| Fotos Samantha Ciuffa |
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| Tocar piano é uma de suas paixões |
Sabe aquele bate-papo agradável em que o tempo passa sem se fazer notar? Assim é conversar com dona Thereza Maria de Oliveira Martins, de 91 anos, que, de fato, não aparenta a idade, nem no rosto bem cuidado, nem na excelente memória e na facilidade com que fala sobre qualquer assunto. "Eu nunca tinha sido entrevistada!". Que sorte a do JC participar dessa estreia.
Com suavidade e de forma precisa, ela ainda faz questão de tocar uma música ao piano: escolheu Fascinação. Fascinantes também são sua simpatia e seu modo leve de encarar a vida. "Tem gente que é negativa, reclama muito... Eu não! Agradeço a Deus todos os dias pela vida e pela saúde dos meus familiares. Temos mais a agradecer do que pedir".
Só que dona Thereza tem um pedido, sim. "Minha lucidez é graça de Deus e peço que nos anos que Ele ainda me der eu tenha qualidade de vida".
Um check-up recente mostrou que a saúde está em ordem. "Dirigi até os 89 anos. Com 90 o médico achou melhor parar, porque a gente perde os reflexos e o trânsito anda perigoso".
Nem por isso seu dia a dia é parado: as horas são preenchidas com muita leitura, o prazer de extrair belas melodias ao piano e várias outras atividades, que o leitor conhece nessa entrevista. Em tempo: ela é uma integrante ativa e querida do Lions Bauru Centro.
| Renan Casal |
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| Thereza é uma integrante ativa e querida do Lions Bauru Centro. |
JC - Como foi sua infância e juventude?
Thereza - Vivi até os 7 anos em Promissão; dos 8 aos 14 anos morei em Sorocaba com meus avôs e meus tios para estudar piano com minha tia. Adorava ouvi-la tocar. Estudei 7 anos por gosto, nunca pensei em seguir carreira. Depois, estudei três anos no colégio interno Nossa Senhora Auxiliadora, em Lins. Lá tocava harmônio, um tipo de órgão, durante a missa.
JC - Por que escolheu o magistério?
Thereza - Pensei em cursar filosofia, mas tinha que ir para São Paulo e meu pai não queria. Resolvi ser professora porque me interessei e por influenciada da família. Meu avô paterno foi até delegado de ensino em São Carlos; na família dele todos eram professores. Formada, comecei a dar aula no grupo escolar em Promissão e em escolas rurais. Em 1949 passei no concurso do Estado e fui lecionar em Lins.
JC - E o que aconteceu depois?
Thereza - Em Lins conheci meu marido, que já era cirurgião dentista. Nos casamos em dezembro de 1951. Lá nasceram minhas filhas e a gente tinha tudo para ficar em Lins para sempre. Mas o sonho do Décio era ser professor da USP. Depois que ele foi chamado, ainda viajou dois anos para atender seus pacientes. Em 1967 nos mudamos para Bauru e fui transferida para o Grupo Escolar Lourenço Filho, onde trabalhei até me aposentar em 1977.
JC - Que lembranças guarda de quando era professora?
Thereza - Tive bom relacionamento com diretores e colegas. Nunca levei problemas de casa para a escola. Tenho boas lembranças. Como professora fui bastante exigente, mas também carinhosa. Na 1ª série, os alunos liam no meu colo. Quando um ex-aluno me reconhece e se identifica, é muito gratificante.
JC - Desde então sempre morou aqui?
Thereza - Não, porque em 1968, meu marido conseguiu uma bolsa de estudos nos Estados Unidos e moramos lá durante dois anos. Minhas filhas aprenderam a falar fluentemente e dão aulas de inglês até hoje. Eu ainda entendo bem a língua. Assim pegamos gosto por viagens pelo exterior.
JC - Para onde viajaram?
Thereza - Além de vários lugares nos Estados Unidos conhecemos o Canadá. Depois que me aposentei, fizemos, só nós dois, várias viagens pela Europa, Oriente Médio, Extremo Oriente (Japão, China, Bali, Tailândia e Indonésia), países das Américas Central e do Sul.
JC - O que mais faziam juntos?
Thereza - Nós gostávamos muito de bailes dos "Anos dourados", dançávamos de valsa a bolero, as músicas do nosso tempo. Fomos a muitos bailes naquele prédio bonito em que foi o Bauru Tênis Clube.
JC - Como era seu esposo Décio?
Thereza - Meu marido foi professor da USP de 1965 a 2008. Deu aula até os 81 anos. Passava o dia na faculdade. Tenho muito orgulho do Décio, que sempre foi determinado, soube fazer planos a longo prazo e conseguiu tudo que queria. Ele se planejava bem, tanto que cursou direito na primeira turma da ITE. Dizia que se lesionasse os dedos, poderia prestar concurso para juiz. Apesar de se exercitar, era hipertenso e teve um infarto. Faleceu dia 19 de maio de 2013, aos 86 anos. Fui muito feliz na minha vida conjugal.
JC - Participavam juntos também do Lions Clube?
Thereza - A única atividade que não deixei depois que meu marido faleceu é o Lions, foi um pedido dele e minhas amigas lá são muito atenciosas comigo. Amo o Lions e sou a "domadora" mais idosa! Viemos transferidos do Lions de Lins para o Bauru Centro. Meu marido foi presidente em Penápolis e aqui. É um trabalho filantrópico maravilhoso, que ajuda creches, asilos e entidades assistenciais, entre outros. Não consigo ajudar como antes nas campanhas, mas participo uma vez por mês.
JC - Ainda frequenta a igreja?
Thereza - Quando mudei para Bauru, frequentava a Igreja Santa Rita e tocava órgão na missa das crianças. Depois, fui tocar na missa da noite na Catedral. Atualmente vou à missa com minha filha Elaine no Santuário Nossa Senhora de Fátima. Com 91 anos não dá para assumir muitas coisas, não é?
JC - O que não pode faltar para ter uma vida feliz como a sua?
Thereza - Um bom relacionamento com as pessoas e uma maneira positiva de encarar a vida. Também cultivar os sentimentos nobres como o amor ao próximo, a humildade, a modéstia, o perdão e a gratidão. Eles ajudar a lidar bem com todos. Para mim, ninguém é antipático. Conquisto a pessoa com gentileza e ela fica minha amiga.
JC - Que mensagem deixa aos mais jovens?
Thereza - Aos jovens de hoje posso lhes aconselhar: não sejam imediatistas, façam planos a longo prazo, não parem de estudar, para estarem sempre atualizados, e procurem ler um livro que vai ajudá-los muito: "O homem medíocre", do escritor espanhol José Ingenieros. Ele lhes dará metas e orientações excelentes para suas vidas.
| Reprodução |
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| Durante 61 anos e meio, Thereza ficou casada com Décio Rodrigues Martins |
RAIO-X
Thereza Maria de Oliveira Martins nasceu em Promissão (SP) no dia 4 de abril de 1926. Em Bauru há 50 anos, foi professora primária. Durante 61 anos e meio ficou casada com Décio Rodrigues Martins, até o falecimento dele, em maio de 2013. Desse grande amor nasceram Elaine e Heloísa, que é mãe de Maria Fernanda, Luís Eduardo e Maria Carolina. Dona Thereza já tem quatro bisnetos.
Religião: "Sou católica, mas muito aberta ao ecumenismo. Morei com minha avó e tia católicas, meu avô era espírita e meu tio protestante. Aprendi em casa".
O que gosta de fazer: "Ler, tocar piano, fazer palavra-cruzada e pilates duas vezes por semana".
Leitura: romance e ficção. "No momento, estou relendo 'A Cabana', é muito bom. E adoro ler os contos de fadas clássicos para os bisnetos".
Música: "Comecei tocando música erudita e meu compositor preferido é Chopin. Depois, passei a tocar música popular da minha época. Gosto de bolero, foxtrote e bossa-nova".
Cinema: filmes de suspense e de outros gêneros. Entre seus preferidos, estão "E o Vento Levou...", "O Feitiço de Áquila" e "Golpe de Mestre".
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