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A Rede Social 'caiu': e agora?

Prof.ª Dr.ª Rita Melissa Lepre
| Tempo de leitura: 4 min

As redes sociais representam, na contemporaneidade, uma espécie de "instituição", uma vez que se caracterizam como estruturas de uma determinada ordem social regulando os comportamentos de um conjunto de sujeitos que compartilham essas comunidades virtuais. Cada vez mais utilizadas, tais redes passam a fazer parte do arsenal mediador e interativo das pessoas, tais como a linguagem ou os instrumentos de forma geral.

Ficar sem a possibilidade de utilizar uma dessas redes é como perder a possibilidade de interagir, de participar, de se expressar. Na semana passada, como já aconteceu outras vezes, uma delas "saiu do ar" por um pequeno tempo e as reações dos usuários foram imediatamente publicadas em outra rede social. Reclamavam, perguntavam se outros também estavam sem o recurso virtual, esbravejavam, questionavam o motivo... Li uma postagem bastante curiosa que dizia: "Ainda estou aqui. Se precisarem falar comigo meu celular é...".

Uma vez sem a rede, essa pessoa precisou afirmar que continuava a existir, que estava ali e que caso alguém quisesse verificar era necessário ligar em seu celular, cujo número ela anunciava, uma vez que ninguém mais memoriza números após o surgimento das agendas eletrônicas. Menos de uma hora depois, a tal rede voltou a funcionar e as pessoas se acalmaram.

Reflitamos um pouco sobre o ocorrido. Por que as redes sociais passaram a ocupar um lugar tão importante nos relacionamentos humanos? Por que as pessoas se "apavoram" frente à impossibilidade de usá-las? Seres humanos são seres gregários e sociais, precisam do outro para se constituir enquanto humanos, para se humanizarem. No entanto, o contato com o outro gera tensões, uma vez que pessoas pensam e defendem ideias diferentes, possuem personalidades próprias e diversidade afetiva frente aos estímulos vindos do outro.

Os olhos, o rosto, o corpo das pessoas "falam" quando estamos frente a frente, a entonação da voz, o gaguejar, os lapsos de linguagem revelam sentimentos que talvez não queiramos expressar. É por isso que quando a Justiça busca a verdade em histórias que se contradizem, colocam os envolvidos em acareação, ou seja, face a face, na tentativa de sanar as divergências das falas isoladas.

Pois bem, apesar de gregários e sociais, também temos uma tendência a evitar a tensão. Quando entramos em uma discussão ou nos vemos frente a situações embaraçosas, a primeira ideia que nos vem à cabeça pode ser "sumir". E é exatamente isso que as redes sociais nos permitem. "Sumir" quando o contato se faz tenso demais ou alongar nossa estada quando o assunto é prazeroso, sem demonstrar nossas emoções num rosto vermelho ou olhos marejados. Quando alguém nos incomoda demais numa conversa virtual ou nos confronta com algo que não podemos ou queremos lidar, temos a opção de simplesmente nos retirar da conversa apertando um botão ou fechando um programa.

Nada de exposições. Nada de sair correndo. Nada de enrubescer frente ao outro ou expor alguma de nossas fraquezas. Ao sair da conversa, deixamos uma interrogação: será que a Internet caiu? Alguém chegou? Um filho chamou? Enfim, podemos abandonar a tensão sem que o outro saiba exatamente o que ocorreu conosco. Podemos nos dar um tempo para pensar, elaborar uma resposta melhor, sem a influência de emoções ambivalentes emergentes.

Acontece que tensões e conflitos são necessários para o nosso desenvolvimento enquanto seres humanos. Vivenciar experiências na quais nossas certezas são confrontadas se fazem necessárias ao nosso desenvolvimento psíquico. Falar virtualmente com alguém que amamos e está distante pode ser bom, mas não substitui o abraço, o carinho ao tocar a pele, as alterações da pupila frente à "luminosidade" do outro.

As redes sociais podem e devem ser mais um dos mediadores que utilizamos para nos comunicar, mas não me parece saudável que se tornem a principal forma de nos relacionarmos e que substituam as relações presenciais.

Não podemos negar que as possibilidades de comunicação e divulgação de informações se intensificaram com as redes sociais e que os ganhos são inúmeros. Mas, como em todos os outros setores da vida humana, tudo aquilo que não é passível de certo equilíbrio pode se tornar nocivo.

Utilizemos as redes sociais, mas não nos desesperemos quando as mesmas ficarem indisponíveis por algumas horas. Ainda há a possibilidade de uma visita à casa de um amigo, de um café com quem amamos ou de um bom exercício de introspecção em busca do autoconhecimento!

A autora é professora adjunta do Departamento de Educação da Faculdade de Ciências, Unesp/Bauru. Psicóloga e livre-docente em Psicologia da Educação.

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