| Malavolta Jr. |
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| No Centro de Bauru, não é difícil encontrar pessoas que fazem de praças as suas moradias |
| Fotos: Malavolta Jr. |
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| Entrega de marmitas realizada pelo grupo de voluntários Esquadrão da Noite |
Grupos de voluntários que atuam à noite, em todo canto da cidade, são unânimes ao fazer uma triste constatação: há cada vez mais moradores de rua em Bauru. Nos pontos onde tradicionalmente eles se aglomeram, o aumento dos grupos salta aos olhos.
Segundo a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), somente o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro-Pop) acolhe, hoje, 120 pessoas durante o dia. De janeiro a março, foram 2,6 mil atendimentos realizados pela unidade.
Apesar disso, os voluntários relatam que a imensa maioria dos que permanecem nas ruas encontram dificuldades em escapar desta condição. Um dos motivos apontados pela Sebes para justificar o aumento, não contabilizado em números, é a crise econômica brasileira, que criou uma legião de desempregados.
Somente em 2016, 3,5 mil postos de trabalho com carteira assinada foram fechados em Bauru. "Mas há também os que perderam emprego na região e vieram para Bauru em busca de oportunidades, mas não conseguem recolocação no mercado de trabalho. Em ambos os casos, são pessoas que se tornam dependentes de álcool e drogas e acabam perdendo o vínculo com suas famílias, engrossando as estatísticas dos moradores de rua na cidade", observa Vanessa Neves, diretora de divisão do Departamento de Proteção Social Especial da Sebes.
ABORDAGEM NOTURNA
A mudança no horário da abordagem noturna realizada pelas equipes da Sebes, antes realizada das 19h às 7h, também é apontada por alguns voluntários como um problema que pode ter agravado o quadro. Hoje, o atendimento é prestado das 15h à meia-noite, período considerado mais adequado pela atual gestão.
"Depois da 0h, os moradores de rua já estão dormindo. Entendemos ser melhor começar mais cedo para poder conversar e buscar o encaminhamento para os nossos serviços", afirma a assistente social Fátima Monari, diretora do Departamento de Proteção Social Especial da Sebes.
Nas ruas, a situação relatada pelos grupos de voluntários é preocupante. Segundo Maria Inês Faneco, membro do Esquadrão da Noite, o volume de moradores de rua começou a aumentar consideravelmente desde meados do ano passado.
O mais assustador, contudo, é que, desde então, o número não parou de crescer. "A gente sempre vai para a rua com a esperança de que vai sobrar marmitex, mas, a cada semana, acaba antes do que a gente planejava", afirma.
Até o ano passado, uma vez por semana, o grupo conseguia entregar cerca de 60 marmitas a moradores aglomerados no Centro, jardins Bela Vista e Terra Branca e Vila Independência. "Agora, a comida acaba antes de sairmos do Centro", lamenta.
'É difícil voltar para casa...'
| Malavolta Jr |
| Envergonhada de sua condição, Érica Alves, que é mãe de cinco filhos, não quis que seu rosto aparecesse nas fotografias |
Mãe de cinco filhos, Érica Alves, 32 anos, não se lembra exatamente de quando passou a viver nas ruas. “Faz dois ou três anos. Minha família toda é de Bauru, mas é difícil voltar para casa”, relata, sentada em um dos bancos da Praça Machado de Mello, horas antes de seguir para o seu dormitório: a marquise da antiga Estação Ferroviária. Assim como os grupos de voluntários, ela diz que tem notado o aumento do número de moradores de rua no local – a maioria deles vinda de outras cidades. São pessoas que seguem trajetórias de vida parecidas com a dela, de dependência em álcool e outras drogas e quebra de vínculo com a família.
Érica vê esporadicamente apenas dois de seus cinco filhos – todos eles criados por parentes. Durante o dia, frequenta o Centro-Pop para poder tomar banho, café da manhã e almoçar, sem perspectivas de alterar sua rotina. “Já passei um tempo em uma entidade aqui de Bauru, mas não me adaptei. Fiquei dois meses e saí”, confessa. Integrante do mesmo grupo, Valmir Alexandre de Macedo Filho, 31 anos, já trabalhou como pintor e, vez ou outra, procura oportunidades temporárias de trabalho. Ele conta que se entregou às drogas depois de perder os pais, há cerca de cinco anos. “Fiquei morando com a minha avó e fui internado. Quando voltei para casa, descobri que ela tinha sido levada para um asilo. Tenho uma irmã em Bauru, mas acabei ficando sozinho. A vida na rua é difícil, mas foi para onde a vida me levou”, completa.
Obstáculo
Voluntários ouvidos anonimamente pela reportagem relatam que, durante a entrega dos alimentos, mesmo que pequena, uma parcela dos atendidos costuma manifestar o desejo de sair das ruas. Estariam encontrando, porém, dificuldades para ter acesso ao tratamento. De acordo com a Sebes, o Centro-Pop funciona como porta de entrada para o encaminhamento ao Caps e a outros serviços de assistência social e saúde oferecidos pelo município. Para Vanessa Neves, do Departamento de Proteção Social Especial, normalmente os moradores apresentam resistência em aderir ao tratamento. “Eles ficam, por exemplo, receosos da medicação que é necessária em boa parte das situações”, pondera.
‘É muito triste e temos a impressão de que só vai piorar’, diz voluntária
| Aceituno Jr |
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| Esquadrão do Rock também ajuda população de rua e notou o aumento da demanda; na foto, os voluntários Wiverson Consalter, Sônia Alfredo, Luciana Cabelo, Mariane Baptistella, Claudia Micheloto, Ana Carolina, Valéria Costa, Vinicius Melchiades, Leandra Miranda, Tatiane Losnak, Cristian Criscione e Marcelo Baptistella |
Criado em junho do ano passado, o Esquadrão do Rock iniciou suas atividades distribuindo cerca de 40 marmitas em Bauru. Atualmente, entrega aproximadamente 120 e não sobra uma sequer, conforme relata Valéria de Carvalho Costa.
A ajuda, que também inclui doação de roupas e cobertores, é pulverizada na região do Centro, avenidas Getúlio Vargas, Nações Unidas e Cruzeiro, imediações do Terminal Rodoviário, da Estação Ferroviária e do Pronto-Socorro Central (PSC). “A situação está horrível na cidade. Em muitos casos, a gente percebe que aquelas pessoas já tiveram boas condições de vida. É muito triste e temos a nítida impressão de que só vai piorar”, analisa.
Outro grupo atuante em Bauru é o Gesto Concreto, que distribui 200 marmitas uma vez por semana em diversas regiões da cidade. “E, em todas as vezes, nos deparamos com novos moradores de rua. Isso é o mais preocupante”, conclui a voluntária Kassielli Gatinni.



