Enquanto as belezas de Ilhéus estimulam os baianos a sonharem com um aeroporto de R$ 45 milhões, uma de suas escolas, exibida no Fantástico do dia 14/5, revelou a miséria física do seu ensino público. E a operação Citrus, deflagrada pelo Ministério Público da Bahia, revelou a miséria moral em que vivemos. A escola é um barraco de tábuas corroídas pelo tempo, sem vedação, com plásticos para conter as goteiras, o sanitário é de fossa, com piso de pedaços de tábua e com cipós e raízes penetrando pelas paredes e pelo telhado. Os alunos estão sem merenda porque, felizmente, não chegou a ser servida a carne que estava vencida há mais de dois anos, comprada com licitação feita por uma gangue que deu prejuízos de mais de R$ 25 milhões ao cofre público. Um dos alunos, com voz lamentosa, disse que gostaria de ter uma escola boa, como outros alunos têm, com água, sanitário e merenda. E esse Estado vem sendo governado há 10 anos pelo PT, no país da 'Pátria Educadora' do último período 'lulopetista'.
Esse é um exemplo dos milhares de casos que vêm à tona diariamente de desmandos, corrupção, desperdício de dinheiro público e ineficiência do serviço público na saúde, na educação, na segurança, nos transportes, na assistência social, no saneamento básico, enfim, em tudo aquilo pelo qual o cidadão tira parte da sua renda para pagar os tributos. Os mais sacrificados são exatamente os que mais necessitam do serviço público, a parte mais pobre da população. Com a maior carga tributária do mundo, o Brasil poderia dar à sua população um padrão de vida semelhante ao das nações mais desenvolvidas. No entanto, o que oferece se aproxima mais dos países africanos.
Em crônica na Folha de 21/5, Carlos Heitor Cony comenta que Karl Marx, após ler a "Comédia Humana" de Balzac, que envolve 300 personagens, teria dito: "O livro do senhor Balzac só tem um personagem: o dinheiro". "Na comédia política que o Brasil está atravessando, com tantos figurantes de alta ou baixa atuação, pode-se dizer que há um só personagem: o dinheiro. Não adianta tirar Michel Temer do poder ou reformular os partidos que estão falidos. Pior mesmo é reeditar a ditadura militar ou civil. Não seria uma comédia, mas uma tragédia humana." E a comédia continua lá em Brasília com os personagens enredados pelo dinheiro que as empresas sugaram da Petrobras, do BNDES, do Erário e de fundos de pensão públicos, para os negócios mais vergonhosos que possam existir: compra e venda de votos no Congresso, impingir mentiras nos eleitores, forjadas por marqueteiros a peso de ouro e para aumentar criminosamente o seu patrimônio. Se lá eles vivem a comédia, a tragédia fica para os desempregados, os que sofrem nas filas de prontos socorros e hospitais, os assaltados nas ruas e em casa e os favelados.
Os comediantes de Brasília abusam da nossa paciência e subestimam a nossa inteligência declarando-se inocentes e defensores da democracia e do povo. Mas é por causa dos políticos que a democracia também está em crise em todo o mundo, Em entrevista à Folha (17/5), Larry Diamond, professor da Universidade Stanford, após comentar a queda da democracia nos últimos 10 anos, disse que a baixa eficiência em países democráticos favorece o populismo, má governança, justiça falha e corrupção, fragilizando o sistema e fortalecendo líderes autoritários. A "democracia precisa governar bem, ter boa performance tanto no campo econômico quanto na hora de atingir objetivos que a população demanda em temas como responsabilidade de agentes públicos e respeito às leis. É aí que há falhas hoje em dia".
Contaminados pelo dinheiro, o Executivo e o Legislativo não puderam oferecer nada melhor do que está aí para substituir o governo petista. Apesar disso, a escolha do núcleo econômico foi feliz e o País já começou a sentir a reversão - a Petrobras está em plena recuperação, a inflação está dominada em nível baixo, as empresas vêm retomando confiança e contratando. As últimas revelações de corrupção, entretanto, colocaram em xeque esse processo, despertando as mais variadas propostas, para atender interesses pessoais e não do País. Entre elas a de eleições diretas já, desrespeitando a Constituição e tratando o assunto como se fosse coisa simples, apenas registrando alguns candidatos e apertar a tecla da urna, sem nenhum custo. Tomara que surja alguma luz clareando as mentes para encontrar um caminho que não deixe perder o que já foi conseguido. Outro caminho poderá levar ao precipício.
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.