O presidente da República recebe na residência oficial, quase onze horas da noite, um açougueiro de sucesso, capaz de esquartejar a lei e principal alvo de cinco operações da Polícia Federal, por pagamento de propinas a autoridades. Passa pela segurança sem ser abordado, porque a placa do seu carro já é registrada na portaria. A reunião é feita sem agenda pública, obrigatória para dar transparência a todos os atos do presidente.
Tudo leva a crer que eles são íntimos há muito, fruto de entendimentos já realizados na base da confiança, e do dinheiro. Falam sobre um ex-deputado e ex-aliado, agora preso. O objeto do diálogo é o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha. É acusado de receber bilhões de reais em propinas, inclusive para intermediar empréstimos privilegiados do BNDES e FI-FGTS, a juros privilegiados.
Os irmãos Batista Joesley e Wesley - donos da JBS, tornaram-se os maiores exportadores de proteína animal do mundo. Compraram frigoríficos nos Estados Unidos, quatro vezes maiores, graças a benesses desde o governo petista. Joesley relata a Temer que "zerou suas pendências" com Eduardo Cunha; "tirou-o da frente" e conseguiu "ficar bem com ele" com ajudas de custo pagas mensalmente. Cunha já teria recebido R$5 milhões para se manter calado na prisão. O presidente Temer reage: "Tem que manter isso, viu?" A frase ainda haverá de ecoar ao longo da história desta decadente República.
Conta ainda o dono da JBS, que tem em mãos dois juízes e um procurador que "seguram os processos" e ainda lhe "passam informações". Temer teria o dever de ofício de comunicar esses fatos graves e criminosos ao ministro da Justiça, para providências. No entanto, exclama satisfeito: "Ótimo, ótimo".
É o fim. Temer se propunha a construir "pontes para o futuro". Conseguiu armar pinguelas entre o poder e a gula selvagem do mercado. Até que ia razoavelmente bem com o seu projeto reformista. A reforma da Previdência sofrerá atrasos, num cenário mais otimista e, no mais pessimista, voltará à estaca zero, o que quebraria a espinha dorsal da recuperação econômica. A sociedade ainda levará vantagens, a médio prazo, se apoiar uma reforma ética na política, já iniciada, extra agenda, pela Operação Lava-Jato. Imunes ao poder do dinheiro, nossos homens em Curitiba já desenvolveram mais de 40 fases operacionais. Denunciaram, julgaram e prenderam figurões de construtoras brasileiras que agiam em conluio com os políticos para obter contratos públicos. A avalanche de "delações premiadas" trouxe à luz toda uma sistemática criminosa e que ainda ousa desafiar a lei e os processos investigatórios.
É muito alpiste para passarinhos de goelas enormes. A JBS gastou meio bilhão de reais em financiamentos de campanha. Foram 1.820 candidatos, de 28 partidos, comendo na mão do Joesley; 179 foram eleitos para defender os interesses do padrinho. Dilma e Lula tinham contas separadas no exterior, para onde foram carreados US$ 150 milhões, intermediados, primeiro pelo ex-ministro Antônio Palocci e, depois, pelo ex-ministro Guido Mantega. Aécio Neves, o enfant gâté dos tucanos, já é candidato a zumbi da política. Temer perdeu a legitimidade, está enfraquecido politicamente, não tem apoio popular e está sem condições morais de permanecer na presidência da República. Também não precisamos de nenhum "salvador da pátria". Tivemos vários, ao longo da história republicana e eles não conseguiram salvar nem a si: Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Collor, Lula... Também não adianta remendar pano velho com pano novo. A sociedade é que tem que lutar para mudar o sistema, sem esperar um arquiteto de um Brasil melhor, porque ele não está no nosso horizonte de percepção.
O que os cidadãos esperam, agora, de Michel Temer, é que ele renuncie para não aprofundar, ainda mais, a crise política e a recuperação econômica. De qualquer forma, sua queda é inevitável. Conseguiu unir, contra si, do PSOL aos Democratas, de Lula a FHC, de Lobão a Chico Buarque e do Zorro ao Sargento Garcia. Ou cai pelo impeachment ou por denúncias acolhidas pelo Supremo Tribunal Federal por corrupção passiva, prevaricação, organização criminosa e obstrução à Justiça. No dia 6 de junho o TSE vai julgar os financiamentos da campanha presidencial da chapa Dilma-Temer, que poderá ser cassada pelas irregularidades com o caixa 2. Eleição direta ou indireta? Tanto faz. Também é indiferente o dançarino. Estamos cansados é da música.
Enquanto isso, a Polícia Federal prossegue com a Operação Patmos, nome da ilha grega onde João, o Evangelista, recebeu as revelações divinas sobre o Apocalipse.