| Marcelo Camargo/Agência Brasil |
| Homem protesta em Brasília: ato teve depredações, fogo e 7 detidos, além de 49 feridos; reformas e Temer foram os alvos |
| Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/Fotos Públicas |
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| Protesto organizado por centrais sindicais tem tumulto na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, entre os manifestantes, grupo de mascarados e policiais militares |
O protesto organizado por centrais sindicais e movimentos sociais contra as reformas previdenciária e trabalhista, pela saída do presidente Michel Temer e por eleições diretas transformou a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, em um palco de batalha com a Polícia Militar e a Força Nacional nessa quarta-feira (24). Seis ministérios depredados, um incendiado, 49 atendimentos de urgência - entre eles o de um homem baleado e de um estudante de Santa Catarina que teve a mão decepada por um rojão - são alguns dos números do ato, que reuniu 35 mil pessoas, segundo a PM, e 150 mil, de acordo com organizadores.
Por decreto, válido até o próximo dia 31, Temer convocou as Forças Armadas para conter manifestações de rua. À noite, os prédios dos ministérios já passaram a ter proteção de homens do Exército. Com o prédio do Ministério da Agricultura em chamas, devido a um incêndio causado por manifestantes, PMs que não dispunham de armamento não letal sacaram suas armas e dispararam, para o alto e em direção à multidão, que avançava sobre a polícia. Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (DF), sete pessoas foram detidas sob suspeita de crimes como lesão corporal, dano ao patrimônio público e porte de arma branca.
Até as 20h, a secretaria não havia informado a identidade do homem baleado nem quem disparou o tiro que o acertou. A manifestação dos sindicalistas e grupos de esquerda contra a agenda reformista estava marcada desde antes de vir a público a investigação contra Temer, resultante da delação da JBS. As suspeitas de corrupção e de obstrução da Lava Jato, divulgadas na semana passada, engrossaram o protesto.
"O ato foi maior do que o esperado, e 150 mil em Brasília são milhões representados pelo Brasil", disse Guilherme Boulos, um dos coordenadores do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Membros do governo também avaliaram que o volume de pessoas foi significativo. Autoridades calcularam que entre 500 e 600 ônibus de outras cidades chegaram a Brasília. A reportagem encontrou manifestantes de São Paulo, Rio, Espírito Santo, Minas, Pará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Rio Grande do Sul.
"É importante lutar por diretas, principalmente porque esse governo quer impor reformas sem consultar o povo e sem ter uma base de votos", disse o agente comunitário de saúde Luciclaudio Bezerra, 39. Ele enfrentou viagem de cerca de 39 horas de ônibus de Santa Cruz (RN) a Brasília para participar do ato.
Foram mais de quatro horas seguidas de confronto ao longo do Eixo Monumental, onde ficam os ministérios. O ponto mais crítico foi o gramado próximo ao Congresso. Manifestantes armaram barricadas com banheiros químicos e atiraram paus, pedras e fogos de artifício, enquanto a polícia lançava bombas de gás, spray de pimenta e balas de borracha. Havia sindicalistas, professores, estudantes e também pessoas mascaradas.
CONFRONTO
O conflito começou por volta das 13h30, quando a manifestação se aproximava de um bloqueio policial a 500 metros do Congresso. Primeiro, chegaram sindicalistas de roupa laranja da Força Sindical, que forçavam as grades e eram repelidos com spray.
Depois, uma multidão se engajou na tentativa de invadir o Congresso. Dos carros de som, líderes pediam calma, mas não eram ouvidos. "Companheiros mascarados, por favor, temos mães aqui, vamos manter a calma", pediu a senadora Vanessa Grazziotin (PC do B-AM). Em meio à confusão, participantes do ato começaram a recuar para o estádio Mané Garrincha. Quem passava pela rua era atingido por bombas e disparos - um homem ficou com uma bala de borracha alojada no pescoço. Usuários de ônibus no terminal rodoviário, a dois quilômetros do Congresso, sofreram com spray de pimenta. Jornalistas de vários veículos ficaram no fogo cruzado.
Uso do Exército não teve anuência do DF, se defende governador: 'Foi uma medida extrema'
O governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, classificou com uma "medida extrema" a convocação das Forças Armadas pelo presidente Michel Temer. Por meio de nota, afirmou que foi pego de surpresa pela decisão do Palácio do Planalto, que não contou com anuência do governo do Distrito Federal.
"Para surpresa do Governo de Brasília, a Presidência da República decidiu na tarde de hoje recorrer ao uso das Forças Armadas, medida extrema adotada sem conhecimento prévio e nem anuência do Governo de Brasília e sem respeitar os requisitos da Lei Complementar nº 97/99", diz a nota. O trecho da lei citado por Rollemberg estabelece que a atuação das Forças Armadas, na garantia da lei e da ordem, só ocorrerá depois de "esgotados os instrumentos destinados à preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio".
A lei determina, ainda, que os instrumentos podem ser considerados esgotados quando forem formalmente reconhecidos pelo chefe do poder executivo federal ou estadual como "indisponíveis, inexistentes ou insuficientes".
Centrais sindicais e movimentos de esquerda de diversos marcharam em Brasília nesta quarta-feira (24) contra o presidente Michel Temer e as reformas da Previdência e trabalhista.
Depois de confrontos e depredações, as Forças Armadas foram convocadas para controlar a situação na Esplanada -prédios de ministérios chegaram a ser incendiados. Rollemberg conclui, no texto, que "não é a violência e nem a restrição de liberdade" resolverão a "grave crise política do país". "A solução virá do estrito respeito à Constituição e às leis em vigor no país", escreveu.
O governador do Distrito Federal lamentou "episódios ocorridos" na manifestação. Disse, ainda, que "eventuais excessos" serão rigorosamente apurados. "Em todas as 151 manifestações realizadas nos últimos dois anos, as forças de segurança federal e distrital agiram de maneira integrada e colaborativa. Em todas as ocasiões a Polícia Militar agiu com eficácia e eficiência."
Maia nega que pediu tropas
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia alega que não pediu Exército a Temer e disse que o ministro da Defesa, Rau Jungmann, precisa "repor a verdade" após declarar que foi ele quem pediu as tropas.
Uso das Forças Armadas em protesto gera críticas e abre crise com Câmara
Pelo decreto, publicado em edição extra do "Diário Oficial", Forças Armadas atuarão até quarta (31) em nome da Garantia da Lei e da Ordem (GLO)
| Alex Ferreira/Câmara dos Deputados |
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| Rodrigo Maia desmentiu que tivesse pedido Forças Armadas |
A decisão do presidente Michel Temer de autorizar a atuação das Forças Armadas no Distrito Federal gerou críticas e uma crise com a Câmara dos Deputados. Em pronunciamento, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, classificou de "baderna" e "descontrole" os episódios de vandalismo e depredação e disse que atendeu a pedido do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).
Pelo decreto, publicado em edição extra do "Diário Oficial", as Forças Armadas atuarão até a próxima quarta (31) em nome da Garantia da Lei e da Ordem (GLO). O dispositivo GLO autoriza que os militares atuem com poder de polícia quando há o esgotamento das forças de segurança pública ou no caso de situações de perturbação.
Nesta quarta, cerca de 300 militares agiram para proteger prédios com a presença de militares. O presidente da Câmara negou que tenha pedido o emprego das Forças Armadas. Ele solicitou que a Força Nacional garantisse a segurança nas adjacências do Congresso e pediu retratação ao ministro.
Jungmann afirmou ainda que o efetivo disponível em Brasília já havia sido utilizado para proteger o entorno do Planalto. Por isso, o GSI (Gabinete de Segurança Institucional) e o Ministério da Defesa decidiram que as Forças Armadas seriam mais efetivas.
À reportagem o ministro disse que pesou na decisão a ausência de tropas da Força Nacional no Distrito Federal. "Nós não temos tropas da Força Nacional suficientes aqui, então usamos as Forças Armadas. Esse é o procedimento, já ocorreu em outras ocasiões", disse o ministro.
No pronunciamento, Jungmann afirmou que a manifestação "degringolou para violência, vandalismo, desrespeito, agressão e ameaça". "O presidente ressalta que é inaceitável a baderna, o descontrole e que ele não permitirá que atos como esse venham a turbar um processo que se desenvolve de maneira democrática e em respeito às manifestações." Com o agravamento do confronto nesta quarta, o presidente ordenou a evacuação dos ministérios. A GLO já foi evocada em operações no Rio de Janeiro e durante a fase aguda das crises no Rio Grande Norte e no Espírito Santo. A decisão de empregar militares foi criticada pelo ministro Marco Aurélio Mello, do STF. Em sessão, se disse "preocupado".
Black blocs
A confusão e o quebra-quebra na Esplanada dos Ministérios ontem começou quando um grupo de mascarados tentou passar além da barreira formada pela Polícia Militar para tentar evitar que os manifestantes chegassem ao Congresso e ao Palácio do Planalto.
A marcha convocada por centrais sindicais começou por volta do meio-dia de forma pacífica. Líderes afirmavam que "mascarados não seriam tolerados".
Jungmann: militares cuidarão de prédios e repressão é com a PM
O ministro Raul Jungmann (Defesa) afirmou que as tropas acionadas pelo governo para proteger prédios públicos não irão reprimir manifestantes no Distrito Federal durante a vigência do decreto de GLO (Garantia da Lei e da Ordem).
"O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, fez a solicitação e nós atendemos. Temos 1.400 homens em posição totalmente defensiva. A Polícia Militar do Distrito Federal irá cuidar de manifestantes", afirmou o ministro, por telefone.
O pedido de Maia (DEM-RJ), que foi criticado em plenário na Câmara pelo uso de militares contra protestos, é para que a Força Nacional de Segurança seja utilizada. "Nós não temos tropas da Força Nacional suficientes aqui, então usamos as Forças Armadas. Esse é o procedimento, já ocorreu em outras ocasiões. Só neste ano autorizamos oito GLOs no país", disse o ministro.
A preocupação das Forças Armadas é a de evitar confrontos diretos entre manifestantes e seus homens. Em Brasília há uma delegacia de polícia judiciária militar para lidar com eventuais incidentes. A GLO é regulamentada por lei de 1999.

