A arte existe para que a realidade não nos destrua, escreveu o filósofo. A arte é a instituição humana que tem poder de libertar o indivíduo do batidão da vida, é o ponto de vista que pode interpretar o mundo, ou até mesmo (em certos casos) enxergá-lo com mais lucidez, sem a opacidade dos conceitos, signos e preconceitos gerais.
Existem, contudo, licenças interessantes para a definição da arte. Dizem que há uma arte na natureza. Há também a arte da guerra, assim como há uma arte na política. Há a arte da culinária e o futebol-arte.
Nos últimos tempos, poucos podem duvidar de que alguns personagens políticos nacionais desempenhem com muita arte o laborioso ofício de roubar, trapacear, mentir e criar desculpas cada vez mais extraordinárias. Arte de roubar? Sim, porque roubar dá trabalho e exige criação. Já vai longe o tempo em que podíamos dizer que "fulano é um ladrão vagabundo". Pode ser ladrão, mas não dá para ser vagabundo. Como ficou provado nas quebras de sigilo que vão ao ar na TV, roubar como eles roubam dá um baita trabalho.
Não é nenhuma novidade que políticos usam e sempre usaram seus cargos com o objetivo de manter o poder e enriquecer. Porém, a tecnologia moderna, a exposição na mídia e a atuação da justiça nos últimos anos carregaram a nossa tragédia com tons mais fortes. A "qualidade" dos escândalos, as cifras atingidas e as justificativas cada vez mais esfarrapadas tornaram-se grandes atrações. O JN virou um espetáculo.
Chegará o momento em que o brasileiro reconhecerá a aura da arte em episódios como o da devolução da mala com 35 mil a menos. Aquilo foi arte. E a cereja do bolo foi o depósito, em juízo, dos 35 mil que faltavam. Só um artista pode fazer alguma coisa tão fora do comum no meio de um furacão, como fez o tal Rocha Loures. Pode parecer loucura num primeiro momento, mas deve ser arte.
Desde que os escândalos se acentuaram, inúmeras dessas, digamos, intervenções artísticas ocorreram, sem que o público se desse conta do artista que está preso dentro dessas figuras. O que dizer do deputado que deixou forjar sua assinatura na Comissão de Ética que decidia sobre Eduardo Cunha e, pego com a boca na botija, saiu-se com esta: "Tomo remédio tarja preta e na quinta-feira bebi um pouco. Na sexta-feira, assinei esses documentos. (...) Eu queria que vocês pedissem pra mesa os laudos psicológicos meus aí, psiquiátricos, que eu tenho (sic) problemas de foro pessoal, íntimo e infantil. Que eu tomo remédios tarja preta...".
Gênio. Só pode ser um gênio. Se for verdade é trágico, mas genial. Só se vê esse tipo de coisa nos filmes do Woody Allen.
Se um dia a Lava Jato acabar, restarão alguns jargões deveras artísticos, como "estancar a sangria", "espere, que o Bessias vai levar o papel aí", ou o já indefectível "tem que manter isso, viu?". No passado, "ser ou não ser, eis a questão"; hoje, um reles "ótimo, ótimo" já é um signo novo.
Kafka, este sim um gênio insuspeito, escreveu em seu conto "Um Artista da Fome", a história de um jejuador que ficava semanas inteiras dentro de uma jaula, enquanto a plateia assistia à sua degradação física.
Ele informa que aquela já havia sido uma arte muito prestigiada nos circos do passado, mas que naqueles tempos não atraía mais um grande público. Seu empresário proibia o jejum por mais de 40 dias, porque aí o público perdia totalmente o interesse. O artista ficava desacorçoado por não poder provar que podia muito mais do que 40 dias. Acredito que nossos políticos também fiquem assim, remoendo-se na cama, proibidos pelos advogados de continuar a desenvolver sua arte.