Tribuna do Leitor

Alternativas pós Lava Jato!

Cesar Augusto Teixeira de Carvalho - Prof. Dr. aposentado do Dep. de Engenh
| Tempo de leitura: 4 min

A Lava Jato está colocando a nu o verdadeiro Brasil e nos têm deixado atônitos à procura de um novo caminho. Faz tempo que sabíamos que algo de errado acontecia no mundo político, mas o que surpreendeu foi o volume e a habitualidade das coisas.

Recentemente assisti a um programa na TV Globo que achei oportuno para o momento, uma vez que mostra diferenças que ocorrem entre o Brasil e a Dinamarca - considerado o país mais honesto do mundo. Para se ter uma ideia, enquanto na Dinamarca uma secretária serve 4 parlamentares, aqui no Brasil cada parlamentar pode ter 25 pessoas como funcionários. Além disto, o parlamentar brasileiro tem um monte de outras mordomias como: reembolso de passagens aéreas, alimentação, táxi... mais ajudas disto e daquilo.

Lá na Dinamarca, o privilégio do parlamentar é poder andar de graça no bondinho da cidade e levar uma bicicleta a tiracolo para usar quando precisar. E o dinamarquês reclama deste privilégio, pois acha que como o parlamentar é um "representante" do povo, tem que dar o "exemplo" em tudo e fazer a mesma coisa que o povo faz - como pagar o bondinho de seu próprio bolso.

O programa de TV também entrevistou várias pessoas que vivem na Dinamarca, e deixaram claro que corrupção ao nível brasileiro nem pensar! Têm apenas algumas coisinhas aqui e ali, mas nada muito grave e constante. Falaram que existe pouca coisa a reclamar, pois têm um bom nível de vida e com pouca desigualdade - onde um pedreiro pode ganhar quase igual a um parlamentar. Dizem que a imprensa livre cumpre seu papel ao fiscalizar e cobrar as ações dos políticos, e acham que o principal é que as coisas são feitas com seriedade e transparência, visando sempre o bem comum do povo, uma vez que ele é o soberano da nação. Uma frase marcante do pensamento dinamarquês foi dita por uma brasileira que mora lá: "Os políticos não estão acima da sociedade e sim a serviço dela".

O programa também discorreu sobre possíveis fatos que marcaram a história da Dinamarca e que corroboraram para ela chegar onde chegou, já que abrigava os tão famosos e temíveis Vikings. Um dos fatos citados ocorreu cerca de 900 anos atrás, onde os interesses comerciais dos chefes Vikings serviu de estímulo para que fizessem um pacto cujo objetivo era diminuir a violência e buscar uma relação mais harmoniosa. Conhecido como "código de honra", neste pacto frutificou a "confiança" na palavra empenhada, assim como definiu que a "transparência" nas ações deveria ser total.

Esse novo modo de ser acabou ajudando tanto no comércio como na convivência entre as pessoas. Outro fato marcante (ano 1648) foi a mudança feita pelo rei Frederico III na forma de escolha do chefe de governo. Antes a escolha era apenas "política" e se dava junto as classes nobres do país, e o rei mudou o critério baseando apenas no mérito, como a "competência" no trato das coisas públicas. Acabou dando certo, pois os bons resultados para a população começaram a aparecer, e este critério do mérito acabou adotado como uma política de Estado. Para melhorar ainda mais, depois foi acrescentado canais de comunicação para a população denunciar "coisas erradas" na administração, papel hoje desempenhado pela imprensa livre. Assim, a Dinamarca fincou os alicerces que a levaram ao que é hoje: um país honesto e feliz, onde as ações são transparentes e a distribuição da riqueza equilibrada.

Transformar de repente o Brasil numa Dinamarca é difícil, uma vez que somos um país bem maior e muito mais diversificado e complexo, mas ai está um exemplo a ser mirado. Sem os gastos absurdos que aqui acontecem e sem nossa corrupção gigantesca, associada com a transparência e a cobrança constante da população ajudada pela imprensa livre, estaria pavimentado o modo para se chegar mais próximo da igualdade e felicidade dinamarquesa. Pra essa correção de rumo, faltaria mudar algumas regras constitucionais e ficarmos mais atentos ao escolher os políticos para nos representar.

Como atingir isto!? O primeiro passo é o povo se mobilizar e exigir uma "Constituinte" para mudar nossa constituição, procurando fazer a correção de rumo. Para que a constituinte tenha alguma chance de vingar, ela deve ser eleita pela população com poderes soberanos e exclusiva para este fim. Uma constituinte com os parlamentares atuais seria bem duvidosa, uma vez que boa parte deles já está contaminada pelos vícios do sistema, além de que já mostraram que gostam mesmo de legislar em causa própria. Este seria um caminho que vejo promissor. O outro é cruzarmos os braços e ficarmos assistindo o que vão fazer por nós.

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