O sociólogo norte-americano Edwin Sutherland (1883-1950) cunhou a expressão “crime do colarinho branco”, na primeira metade do século 20, quando ainda era a escassa a noção de que homens de paletó e gravata podiam cometer crimes. Ele criou a Teoria da Associação Diferencial, até hoje referência na área criminológica.
A aprendizagem dessas pessoas de profissões diferenciadas no mundo do crime dá-se por contato com padrões de comportamento favoráveis à violação da lei. Os eleitores conscientes, procuram escolher candidatos de “ilibada reputação”. Uma vez eleitos, não demora muito e os novos mandatários estão lá metidos com falcatruas. O ambiente favorável aos desvios de conduta, no meio político, é irresistível até para pessoas de passado honesto. “É a regra do jogo” - parece ser o raciocínio simplista, para não dizer simplório e criminoso.
Sutherland, em The White Collor Crime (1949), prelecionava que essas pessoas que deveriam compor a elite dirigente do país, violam a confiança nelas depositada por milhares, ou milhões de compatriotas. A decepção que provocam diminui a moral social e produz desorganização social em larga escala. Outros crimes produzem relativamente menores efeitos nas instituições ou nas organizações sociais. Karl Marx, há mais de 150 anos, adorava essa entropia, ou desorganiza- ção sistêmica. “A situação desesperadora da época na qual vivo me enche de esperança”. Completava dizendo que “a crise nos leva a livrar do peso morto que pressiona o cérebro dos vivos”.
Para que se perceba o prejuízo que esses corruptos de vida faustosa causam ao país, basta o recentíssimo exemplo das mudanças provocadas na economia do após a delação de Joesley Batista. No momento em que todos se preparavam para comemorar o crescimento de 1% no PIB, como sinal de “retomada do desenvolvimento”, o Comitê de Política Monetária toma medida prudencial de reduzir com mais vagar a taxa de juros. Considerou como fator principal de risco “o aumento da incerteza sobre a velocidade do processo de reformas e ajustes na economia”.
A taxa de câmbio, no dia seguinte à delação, saltou 10%. O dólar, foi para R$3,40. Para segurar o real o Banco Central ainda teve que queimar 10 bilhões de dólares das nossas reservas e acalmar o mercado. As empresas perderam 123 bilhões de reais em valores de mercado, com a queda das ações. O governo federal teve que pagar juro 1% mais caro para poder rolar a dívida. Considerando-se que, no ano passado, a dívida era de mais de 3 trilhões de reais, é fácil calcular quanto custou para o país a crise política pós-Joesley.
Se o dólar permanecer em patamares atuais, a inflação vai pesar mais no bolso do pobre. Antes do efeito Joesley, discutia-se o tamanho das reformas. Agora, a dúvida é enorme sobre se elas vão de fato ocorrer. As agências indicadoras de risco diminuem a nota de “bom pagador” do Brasil. Isso eleva a dívida externa e financiamentos em moedas estrangeiras.
A teoria de Sutherland despertou os Estados Unidos para a necessidade de leis severas anticorrupção. Lá, delator-criminoso vai pagar pelos seus crimes, na penitenciária comum, seja quem for. O premiado, é o que eles chamam de “whistle blower” (tocador de apito). O cidadão trabalha numa empresa que rouba o governo ou os consumidores. Ele denuncia e pode habilitar-se a um prêmio de 10% a 30% do produto do roubo ou da multa aplicada. Autores intelectuais de crimes continuados e chefes de quadrilha jamais irão para casa gozar da fortuna ilegalmente amealhada.
Se estivesse vivo, Federico Fellini certamente não perderia a oportunidade de filmar a Operação Lava-Jato, com perspectivas sociais tão excitantes. Ele nos deu a obra prima “A Trapaça” (Il Bidone, 1955), onde as exigências de bem-estar criadas pelo capitalismo induzem gente “de boa índole” a correr de pizzarias com dinheiro na mala. Fellini recria a miséria e a ignorância de favelados ludibriados por falsas promessas de moradias.
A Operação Lava-Jato teve origem (2009) no Posto da Torre, em Brasília, usado pelo doleiro Alberto Youssef para vender gasolina e lavar dinheiro. Chamou a atenção dos fiscais o fato do posto faturar mais de R$ 3 milhões por mês. A sede nacional do PT é bem do lado e a Conveniência do posto é muito frequentada, até hoje, pelos petistas após as convenções, para roda de samba tocada a cerveja. Refrão preferido: “Você pagou, com traição, a quem sempre lhe deu a mão...”