Tribuna do Leitor

A mãe do cativo

André Luiz Vieira Antonetti
| Tempo de leitura: 2 min

Toda a grande e vigorosa obra de Castro Alves sempre me impressionou, mas um "pedaço" em particular me marcou profundamente, desde o momento do primeiro contato, ainda menino. Agora, com a proximidade do Dia das Mães, reproduzo estas preciosas linhas.

Ó mãe do cativo! que alegre balanças

A rede que ataste nos galhos da selva!

Melhor tu farias se à pobre criança

Cavasses a cova por baixo da relva.

Ó mãe do cativo! que fias à noite

As roupas do filho na choça de palha!

Melhor tu farias se ao pobre pequeno

Tecesses o pano da branca mortalha.

Misérrima! e ensinas ao triste menino

Que existem virtudes e crimes no mundo

E ensinas ao filho que seja brioso,

Que evite dos vícios o abismo profundo...

E louca, sacodes nesta alma, inda em trevas,

O raio da espr'ança... Cruel ironia!

E ao pássaro mandas voar no infinito,

Enquanto que o prende cadeia sombria!...

II

Ó mãe! não despertes est'alma que dorme,

Com o verbo sublime do Mártir da Cruz!

O pobre que rola no abismo sem termo

Pra qu'ha de sondá-lo... Que morra sem luz.

Não vês no futuro seu negro fadário,

Ó cega divina, que cegas de amor?!

Ensina a teu filho - desonra, misérias,

A vida nos crimes - a morte na dor

Que seja covarde... que marche encurvado...

Que de homem se torne sombrio réptil,

Nem core de pejo, nem trema de raiva

Se a face lhe cortam com o látego vil.

Arranca-o do leito... seu corpo habitue-se

Ao frio das noites, aos raios do sol.

Na vida - só cabe-lhe a tanga rasgada!

Na morte - só cabe-lhe o roto lençol.

Ensina-o que morda... mas pérfido oculte-se

Bem como a serpente por baixo da chã

Que impávido veja seus pais desonrados,

Que veja sorrindo mancharem-lhe a irmã.

Ensina-lhe as dores de um fero trabalho...

Trabalho que pagam com pútrido pão.

Depois que os amigos açoite no tronco...

Depois que adormeça co'o sono de um cão.

Criança - não trema dos transes de

um mártir!

Mancebo - não sonhe delírios de amor!

Marido - que a esposa conduza sorrindo

Ao leito devasso do próprio senhor!...

São estes os cantos que deves na terra

Ao mísero escravo somente ensinar.

Ó mãe que balanças a rede selvagem

Que ataste nos troncos do vasto palmar

III

Ó mãe do cativo, que fias à noite

À luz da candeia na choça de palha

Embala teu filho com essas cantigas...

Ou tece-lhe o pano da branca mortalha.

Castro Alves

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