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Luciano Dias Pires completa 90 anos de história

Aline Mendes
| Tempo de leitura: 6 min

Douglas Reis
Luciano Dias Pires comemora sua história: 90 anos de vida, 68 anos de imprensa e 43 anos de Bauru Ilustrado

Este dia 15 de maio é histórico para quem adora contar a história de Bauru e de seus moradores. O jornalista e memorialista Luciano Dias Pires completa 90 anos. "Eu tinha um certo receio de ficar velho, porque não sabia como ia ser. E cheguei a essa idade fazendo o meu trabalho!", comemora o criador do suplemento Bauru Ilustrado.

Sua trajetória - não só pelo tempo acumulado, mas pelos muitos feitos - daria um livro e até um documentário. Por isso, não é pretensão desta reportagem esgotar o assunto ou mesmo resumir um pouco de tudo, pois quando se trata do seu Luciano, sempre vai haver muito o que contar.

A intenção é homenagear uma das figuras mais queridas da cidade, que para sempre será referência de quem organizou, preservou e partilhou as memórias bauruenses.

Tanto, que foi difícil não falar do trabalho e das muitas experiências que ele trouxe. "Chegou até mim uma foto do começo do século XX com uma professora e cinco alunos. De surpresa, promovi um encontro entre eles e a professora, que tinha mais de 90 anos, lembrou o nome de um por um. Todo mundo se emocionou e chorei muito. Fiz uma reportagem bonita".

Assim, a todo momento era preciso lembrar: não, seu Luciano, conte uma história sua!

Discreto e muito simples, apesar da grandiosidade de tudo que já fez, ainda faz e representa para a história de Bauru, foi preciso extrair devagar um pouco da sua intimidade. Imagine a honra e a responsabilidade, caro leitor!

VOCAÇÃO PARA COMUNICAR

Nascido em Botucatu, Luciano veio para cá aos 2 anos de idade com dois irmãos mais velhos e os pais, que tinham uma tipografia. Aliás, sua família de origem é repleta de comunicadores. E, assim como ele, muitos parentes trabalharam na Noroeste do Brasil.

"Entrei em 1945 e trabalhei em vários setores. Mas quando fui para o departamento de relações públicas, eu me realizei. A história da ferrovia está entrelaçada a de Bauru e fui organizando fotos, dados e objetos para que o acervo ficasse acessível. Assim me tornei memorialista. Fiquei na Noroeste até me aposentar em 1983", lembra seu Luciano.

Não por acaso, ainda muito jovem, já era locutor na Bauru Rádio Clube e, mais tarde, chegou a criar o primeiro programa só de notícias da cidade. "Eu queria falar no microfone de qualquer jeito!". Apaixonado por futebol, foi também comentarista esportivo na antiga Rádio Terra Branca.

"Nos anos 60 fui para o jornal impresso. Trabalhei no Diário de Bauru e como redator regional do Diário de São Paulo, entre outros veículos".

MEMÓRIA BAURUENSE

Em 1974 o jornalista teve uma ideia tão boa que atribui a uma inspiração divina: criar o jornal Bauru Ilustrado. "Queria contar a realidade de pessoas mais humildes e também dedicar um espaço à história de Bauru e seus pioneiros, das famílias, dos esportes, da política e da vida social".

Por quase três anos foi uma publicação particular, com a tiragem de 5 mil exemplares apenas impressos pelo Jornal da Cidade. O entusiasmado Luciano fazia tudo, das reportagens à busca de propagandas.

Até que em 1977 fez uma proposta e o Bauru Ilustrado passou a ser um suplemento do JC. "Foi ótimo, porque não tinha mais que me preocupar com a parte comercial e pude me dedicar mais aos textos e fotografias".

Hoje seu acervo possui mais de 20 mil fotos. Em cada uma reconhece imediatamente o ano, o lugar e quem está na imagem. Criada em 1983, a famosa seção "Retrato de família" já contou a trajetória de mais de 300 famílias que aqui nasceram ou para cá vieram.

"No começo de 2018 vamos chegar a 500 edições. Em todo esse tempo, o caderno nunca deixou de circular, mesmo quando precisei fazer cirurgias e tive um infarto, em 2015. Parecia que até o problemas de saúde eram programados e dava certo de escrever a próxima edição durante o repouso".

NA PRÁTICA

Seu Luciano é a prova de que o conhecimento e a experiência contam mais que os diplomas. Duas das suas áreas de atuação, quando regulamentadas pelo governo, deram a quem já as praticava há mais de 10 anos o direito de ter o registro profissional e os mesmos benefícios. Por isso ele é jornalista e relações públicas, possivelmente o mais antigo ainda vivo. "Meu registro de relações públicas é o de número 97. Fui o primeiro delegado do Conselho Regional de RP do Estado de São Paulo", orgulha-se.

Além disso, tem um curso de contador que lhe deu um título equivalente ao da graduação e no colégio Guedes de Azevedo fez o chamado curso normal, que formava professores.

"Não quis seguir essa carreira, mas teve uma coisa muito boa. No curso conheci minha Helena, que veio a ser minha companheira de toda a vida".

Arquivo pessoal
Lúcia Helena, Helena, Luiz Antônio, Luciano (pai) e Luciano (filho)

FAMÍLIA

Luciano e Helena, casados há 62 anos, tiveram três filhos, seis netos e uma bisneta. "Agradeço muito a Deus pela minha família, estão todos bem encaminhados. O meu filho Luciano, que de certa forma seguiu minha profissão, é pai da Gabi e do Daniel. O Luiz Antônio, diretor do Zoológico, é pai do Matias e da Bárbara, mãe da minha bisneta Isadora. E minha filha Lúcia Helena é mãe da cantora Luciana Pires e da Fernanda, que fez relações públicas e chefia uma ONG em Lisboa".

Com quase todos eles, o aniversariante irá comemorar em uma reunião bem íntima seus 90 anos. "Eu me sinto muito realizado e gosto de apagar a vela do bolinho", brinca.

Outra realização é ter feito todos os filhos e netos serem corintianos e noroestinos como ele. "É uma questão de honra! Sou um torcedor fanático, só que não assisto aos jogos, porque fico muito nervoso!".

Para ele, sua vitalidade e excelente memória são dádivas de Deus, não há receita. "Sou um cidadão tranquilo, que nunca teve inimigos. Gosto muito de viajar de excursão com minha esposa e no trajeto coloco um DVD que fiz contato a história de Bauru. Adoro assistir filmes de ação na TV, ir ao cinema e ler os jornais, escuto rádio e às vezes faço uma caminhada. Ando pouco porque ainda dirijo. Acabei de renovar minha habilitação!", conta empolgado.

 
Com os pais Lázara (Nhazinha) e Francisco, e os irmãos Jack e João Batista; Luciano é o caçula

SONHOS E CONSELHOS

Mesmo colecionando tantas realizações, seu Luciano Dias Pires ainda tem alguns planos: finalizar o livro com 130 crônicas sobre sua trajetória em Bauru e criar um memorial cultural e esportivo, que homenageie as grandes personalidades que brilharam em diversos setores e nasceram ou viveram em Bauru.

“Ainda gostaria de ver o monumento da Revolução de 32 bem restaurado, um busto do Casemiro Pinto Neto, criador do sanduíche Bauru, e homenagens aos índios e ferroviários, tão importantes nos primórdios da cidade”.

Por fim, essa grande personalidade de Bauru, que, certamente, mereceria estar no memorial sonhado por ele, deixa alguns conselhos para os mais jovens. “Apesar da facilidade do celular, passem as fotos para o papel. Mandem imprimir, fica pronto na hora!”, diz, relembrando técnicas para retocar os negativos. “Aos jovens jornalistas, digo que gostem muito da profissão e não pensem que logo serão os melhores. É difícil, paga pouco e requer muita dedicação. Só o amor pelo jornalismo para compensar”, conclui. 

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