| Aceituno Jr. |
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| Incentivo à leitura passa por políticas públicas e projetos que viabilizem acesso aos livros |
Repleta de riquezas, sotaques e influências, maltratada por uns, modificada por outros, presente no que se fala, escreve e até pensa, a Língua Portuguesa merece também uma homenagem. Hoje, 21 de maio, é Dia da Língua Nacional. A data visa valorizar a principal forma de expressão do povo brasileiro e, de certa forma, quem a eterniza em prosa e verso.
Por isso, essa edição do JC nos Bairros conversa sobre as principais bibliotecas da cidade e a procura dos bauruenses pelos autores e livros nacionais.
A primeira notícia não é tão animadora: 70% dos livros retirados mensalmente na Biblioteca Municipal Rodrigues de Abreu é de literatura estrangeira. "Quando tem filme ou série, a procura é gigantesca. Ficção e até histórias sobre vampiros ainda estão em alta", comenta Marco Otaviano, diretor da Divisão de Bibliotecas.
O mesmo estímulo vale para as obras nacionais. "Aumentou bastante o empréstimo do livro 'Dois irmãos', de Milton Hatoum, que recentemente foi adaptado para uma série da TV Globo". Veja na página seguinte o ranking com os livros mais emprestados.
Já as boas notícias incluem a grande movimentação nas bibliotecas, o crescente interesse das crianças pela leitura e o acesso cada vez mais democrático dos bauruenses aos livros de todos os gêneros.
Só a Biblioteca Rodrigues de Abreu, no Centro Cultural (junto ao teatro), recebe em torno de mil pessoas por mês. O local foi reformado com a colocação de ar condicionado, troca de piso e pintura para se tornar ainda mais agradável e acolhedor.
E vale a pena conhecer: o acervo do município, que reúne essa (a central) e mais sete bibliotecas ramais nos bairros, está estimado em 70 mil itens, entre livros, revistas, gibis e mapas. Cada ramal concentra entre 2,5 mil e 4 mil itens. Confira nessa edição os endereços.
PERFIL DO USUÁRIO
De acordo com Marco Otaviano, a biblioteca central atende pessoas de todas as idades. "Porém, o público maior tem de 16 a 20 anos, entre estudantes e os que realmente gostam de ler, independente da escola. Em seguida, vem a procura pela biblioteca infantil, onde há livros, brinquedos e jogos educativos.
Também entre os mais velhos há frequentadores assíduos, que retiram livros, em média, três vezes por mês", contabiliza.
O interessante é que cada biblioteca municipal tem um perfil de atendimento. No núcleo Presidente Geisel, por exemplo, que trabalha com escolas e cede seu espaço para cursos, o público é formado principalmente por crianças, seguidas de adultos e idosos.
"A missão da biblioteca pública mudou. Hoje se destaca um papel social e a inclusão de moradores dos bairros, que talvez não frequentassem o local se não fossem as demais atividades lá realizadas", pondera.
É uma forma da leitura "cortar caminho" e voltar ou nascer na vida da população. O resultado você conhece na página 2.
DOAÇÕES
Mas nem só de clássicos antigos vivem as bibliotecas municipais. "Fazemos compra de livros, de acordo com pedidos e lançamentos, mas é um processo lento. Por isso, contamos muito com as doações, elas são fundamentais. Só não recebemos livros didáticos, dicionários e enciclopédias, pois já nem temos como armazenar", explica Marco Otaviano.
Para doar um livro, basta procurar a biblioteca central ou qualquer uma das ramais. Toda obra é catalogada no centro, mas permanece no local onde foi doada. Um funcionário faz reparos quando necessário.
Você sabia?
Falta de biblioteca não é desculpa para o bauruense abrir mão de uma boa leitura: há opções em diversos bairros. Quem quer comprar, encontra livrarias na cidade com preços convidativos (o valor médio de um livro em território nacional não chega a R$ 40,00*).
O que ainda separa grande parte da população brasileira do hábito de ler tem raízes na educação. "O incentivo à leitura passa por políticas públicas e ferramentas do Estado interessadas em projetos que viabilizem não só o acesso aos livros, mas também à melhoria da leitura e interpretação dos textos", opina Renato Franco Bueno, co-idealizador da Biblioteca Móvel 5º Elemento e estudante do 4º ano de letras.
Engajado na cultura hip hop, ele, também conhecido como RapNobre, idealizou o Sarau do Viaduto em Bauru e lança seu primeiro livro ainda em 2017. "Há políticas do Estado de São Paulo, por exemplo, na contramão do necessário, fechando bibliotecas e salas de leitura em escolas com o discurso de cortes de gastos", garante.
Tais afirmações encontram respaldo em pesquisas. O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, em inglês) revelou em 2016 que 51% dos alunos brasileiros não têm nível de leitura condizente com o exercício da cidadania. O resultado é claro: o Brasil é o 59º no ranking de leitura entre 70 nações, segundo o mesmo estudo.
Sem dúvida, isso repercute em menos conhecimento, menor nível cultural e mais problemas políticos, econômicos e sociais. "A literatura está em constante movimento e é parte de uma necessidade humana; necessidade das pessoas terem voz, seja no ambiente virtual ou por meio dos livros", reforça Renato.
No seu ponto de vista, os horizontes devem ser ampliados também quanto aos gêneros literários. "É importante que as pessoas possam conhecer da literatura marginal, que usa uma linguagem popular, até à literatura erudita, como os clássicos que têm linguagem mais difícil e exigem um pouco mais do leitor".
CENÁRIO NO BRASIL
Pesquisas divulgadas em 2016* revelaram um retrato da leitura no País: 56% se dizem "leitor" (leu um livro inteiro ou em parte nos 3 meses anteriores à pesquisa) e 44% admitiram não ler. Entre homens e mulheres, 59% delas leem, enquanto entre eles o número cai para 52%.
Se o assunto é gosto pela leitura, 43% da população ouvida gosta pouco; 30% gosta muito; 23% não gosta e 4% não sabe ler.
A Bíblia e os livros de temática religiosa estão no topo da preferência de 42% e 22%, respectivamente, do público que participou do estudo.
Quanto à tecnologia, apenas 26% aderiram ao livro digital, contra 74% que nunca fizeram uma leitura por esse tipo de plataforma. Entre os escritores mais lembrados estão: Monteiro Lobato (1º), Machado de Assis (2º), Paulo Coelho (3º), Maurício de Souza (4º) e Augusto Cury (5º).
(*) Dados referentes à pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro e Ibope Inteligência e ao Painel das vendas de Livro no Brasil 2016 da Nielsen BookScan.
Bibliotecas: espaços democráticos nos bairros
Durante a reportagem a movimentação na biblioteca ramal do Núcleo Presidente Geisel foi intensa. E esse é só mais uma dia normal de atendimento por lá. Resultado do seu compromisso em fazer a diferença no bairro.
“A biblioteca pública é um espaço para a comunidade. Recebemos moradores, pessoas da ‘melhor idade’, estudantes do CTI - Unesp, e, atualmente, a Emef. Ner (Núcleo de Ensino Renovado), que reúne 470 alunos, do 1º ao 9º ano”, ressalta Neli Viotto, agente cultural da biblioteca ramal do Geisel.
O local também é utilizado para oficinas culturais e de trabalhos manuais. “Quem participa dos cursos de artesanato sempre acaba levando um livro, além de revistas específicas para esse público que colocamos no acervo. Não é forçado, mas recomendo no contato pessoal ou no grupo de WhatsApp ‘Arteiras do Geisel’. Quando chega livro novo, eu posto!”.
Para ela, o trabalho com a comunidade e a inclusão de crianças com as mais diversas necessidades, sejam cadeirantes ou com autismo, atraem usuários.
“Quando cheguei aqui há quatro anos achava que não a biblioteca não ia ter procura. Não só tem como aumentou de 15 exemplares emprestados por mês para mais de 800 atualmente. O livro é ‘insubstituível’, o que muda é o suporte, seja no papel ou multimídia. Todo mundo precisa estar atualizado e muita gente busca conhecimento. A leitura leva para onde você quiser, até a outros mundos”, destaca a agente cultural.
É DO BRASIL
Ao contrário da central, no Geisel a procura pela literatura nacional é maior. Essa preferência também é incentivada, principalmente no trabalho com escolas.
“Damos ênfase aos livros brasileiros, dos infantis aos clássicos. Em horários separados e em parceria com os professores, trabalhamos com cada turma um gênero: fábulas, poesia, história em quadrinhos, contos, crônicas e até reportagens”, esclarece Neli.
Neste mês de maio, os alunos ainda compartilham a mesma temática: a cultura negra. Do 1º ao 5º ano, o trabalho será com o livro ‘Eu não sei de que África veio meu bisavô’, de Tadeu Costa; e do 6º ao 9º, ‘O navio negreiro’, de Castro Alves.
O comportamento dos jovens na biblioteca chama a atenção de Neli. “Os adolescentes fotografam as páginas com o celular. É interessante porque mudou o suporte, mas a leitura continua. Percebo que meninos retiram mais livros de suspense e terror, enquanto as meninas gostam dos romances”.
Além dos livros pedidos no vestibular, saem bastante Jorge Amado e Jô Soares, gibis da Turma da Mônica e as revistas Superinteressante, National Geographic e Veja.
PREMIADOS
No mês passado, durante a programação da 17ª Feira do Livro de Bauru, a biblioteca central realizou uma premiação com os leitores mais assíduos. Eles estão três frequentadores da biblioteca do Geisel.
O moto taxista Jorge Frederico Simões da Silva, de 48 anos, ganha o prêmio (que são livros de autores bauruenses e um best-seller mundial) desde 2014.
“Pego livro toda semana. E até repetido, porque dá vontade de ler de novo. Leio de tudo, de Agatha Cristie a Jorge Amado, porém o que mais gosto é de livros brasileiros. O que mais me marcou foi ‘Usina’, de José Lins do Rego”, conta empolgado.
A leitura é um hábito que Jorge mantém desde novinho, porque minha família trabalhava com banca de revistas, e que procura ensinar. “Pego os livros e conto as histórias para minha filha Evelyn desde bebê e agora que ela está com 7 anos, aprendendo a ler, já escolhe quando vem comigo e com a escola. Tanto que esse ano também ganhou a premiação da biblioteca. Percebo que ela está falando melhor, tudo certinho”, orgulha-se.
Mariana Arques de Campos, 10 anos, recebeu o prêmio pela terceira vez. “Gosto de ler livros como ‘O diário de um banana’, Ziraldo e contos da Ruth Rocha, que são histórias curtinhas! Acho muito bom ler e ficar informada”, disse à reportagem.
O incentivo vem “do berço”. “O pai, Nelson, brincava com fantoches para contar as histórias dos livros quando ela era pequena. Até hoje ele tem um livro de cabeceira e lê toda noite um pouco antes de dormir”, conta a mãe, Yeti Arques de Campos.
Central e ramais
Durante a reportagem, a movimentação na Biblioteca Ramal do Núcleo Presidente Geisel foi intensa.
E esse é só mais uma dia normal de atendimento por lá. Resultado do seu compromisso em fazer a diferença no bairro.
"A biblioteca pública é um espaço para a comunidade. Recebemos moradores, pessoas da 'melhor idade', estudantes do CTI - Unesp, e, atualmente, a Emef. Ner (Núcleo de Ensino Renovado), que reúne 470 alunos, do 1º ao 9º ano", ressalta Neli Viotto, agente cultural da biblioteca ramal do Geisel.
O local também é utilizado para oficinas culturais e de trabalhos manuais. "Quem participa dos cursos de artesanato sempre acaba levando um livro, além de revistas específicas para esse público que colocamos no acervo.
Não é forçado, mas recomendo no contato pessoal ou no grupo de WhatsApp 'Arteiras do Geisel'. Quando chega livro novo, eu posto!".
Para ela, o trabalho com a comunidade e a inclusão de crianças com as mais diversas necessidades, sejam cadeirantes ou com autismo, atraem usuários.
"Quando cheguei aqui, há quatro anos, achava que a biblioteca não ia ter procura. Não só tem como aumentou de 15 exemplares emprestados por mês para mais de 800 atualmente. O livro é 'insubstituível', o que muda é o suporte, seja no papel ou multimídia. Todo mundo precisa estar atualizado e muita gente busca conhecimento. A leitura leva para onde você quiser, até a outros mundos", destaca a agente cultural.
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