O que define o tamanho de uma cidade? De pronto, alguns podem dizer que é a área, o número de habitantes, a quantidade de bares ou igrejas em cada esquina, os artistas sertanejos que vão na próxima exposição agropecuária ou qualquer outro dado/índice colhido metodologicamente pelo IBGE. Eu acho que estão todos pra lá de equivocados. Em minha visão, o que mensura o tamanho de uma cidade é a quantidade de semáforos que ela possui.
Veja Pirajuí, a minha cidade natal, por exemplo. Até poucos anos atrás, não tinha nenhum semáforo por lá (ótimo para mim, que sou daltônico). Mesmo já tendo sido considerada a maior produtora cafeeira do mundo no passado, ainda era vista por muitos como uma cidade pequena.
Bastou instalar o primeiro – e único – semáforo e pronto: eis o desenvolvimento batendo à porta! Administrada hoje pelo amigo santista César Fiala, Pirajuí caminha para se tornar uma megalópole. Acredito que São Paulo, Nova Iorque, Paris e outras tantas começaram assim... com um corajoso e solitário semáforo.
Mas, oras, o que tem de ruim em ser uma cidade pequena? Enquanto muitos acreditam que cidade grande possui tudo o que cidade pequena não tem, eu vejo pelo “lado cheio” do copo: cidade pequena possui tudo o que cidade grande não tem.
Não acredita? Cidade pequena tem senhoras conversando em cadeiras na calçada ao fim da noite; tem fiado em toda mercearia; tem molecada bem no meio da rua jogando futebol com traves feitas de tijolos (ou chinelos); tem Cristo de braços abertos na entrada; tem pé-de-tudo-quanto-é-fruta em qualquer quintal; tem ovelha rosa (esta, especificamente, no caso de Pirajuí); tem um novo encontro com amigos ou conhecidos a cada cinco quadras; tem carro passando devagarinho para ver de quem é o velório; tem atualização da vida alheia em tempo real (eufemismo para o que os maldosos chamam de fofoca); tem começo de namoro na praça; tem “vamos tomar um sorvete?” no meio da semana; tem mais toque, menos ‘touch’; tem de tudo!
E, nesse “de tudo”, o que mais me encanta nas cidades pequenas são as histórias que só poderiam acontecer mesmo nesses locais encantados. Nem mesmo os melhores roteiristas de Hollywood seriam capazes de bolar roteiros tão mirabolantes.
Eis a mais recente e que vem lá de Avaí: o pai da moça morre. Enquanto todos estavam chorando no velório (regado a um balde de jabuticabas, por sinal), um ladrão entra na casa do finado e faz a “limpa”. Em tempo: desgraça pouca em cidade pequena é bobagem.
Dias depois, a filha, mesmo enlutada, resolve comemorar o seu aniversário. Quem dá as caras na festa? O jovem que furtou a casa do pai dela no dia do velório! E não para por aí. Ele ainda vai vestido com uma das roupas levadas do defunto! Juro. Aconteceu.
Pode procurar por aí: nenhum filme, por mais surreal que seja, traz uma história tão surreal. Só que é real. Acreditem. Aconteceu.
O fato é que cidade pequena quer ser cidade grande. Vive em busca de mais fast foods, mais enlatados, mais big redes de mercados, mais franquias, mais tecnologias, mais ares cosmopolitas e, claro, mais semáforos. Um conselho: cidade pequena não precisa crescer para ser grande.
Que, claro, a qualidade de vida e as oportunidades cresçam, mas que o clima de cidade pequena permaneça sempre o de... cidade pequena.
E que você, minha querida Pirajuí, mantenha-se apenas com um único semáforo até eu voltar a morar por aí. O meu daltonismo agradece. E o meu saudosismo também.