da média estadual. Já no grupo sem representantes do sexo feminino no parlamento estão Bocaina, Borebi, Cafelândia, Guaimbê, Guarantã, Itaju, Lucianópolis e Ubirajara.

Na pesquisa da PMI verificou a média de eleitas por grupo de 100 mil habitantes. É um cálculo em cima dos votos válidos e do número de candidatas. A cidade de Pirajuí é a que figura melhor entre os 39 municípios da região em 8.º no ranking estadual, mas quando comparado com o País vai para 2.550.º (no ranking nacional é por proporção de eleitas e o estadual é a cada 100 mil habitantes).

Aurélio Alonso
Vereadoras de Sabino Gabriela de Souza, Nadir Boneti, Ana Paula e Michelli de Souza Michelini

Nas últimas eleições, a Câmara pirajuense elegeu Daisy Maria Bini Serrato (PP), Rosalina Sônia dos Santos, a  Rosa da Ambulância (PR) e Roseli Aparecida Luan de Souza (PR). Ouvidas pelo JC, as três disseram que não encontram preconceito e nem dificuldade na atuação parlamentar.

No caso de Pirajuí com população de 22.765 habitantes as 44 candidatas tiveram 19% dos votos válidos que garantiram a eleição de três parlamentares (índice de 106,57 por grupo de 100 mil habitantes).

Já a cidade de Sabino, de 5.295 moradores, é a que elegeu mais candidatas em números absolutos: quatro parlamentares, mas na média per capital é a 296.º no Estado, porém se a análise for com base nos números proporcionais, a Casa Legislativa é a mais representativa por ter eleito após a posse a Mesa Diretora composta pelas recém-eleitas. A presidente da Casa é a ex-diretora de escola aposentada Nadir Zavan Boneti (PV), vice-presidente a comerciante Gabriela Carnicer de Souza (PRB), primeira-secretária Michelli de Souza Michelini (PSB) e segunda-secretária Ana Paula Rodrigues (PPS).

A cidade nos últimos anos teve uma política tumultuada com cassação de mandato de prefeito e vice eleitos devido a denúncia de compra de votos. As quatro decidiram entrar na política para fazer diferente após serem convidadas para preencher a cota dos partidos destinadas para candidatas do sexo feminino.

Sabino: mulheres querem fazer diferente

A participação feminina na política em Sabino (130 quilômetros de Bauru) nas últimas eleições garantiu vaga para quatro mulheres das nove cadeiras do Legislativo. A Mesa Diretora também é composta só de mulheres. Duas delas foram as mais votadas no pleito proporcional.

O município na região de Lins fica à beira do Rio Tietê, onde é conhecido pela praia artificial de água doce e procurado para pesca.

Na região administrativa de Bauru, Sabino é o município que possui mais mulheres na Câmara entre as 39 cidades. No último pleito concorreram 22 candidatas, quatro garantiram as vagas.

A diretora de escola aposentada e atual presidente da Câmara, Nadir Zavan Boneti (PV), de 68 anos, a líder dessa bancada feminina, tem uma explicação para tanta participação. "O atual prefeito (Eder Ruiz Magalhães de Andrade, o Dinho Advogado) fez questão de convidar candidatas e formar uma bancada de mulheres que tivessem participação comunitária e não somente para concorrer ou preencher as vagas destinadas às mulheres", conta.  

"Queremos fazer diferente", é o discurso de Nadir Boneti, da vice-presidente Gabriela Carnicer de Souza (PRB), da primeira-secretária Michelli de Souza Michelini (PSB) e Ana Paula Rodrigues (PPS). Em vários momentos da entrevista essa é a preocupação delas, quando questionada do motivo de entrar na política.

O município nos últimos anos viveu uma política tumultuada. A Justiça Eleitoral cassou o mandato em 2013 da chapa liderada por Carlos Eduardo Cruz Bergamaschi, o Carlos Tetão, o que levou ao poder o segundo colocado Pedro de Paula, que  assumiu o cargo, mas teve dificuldades na administração e não se reelegeu.

Nestes pouco menos de quatro meses na nova gestão, elas admitem as dificuldades, mas garantem que o objetivo é acabar com a "politicagem reinante". Já enfrentaram contestações após a aprovação de projeto de lei de reestruturação do funcionalismo e de corte nas horas extras. "Cortamos regalias", relatam.

A presidente da Câmara conta que algumas dessas medidas de corte de gastos vão repercutir positivamente na melhoria das finanças futuramente, porém admite que gerou descontentamento.

As quatros afirmam que por ser mulher não enfrentam preconceito dos vereadores e da população, mas admitem que são mais "emocionais". "Homem sofre menos na política por agir mais pela razão. Mulher age mais pelo coração. Além de termos que lidar com o problema da população e continuarmos acumulando nossas atividades de cuidar da casa e dos filhos", contam.

Com exceção de Nadir, que se aposentou como diretora do Estado, Gabriela é comerciante no ramo de material de construção, Ana Paula trabalha na área de saúde e Michelli de Souza é professora e teve que dar uma escapada no intervalo para conversar com a reportagem e retornar logo à escola onde leciona.

A presidente da Câmara, Nadir Boneti, admite que já teve que dar "murro na mesa", quando provocada por um vereador que utilizou a expressão que o prefeito colocava a "faca no pescoço" das vereadoras.

Os próximos planos de Nadir é implantar um sistema de transmissão das sessões online com melhor qualidade via Internet e usar o Facebook como ferramenta de contato com os eleitores. "Queremos uma política transparente", finalizaram.

Região elegeu 65 mulheres nas eleições a vereador

Nas últimas eleições às Câmaras Municipais nos 39 cidades da região administrativa de Bauru elegeram 65 mulheres. É a 7.ª colocação em relação a 16 regiões paulistas pesquisadas pelo Projeto Mulheres Inspiradoras (PMI).

Pelo menos 1.210 das mulheres que se candidataram à vereança na região não foram eleitas e 31% não tiveram menos de 10 votos.

A pesquisa faz um cálculo com base no número de votas válidos e nominais com a quantidade de candidatas por cidade para tirar uma média com base em cada grupo por 100 mil habitantes.

O levantamento não leva em conta os números absolutos. Se for com base no maior número de mulheres no Legislativo nesse quesito é a cidade de Sabino.

Pelo critério do PMI, a cidade de Pirajuí (veja matéria na página 19) é a melhor posicionada na região no ranking estadual e a primeira da Região Administrativa de Bauru.

Em oito municípios não elegeram nenhuma representante do sexo feminino no Parlamento Municipal.

A classificação dos municípios da região no ranking estadual do PMI é a seguinte: Presidente Alves (13.º), Cabrália Paulista (35.º), Avaí (50.º), Balbinos (57.º), Promissão (78.º), Guaiçara (93.º), Reginópolis (103.º), Iacanga (127.º), Arealva (139.º), Itapuí (154.º), Boraceia (164.º), Pongaí (198.º), Mineiros do Tietê (207.º), Paulistânia (212.º), Macatuba (245.º), Dois Córregos (250.º), Piratininga (275.º), Getulina (276.º), Agudos (287.º), Duartina (287.º), Sabino (296.º) Igaraçu do Tietê (369.º), Lençóis Paulista (380.º), Bariri (382.º), Barra Bonita (386.º), Jaú (433.º), Lins (436.º), Pederneiras (444.º), Uru (452.º), Bauru (457.º), Bocaina (505.º), Borebi (508.º), Cafelândia (510.º), Guaimbê (536.º), Guarantã (539.º), Itaju (549.º), Lucianópolis (567.º) e Ubirajara (640.º).

A pesquisa demonstra que 5,69 mulheres foram eleitas por grupo de 100 mil habitantes (42% acima da média do Estado), isso significa 1,67 mulheres eleitas por município (39% acima da média estadual). 

O JC usou como critério entrevistar as quatro vereadoras eleitas para Mesa Diretora de Sabino pelo fato de o município em números absolutos possuir o maior número de candidatas eleitas na eleição proporcional e ouviu as três vereadoras de Pirajuí, porque a cidade é a primeira da região no quesito participação da mulher na política por figurar em 8.º no ranking estadual na proporção de número de candidatas, votos válidos e número candidatas eleitas.

Pirajuí tem boa representatividade

Nas últimas eleições Pirajuí (58 quilômetros de Bauru) teve 44 candidatas a vereadora o que garantiu a eleição de três representantes na Câmara Municipal para a atual legislatura. Pelos cálculos de votos nominais com o número de postulantes, o município teve 106,67 por grupo de 100 mil habitantes. Diante disso é a 8.ª cidade bem posicionada no ranking estadual no levantamento do Projeto Mulheres Inspiradoras (PMI) com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a participação da mulher na política.

As três vereadoras eleitas - Daisy Maria Bini Serrato (PP), Rosalina Sônia dos Santos (PR) e Roseli Aparecida Luan de Souza (PR) - são cada uma delas figuras com boa representação na comunidade e não se candidataram só para cumprir cota do partido exigida pela legislação eleitoral de reservar 30% das vagas às mulheres.

O Brasil adota cláusula de gênero em sua Constituição para reservar cota para mulheres. Essa foi a forma para incentivar a participação feminina na política.

De acordo com o estudo, 121 países adotam esse sistema. Mesmo assim, o Brasil se situa atrás de nações em que o papel feminino é bem reduzido, como o Afeganistão, que tem 28% de mulheres no Parlamento, contra 10% em nosso País (leia texto abaixo).

Daisy Serrato já ocupou dois mandatos não consecutivos de vereadora e se ausentou da política por quinze anos. Ela atribui a sua volta a cargo eletivo pelo fato de o marido (Luiz Carlos Serrato) ter sido três vezes prefeito de Pirajuí, o que a fez ter participação na administração municipal, principalmente na área social. "Me vi na obrigação de partcipar agora (na política) porque sou vovó e meus filhos estão todos criados. Eu sei que posso fazer muito por Pirajuí", conta.

Na última eleição, ela foi a mais votada com 478 votos. "Fiz campanha com muita dificuldade por não conseguir andar devido a problemas de saúde e priorizei mais comícios com poucas visitas aos eleitores", ressalta, mas quando perguntada se enfrenta preconceito em sua atuação política alega que não.

A vereadora Rosalina Sônia dos Santos, a Rosa da Ambulância, trabalha na área de Saúde. Por ser servidora pública recebeu o convite para entrar na política, mas admite que a cota reservada a candidatas ajudou a obter a vaga. O convite veio da ex-vereadora e ex-prefeita Juliana Nagano. "Entrei para ajudar na cota, não tinha perspectiva para se eleger", revelou Rosalina.

A vereadora Daisy afirma que não deveria ter cota reservada para a participação de mulher na política. "Na minha opinião a mulher deveria ter interesse de participação na política sem precisar da cota, mas ela existe porque é muito difícil para os partidos conseguirem candidatas. Ninguém quer, as mulheres preferem ficar omissas", conta a vereadora mais votada da eleição.

A vereadora Roseli Aparecida Luan de Souza (PR), 49 anos, está em seu segundo mandato. Residente no distrito de Pradínia, localizado a 41 quilômetros da sede do município, ela conta que por ser mulher não sofre preconceito. Perguntada se a cota exigida para que os partidos lancem candidatas, ela disse que a ajudou, porque o partido teve que indicar várias candidatas, abrindo vaga para disputar a eleição. Servidora municipal na área de Saúde e pedagoga, ela admite que a dificuldade na atuação na vereança é a situação econômica do município que não é tão boa devido a retração econômica. "Nem tudo que pedimos é atendido", reclamou a parlamentar.

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