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A Moro, Lula nega propina da OAS e se diz alvo de perseguição


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Ricardo Stuckert/Fotos Públicas
Lula é recebido por movimentos sociais e apoiadores em Curitiba

Em quase cinco horas de depoimento ao juiz Sergio Moro no processo em que é acusado de receber propina da OAS, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou que tenha recebido vantagens indevidas da empreiteira, acusou o Ministério Público de persegui-lo e atacou a imprensa. Foi o primeiro depoimento de Lula a Moro. O Ministério Público Federal diz que o petista participou do esquema de desvios na Petrobras e recebeu da OAS um total de R$ 3,7 milhões em vantagens indevidas. Parte deste valor teria sido pago com a reserva de um tríplex em Guarujá e em benfeitorias neste imóvel no valor de R$ 2,4 milhões.

Lula disse que nunca teve a intenção de adquirir o tríplex. “Fui lá ver o apartamento, coloquei 500 defeitos, voltei e nunca mais conversei com o Leo (Pinheiro, ex-presidente da OAS) sobre o apartamento”. Moro então questionou Lula sobre uma visita ao imóvel feita pela mulher do petista em 2014, época em que Lula diz que já havia desistido da compra do imóvel. “Eu não sabia que tinha tido visita. Não sei se o senhor tem mulher, mas nem sempre ela pergunta para a gente o que vai fazer”, afirmou Lula sobre Marisa, morta em fevereiro.

Sobre a outra acusação a que responde neste processo, de que a OAS pagou R$ 1,3 milhão em serviços pelo armazenamento de bens do ex-presidente, como presentes e objetos recebidos em seus mandatos, Lula disse que não sabia o tamanho do acervo de bens recebido por ele durante a Presidência e que somente depois ficou sabendo que a OAS havia pago armazenagem de parte dos bens, na transportadora Granero. E acrescentou: “Deixa eu dizer uma coisa, uma coisa que o presidente Fernando Henrique também disse aqui. Que é só quem foi presidente é que sabe o que acontece. Eu nunca, nunca, entrei nos porões do Palácio do Alvorada para saber se tinha uma, duas ou mil caixas. (...) Eu, se soubesse que ia dar isso, eu teria deixado lá no Palácio pro próximo presidente ter que cuidar...”

Lula confirmou a Moro que teve um encontro com o ex-diretor da Petrobras Renato Duque para questioná-lo sobre eventual conta no Exterior, conforme relatado pelo ex-diretor na semana passada. O ex-presidente disse que articulou a reunião por meio do então tesoureiro do PT João Vaccari Neto, que está preso no Paraná, acusado de participação nos desvios. “Tinha vários boatos no jornal de corrupção, de conta no Exterior. Pedi para o Vaccari trazer o Duque para conversar. Não tenho ideia, doutor (da data). A pergunta que eu fiz para o Duque foi simples: têm matérias nos jornais, têm denúncias de que você tem dinheiro no Exterior, pegando da Petrobras. Você tem conta no Exterior? Ele disse: “Não tenho”. Acabou. Não mentiu para mim, mentiu para si mesmo”, argumentou.

“O que aconteceu nos últimos 30 dias vai passar para a história como o mês Lula. Porque foi o mês em que vocês trabalharam, sobretudo o Ministério Público, para trazer todo mundo para falar uma senha chamada Lula. O objetivo era dizer Lula. Se não dissesse Lula, não valia.” Moro então pergunta se Lula se acha vítima de conspiração. Resposta: “Não, eu entendo e acompanho pela imprensa, que pessoas como Léo Pinheiro, que está já há algum tempo querendo fazer delação. Primeiro ele foi condenado a 23 anos de cadeia. Depois se mostra na televisão como se vive a vida de nababo dos delatores. (...) Delatar virou quase o alvará de soltura dessa gente (...).”

Curitiba tem dia marcado por manifestações a favor e contra

Rodolfo Buhrer/Reuters
“Pixuleco” de Lula vestido de presidiário entre manifestantes

Apesar do clima de apreensão e de algumas ocorrências pontuais, as manifestações a favor e contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva transcorreram com tranquilidade nessa quarta-feira (10) na capital paranaense.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Paraná, 130 ônibus chegaram a Curitiba para acompanhar o depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro, da Operação Lava Jato, o que somaria um total de 7 mil pessoas. O número de policiais envolvidos na operação foi de 1,7 mil.

Os apoiadores de Lula começaram o dia com uma marcha pela cidade, recepcionaram o petista no aeroporto Afonso Penna e se aglomeraram em frente ao prédio da Justiça Federal, palco do depoimento. Após o fim da audiência, Lula se juntou aos manifestantes em um ato político realizado na Praça Santos Andrade, um dos cartões postais da cidade, que fica em frente Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O petista subiu ao palco ao lado ex-presidente Dilma Rousseff. Ambos foram ovacionados pelos militantes, que gritaram “Fora Temer”, em referência ao presidente Michel Temer que assumiu o cargo após o impeachment de Dilma. No início da tarde, a chegada de Lula à sede da Justiça Federal onde prestou depoimento foi calculada para ter ares de apoteose.

O ex-presidente desceu do carro e percorreu, literalmente nos braços do povo, cerca de 50 metros até chegar à barreira de policiais que cercava o local. Após passar pelo bloqueio, o petista acenou para os apoiadores e entrou em um carro para ser conduzido ao encontro com Moro. Assim que a audiência teve início, os manifestantes pró-Lula se deslocaram até a Praça Santos Andrade.

Nem mesmo a fina chuva e o frio de 14.º C desmobilizaram os cerca de 5 mil militantes que passaram a tarde ao relento à espera do petista. Deputados, senadores e governadores do PT e de outras legendas de esquerda também passaram o dia em Curitiba para dar apoio ao ex-presidente.

Em outro ponto da cidade - o Museu de Arte Moderna Oscar Niemeyer - cerca de 200 manifestantes protestaram contra o ex-presidente. Vestidos de verde e amarelo, ergueram um “pixuleco”, boneco inflável com 20 metros de altura no formato do ex-presidente em uma roupa de presidiário.

No final do seu depoimento, Lula fez alerta a Sergio Moro sobre injustiças

O ex-presidente reclamou de ter sido alvo de condução coercitiva sem nunca ter sido chamado a depor e do vazamento das gravações de Marisa

Lula Marques/AGPT/Fotos Públicas
Policiais fizeram a segurança no prédio da Justiça Federal, em Curitiba, durante o depoimento

Ao final do depoimento nessa quarta-feira (10), ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou o juiz Sergio Moro por decisões tomadas por ele, como o fato de ter sido alvo de condução coercitiva e o vazamento de gravações envolvendo sua mulher, Marisa.

“O senhor sem querer talvez entrou nesse processo. Porque o vazamento de conversas da minha mulher e com meus filhos foi o senhor que autorizou. Eu não tinha o direito de ter minha casa molestada sem que eu fosse intimidado para uma audiência, doutor. Ninguém nunca me convidou. De repente, eu vejo um pelotão da PF, levantaram até um colchão da minha casa achando que eu tinha dinheiro, doutor”, disse Lula.

Ele, ao finalizar seu depoimento, fez também um alerta a Moro: “Eu queria lhe avisar uma coisa: esses mesmos que me atacam hoje, se tiverem sinais de que eu serei absolvido, prepare-se, porque os ataques ao senhor vão ser muito mais fortes”, afirmou.

Moro respondeu: “Infelizmente, eu já sou atacado por bastante gente, inclusive por blogs que supostamente patrocinam o senhor. Então, padeço dos mesmos males em certa medida”, declarou o juiz.

Lula chegou a alfinetar Moro no depoimento ao lembrar da soltura do doleiro Alberto Youssef, que voltou a cometer crimes após firmar um acordo de colaboração no caso do Banestado, na década passada.

O juiz insistiu em perguntas sobre o grau de conhecimento do petista sobre irregularidades cometidas por ex-diretores da Petrobras, e Lula disse: “Nem eu nem o senhor, nem o Ministério Público, nem a Petrobras, nem a imprensa, nem a Polícia Federal. Todos nós só ficamos sabendo quando foi pego no grampo a conversa do Youssef com o Paulo Roberto (Costa).”

Moro disse: “O senhor que indicou ele ao Conselho de Administração da Petrobras. É uma situação diferente de mim, que não tenho nada a ver com isso, nunca participei disso.”

Lula responde: “O senhor que soltou o Youssef e mandou grampear. Poderia saber mais do que eu.”

O juiz responde que decretou a prisão de Alberto Youssef, “o que é um pouco diferente”.

Em outro momento do interrogatório, Moro disse que Lula “tem que reclamar com sua sucessora”.

“Adoraria ter sido convidado para a inauguração (da refinaria Abreu e Lima), mesmo quando começaram as denúncias da Lava Jato. Adoraria ter ido lá fazer um discurso para o povo de Pernambuco do significado da refinaria. Prenda-se o ladrão, mas deixa a refinaria produzir riqueza nesse rincão tão esquecido do Brasil”, disse Lula.

E continuou: “Doutor, eu não fui convidado para a Copa do Mundo, que fui eu que trouxe para cá. Eu não fui convidado para as Olimpíadas. Ex-presidente, doutor... Não queira ser ex-ministro, ex-juiz que o senhor vai ver o que vai lhe acontecer”, afirmou.

Então, o juiz Sergio Moro comentou: “O senhor ex-presidente aí tem que reclamar com a sua sucessora, né?”

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