| Dênis Tebet/Divulgação |
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| A estação Itatingui, perto de Pederneiras, é uma das poucas que o imóvel não foi demolido |
Um pouco esquecida no tempo, a história de Espírito Santo da Fortaleza, conhecida de "sentinela do sertão" como ponto de parada de viajantes e depois batizada de Piatã, é outra localidade que chegou a ser comarca eclesiástica e depois acabou desaparecendo na região. A localidade deu origem a Bauru, após uma eleição na Câmara quando seus moradores optaram mudar para a região do córrego das Flores. Daí em diante vem a decadência da localidade e nem os trilhos do antigo ramal da Companhia Paulista, com a instalação da estação de Piatã, em 1903, deu alento. O ramal ferroviário também acabaria em 1966. O administrador de empresas e consultor em assessoria financeira Dênis Tebet Bianconcini acabou transformando seus momentos de lazer numa espécie de "caçador de lugarejo perdido". Ao tomar conhecimento da existência de Espírito Santo da Fortaleza, localizada no município de Agudos, passou a procurar relatórios, artigos e cartas cartográficas do século 19 e 20 e fez um trabalho de resgate desse período.
Daí em diante passou a fazer "expedições" na área em busca de restos da povoação. Acabou chegando até a fazenda da Duratex com o nome de Área de Vivência Ambiental Piatã, mas não encontrou a povoação.
Após contato com ex-moradores do local, o "caçador" de lugarejo se entusiasmou e a pesquisa acabou se estendendo na procura dos últimos resquícios do antigo ramal ferroviário de Agudos. Junto com amigos, a esposa Flávia Ruiz e filhos de 10 e 14 anos, percorreu os cerca de 70 quilômetros de estradas rurais sinuosas, picadas, entrou em fazendas, cortou pequenos córregos, andou a pé vários quilômetros para fotografar restos de estações ferroviárias e o antigo caminho da ferrovia.
Com ajuda de mapas do século passado, Dênis conseguiu recriar como foi o antigo ramal e acabou contribuindo informalmente para um trabalho de "arqueologia" do que foi o antigo lugarejo Piatã e resgatar vestígios das antigas estações. O administrador de empresas acabou também indo até a São Domingos do Tupá, outra localidade perdida no município de Agudos. "As duas localidades, Tupá e Piatã, tem um paralelo: foram povoadas e depois de um tempo desapareceram", conta.
Grupo fez buscas por antigo lugarejo
| Dênis Tebet/Divulgação |
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| Roda d'água de Piatã desativada encontrada no meio da mata que acionava um dínamo para gerar toda a energia elétrica para a fazenda no século passado |
A curiosidade levou a um hobby e acabou no amplo levantamento com acervo de fotos do que restou da antiga Piatã (Espírito Santo da Fortaleza) e incentivou no resgate do antigo traçado do ramal da Companhia Paulista que ligava Pederneiras, Agudos e Piratininga. Formado em administração de empresas, Dênis Tebet Bianconcini não esconde que o desconhecimento da localidade incentivou a fazer expedições à área da localidade que originou a formação de Bauru.
Inicialmente o levantamento de dados começou solitariamente via Internet, depois vieram amigos, esposa, filhos e amigos a integrarem "expedições" aos locais. E tudo isso percorrendo de carro por estradas vicinais de muita poeira ou quando não dava, a pé, entrando em propriedades rurais e até cortando córregos.
Para embasar esses caminhos foi feito o mapeamento com base em cartas cartográficas do século passado e atuais pelo Google Earth. "Poucos sabem da história de Espírito Santo da Fortaleza. Menos ainda onde ficava. O gatilho foi quando li artigo no JC que contava que Fortaleza ficava em outro lugar, mas não dizia onde. Foi quando descobri que Fortaleza é Piatã. Na Internet não consegui quase nada", conta Dênis.
Durante a entrevista, Dênis conta que desde criança se interessa pela história e geografia de Bauru, pelo urbanismo e sistema de transporte por isso a dedicação e tudo registrado no blog (https://bauruprojeto.com.br).
Espírito Santo da Fortaleza, depois Piatã, começou ao redor de uma igreja em 1859, na época do desbravamento do oeste paulista e do embate com os índios nessa região.
Nas pesquisas Dênis descobriu que em relatórios indicando que a antiga localidade ficava em um caminho de quatro léguas (cerca de 6 km) de Bauru para o norte de Agudos. "Com ajuda do Google Earth eu sai de carro e encontrei uma fazenda com a placa: Área de Vivência Ambiental Piatã da Duratex. Como sabia que Fortaleza passou a chamar Piatã encontrei o local. Não está abandonado e até bem cuidado, mas não encontrei ninguém morando", conta.
Depois disso passou a pesquisar e encontrou na Internet o site Estações Ferroviárias de Giesbrecht que conseguiu mais dados sobre o ramal ferroviário. "Quando a estrada de ferro chegou a Fortaleza, a localidade já estava decadente. Tanto que poucos anos foi mudado para estação Piatã", conta. O engenheiro Adolfo Augusto Pinto muito influente na época na Companhia Paulista batizou de Piatã.
Antiga 'sentinela do sertão'
A localidade Espírito Santo da Fortaleza se ergueu como um posto de abastecimento dos antigos viajantes que vinham da vila de Botucatu no século 19 com destino ao sertão.
De acordo com Celso e Junko Prado, "sentinela do sertão" são pequenas localidades que ofereciam abrigo e abastecimento. Fortaleza começou ao redor de uma igreja em 1859 na época do desbravamento da região e do embate entre índios. Somente em 1880 a localidade viu-se reconhecida freguesia, eclesiástica e político-administrativa no município de Lençóis. Depois seria elevada à categoria de vila em 1887 e município da comarca de Lençóis em 1889, com a eleição de sua primeira Câmara.
O município era então constituído dos distritos, Espírito Santo da Fortaleza e o de Piatan (também grafado Piatã), além do bairro rural Bauru.
Em 1893, Fortaleza já estava em decadência, enquanto Bauru prosperava. Até que em 1896 a sede do município foi transferida para Bauru após vários desentendimentos entre vereadores representantes de Bauru e Fortaleza.
Conforme o memorialista Luciano Dias Pires, para garantir a transferência da sede do município para o então bairro rural de Bauru, que àquela altura já era maior que a sede de Espírito Santo da Fortaleza, adiantaram o relógio em meia hora, iniciaram a sessão da Câmara e aprovaram a lei com a mudança, numa espécie de "golpe parlamentar".
Em 1903 chegaram a Fortaleza os trilhos da Companhia Paulista de Estradas de Ferro com o ramal de Agudos, que ligava Pederneiras a Piratininga. A partir dessa época Fortaleza passou a ser chamada de Piatã, assim como a nova estação de trem nas proximidades. Piatã, no entanto, em 1917 já era distrito de Agudos, restando a estação, algumas casas e plantações de café, que logo sofreriam com a crise de 1919. A mudança da sede de município encerra uma fase da formação de Bauru, segundo Celso Prado, enquanto Espírito Santo da Fortaleza já desde 1903 teve seu território anexado ao distrito de Piatã, nome pelo qual surge como distrito de Bauru, no ano de 1911, e formalmente exinto e quando passa a pertencer a Agudos. O ramal ferroviário fechou em 1966.
Fazenda
| Divulgação |
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| Gustavo Spíndola, Cláudia Ribeiro, Flávia Ruiz e Dênis Tebet Bianconcini no antigo leito da ferrovia em Piatã |
No local onde foi Espírito Santo da Fortaleza, localizado em Agudos, ficava na antiga Fazenda Monte Alegre. Ali, entre as décadas de 1960 até 1980, foi a Companhia Agro Florestal Monte Alegre (Cafma). Lá a Freudenberg manteve um centro de pesquisas e uma comunidade com cerca de 40 famílias de funcionários, conta Dênis Tebet.
Nos levantamentos, ele constou ainda que em 1988 a Duratex comprou toda a área da Freudenberg quando passou a chamar Duraflora. Na década de 1990, o prédio da estação Piatã foi demolido, período que coincide com o fim da comunidade da Duraflora. Já a partir de 2010, as antigas estruturas da fazenda Monte Alegre são eliminadas, como escola, campo de futebol, quadra de esportes, algumas casas e galpões.
Atualmente, o lugar, da antiga sede da fazenda Monte Alegre, agora chama-se Área de Vivência Ambiental Piatan (AVAP). A Duratex promove visitas de grupos monitorados para apresentação da vegetação.
Traçado do antigo ramal é resgatado
O ramal de Agudos da Companhia Paulista de Estrada e Ferro desapareceu em 1966. O que restou são prédios das estações de Itatingui, Agudos e Piratininga. O restante sumiu. Há poucos resquícios das antigas plataformas e dos caminhos onde foram assentados os trilhos. Dênis Tebet quando iniciou as pesquisas sobre Espírito Santo da Fortaleza acabou descobrindo que a localidade também se chamou Piatã, onde havia uma estação ferroviária instalada em 1903.
| Eder Azevedo/JC Imagens |
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| Estação ferroviária de Piratininga está bem preservada |
O site Estação Ferroviária de Ralph Giesbrecht, um dos mais completos sobre a memória ferroviária, relata que o ramal de Agudos começou a ser construído pela Cia. Rio-Clarense em 1887, saindo de Dois Córregos, no ramal de Jaú, e atingindo a estação de Mineiros. Somente em 1903 chegou a Agudos e, em 1905, a Piratininga. O ramal foi posteriormente anexado à Companhia Paulista que tinha dois trajetos quando chegava em Pederneiras. Um trecho partia até Agudos e outro para Bauru.
O ramal foi extinto. Posteriormente a Companhia Paulista ainda faria uma retificação em 1976 quando foi suprimida a linha que unia Bauru a Garça pelo sul da serra das Esmeraldas deixando também Piratininga fora do trajeto com destino a Marília.
Dênis Tebet conseguiu resgatar o trajeto original da ferrovia e percorreu praticamente toda a extensão para fotografar e resgatar os últimos resquícios de estações como Itatingui (das poucas ainda em pé em que uma das paredes do imóvel tem ainda o símbolo da Companhia Paulista, com a arquitetura preservada), Piatã, Taperão, Itaquá e Batalha desapareceram em meio ao mato. A de Piatã ainda ficou em pé até a década de 90, depois foi derrubada. O local pertence à Duratex.
A estação de Itatingui foi inaugurada como posto telegráfico em 1903 e elevada a estação em 1919, mas foi rebaixada a parada em 1961 até ser fechada cinco anos depois.
No site de Ralph Giesbrecht consta que quando a Paulista desativou o ramal, quase que imediatamente demoliu o armazém. O responsável pelo arrendamento da área que ficou responsável pela estação, decidiu não derrubar a de Itatingui.
O mais interessante de resgatar o antigo traçado do ramal de Agudos é que Dênis conseguiu percorrer todo o trajeto por meio de estradas vicinais, algumas de difícil acesso, e cortando fazendas. A estação Taperão, bem próxima a zona urbana de Agudos, não tem praticamente mais nada da estação, mas foi encontrado antigo leito da ferrovia, próximo da estação Batalha. "Há picadas abertas no meio da mata, onde estavam os trilhos, que não cresce mais nenhuma vegetação", conta.
A parte da antiga da plataforma da estação Batalha está envolta na vegetação. É tudo o que restou do local de embarque dos trens. A decadência desse trecho da ferrovia tem ligação também com o declínio do café na década de 1920. Tanto Piratininga como Agudos tiveram várias fazendas cafeeiras. Quem quiser mais detalhes e ver fotos é só acessar o blog (https://bauruprojeto.com.br).



