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O que aprender com o jogo 'baleia azul'

Fausi dos Santos
| Tempo de leitura: 3 min

Nas últimas semanas acompanhamos pela imprensa casos de automutilações e suicídios que envolvem adolescentes, tais casos são motivados por um jogo que se denomina "baleia azul". Muito além do suicídio, o jogo se aplica a oferecer ao usuário uma cadeia de perigosos desafios que colocam em risco sua integridade física e mental. O que estaria por trás de um jogo que supostamente afastaria qualquer indivíduo com um grau mínimo de discernimento crítico, mas que seduz e envolve centenas de milhares de pessoas em todo o mundo?

Antes de tudo, é importante afirmar que não existe nada de idiota em quem adentra os desafios do "baleia azul". O que há, na verdade, é certa "identificação" dos usuários por um dispositivo que de alguma forma consegue "dar forma" e "sentido" (mesmo sendo autodestrutivo) ao sofrimento psíquico que acompanha um número crescente de pessoas na sociedade atual. Não há nada tão óbvio e fácil de entender nos casos de automutilações e suicídios patrocinados por este jogo.

Na verdade, estes acontecimentos evidenciam dados assustadores, o aumento anual de casos de suicídios entre jovens. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), dados de 2012, o suicídio já é a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Já a depressão, segundo a mesma organização, é a doença mais incapacitante do mundo.

A tendência autodestrutiva em populações cada vez mais jovens tem se evidenciado de forma sintomática na atualidade. Fácil perceber quando analisamos o aumento no consumo de drogas recreativas como o álcool, cigarro e na própria maconha. O que se deseja com o consumo destas substâncias? Um grupo de usuários procura por um lado, um tipo de "felicidade pasteurizada". Explico, felicidade sintética, construída ou manipulada de forma artificial, que pode ser acessada ou controlada a qualquer momento pelo usuário. Por outro lado, outro grupo, procura com o seu consumo, de forma intensa e indireta, a "fuga momentânea da realidade", recheada de dores, angústias, desilusões e pressões sociais. Obter prazer por experiências intensas, dissociadas da angústia cotidiana provocada pelo trabalho, estudos, família, amores e todo tipo de pressões que recaem sobre cada um, tornasse um bálsamo ou válvula de escape para muitos indivíduos.

O sociólogo Zigmunt Bauman já denunciou esta tendência à fragilidade da subjetividade humana. Esta construção aleijada dos afetos e da organização psíquica dos sujeitos que necessita cada vez mais de muletas emocionais, sejam elas as drogas, os modismos ou "um" jogo. O que isto resulta no convívio social? Sujeitos emocionalmente frágeis, carentes em demasia, suscetíveis à vícios variados que permeiam desde o uso desenfreado da internet e redes sociais, passando por relacionamentos fugazes, no qual queremos companhia mas sem nos sentir presos a uma única pessoa, até os vícios bioquímicos em drogas ilícitas como em drogas lícitas (antidepressivos, ansiolíticos, estabilizadores de humor) que diminuam em nós esta sensação de que tudo não é o bastante.

Sim, vivemos tempos difíceis caro leitor, tempos de um "sujeito fragmentado", que obtém pelo conhecimento racional e técnico o mundo aos seus pés, mas que é extremamente frágil em sua vida emocional e afetiva. Portanto, o jogo "baleia azul" se transformou em uma "instituição" que dá forma e vazão autodestrutiva para os afetos feridos de centenas de milhares de jovens que comungam da mesma dor mundo afora. Poderia ser qualquer outro jogo que lide com a "dor de existir" e os sentimentos de deslocamento de cada pessoa. Teria o mesmo efeito e adesão, pois o jogo não é a causa em si mesma das mortes e automutilações, mas apenas estrada onde flui, como enxurrada, uma cadeia de sofrimentos e afetos mal resolvidos.

Vivemos uma época de ceticismos e indiferenças em todas as esferas, a começar por nossos governantes, passando pela crescente crise de fundamentalismos morais e políticos no Brasil e mundo afora. Não é difícil perceber que num mundo de "cinquenta tons de cinza" crie se um fascínio crescente pelo "fim" eminente seja de si ou do outro.

O autor é professor de Psicologia Social e Ética Aplicada na ITE. Pesquisador em Educação Escolar pela Unesp de Araraquara. fausi@ite.edu.br

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