Os últimos acontecimentos têm nos levado a um lugar de difícil acesso cuja saída está bloqueada. Quem é esse homem que convencionaram chamar de sapiens, que há 70 mil anos era um animal insignificante e hoje está prestes a tornar-se um deus? Quem é esse ser que já admite alcançar a juventude eterna e, ao mesmo tempo, é capaz de criar e destruir? Realmente, nesse lapso de tempo construiu impérios, dominou a natureza, reduziu as pragas, aplacou a fome, diminuiu as guerras, mas, melhorou o bem-estar dos indivíduos, extinguiu o sofrimento no mundo?
Para facilitar nossa tarefa vamos limitar esse universo de que fazemos parte. Tomemos uma amostra representativa desse macrocosmo e finquemos os pés apenas nesse pequeno chão tupiniquim em que vivemos. O que está acontecendo com os "brothers", com nossos irmãos? Nos últimos tempos fizemos alguns progressos em alguns setores, mas continuamos sem saber ao certo nossos objetivos e parece que prosseguimos insatisfeitos como sempre.
Ninguém sabe para onde estamos indo. O que é ainda muito pior, estamos mais irresponsáveis do que nunca. Não prestamos conta de nossos atos a ninguém! Será que existem coisas mais perigosas do que deuses inconsequentes, levianos que caminham às cegas, sem atentar para resultados?
Esse microcosmo chamado Brasil é o exemplo mais patente de que o bem-estar não se aprimora com o desenrolar da história. Estamos desenvolvendo uma cultura infecta, uma espécie de parasita mental em que nós humanos somos hospedeiros involuntários. Hoje o que importa é o dinheiro. Não se mede distância, respeito, vergonha para alcançar cada vez mais riqueza que, como vírus, se multiplica e se espalha de um homem a outro, alimentando-se deles, enfraquecendo-os e, muitas vezes, até matando.
A ideia cultural do armazenamento da fortuna vai-se espalhando gradativamente, como um parasita mental, e acaba tirando vantagem de todas as pessoas infectadas por ele. Essa abordagem, chamada de memética, é baseada na replicação de unidades de informação chamadas "memes", termo que muitos já devem ter ouvido sem saber muito bem o que significa. A cultura do dinheiro, entre nós, ganhou sucesso nas duas últimas décadas, fortalecendo seus memes, independentemente do mal que vem causando a toda uma nação. Isso acontece porque as culturas propagam-se sozinhas, com pouca consideração pelo bem da humanidade. E quando nossa capacidade de burlar, roubar, corromper escapa do nosso controle costumamos achar que há algum equívoco e, então, estabelecemos uma espécie de comissão para encontrar o caminho a fim de, na próxima vez, fazer melhor e não deixar rastros ou pistas.
Nossa sociedade vem-se materializando a cada dia por conta desse lado obscuro do dinheiro. É que, se ele gera uma confiança entre estranhos, por outro lado, essa confiança não é investida em pessoas, em valores, mas no próprio dinheiro. Nós não confiamos no vizinho, no estranho - confiamos no dinheiro que possuem. Se sua riqueza acabar, acaba também nossa confiança. Por isso, caminhamos para um beco cruel, porque o dinheiro derruba barragens: a verdade, a honestidade, a lealdade, a ética, a amizade, o patriotismo, a vergonha, a idoneidade, o currículo, a família etc. etc. Os bens materiais passam como um trator por cima de todas as coisas.
Por causa disso, a história econômica da humanidade é uma dança delicada, diz Y. N. Harari, pensador em moda ultimamente. Contamos com o dinheiro para intermediar nossa relação com conhecidos e estranhos, mas ao mesmo tempo tememos que ele corrompa nossas relações e valores. É isso: não há nenhuma base para supor que as culturas mais bem sucedidas sejam necessariamente as melhores e a história, como também já vimos, não está preocupada com a sua, a minha, a nossa felicidade.
E nós, criaturas frágeis, ignorantes, idiotizadas não temos coragem de sequer levantar um dedo para influenciar o curso da história em nosso benefício. As ideias só mudam o mundo quando mudam nosso comportamento. Quanto tempo temos? Ninguém sabe ao certo.
A autora é pedagoga, jornalista, advogada, profa. dra. aposentada da Unesp - mg-de-rosa@hotmail.com