Há 29 anos nascia o PSDB, formado por uma dissidência ética do PMDB, chocada com o espetáculo do fisiologismo político e da corrupção impune. Hoje, fundadores como Fernando Henrique Cardoso e José Serra, estão inexplicavelmente atrelados ao governo Temer, que quase nada difere da política praticada naquela época, por José Sarney.
Os tucanos, historicamente acusados de permanecerem em cima do muro, resolveram continuar no apoio ao governo Temer, alvo de sucessivos escândalos. Desceram do lado errado. Mesmo com a resistência da ala jovem do partido, favorável ao desembarque do governo. Os chamados "cabeças pretas" já deixaram claro que não vão aceitar a decisão dos "cabeças brancas" e vão votar a favor da futura denúncia da Procuradoria Geral da República contra Temer, a ocorrer nas próximas semanas.
O governador Geraldo Alckmin, o prefeito João Doria e o senador José Serra não quiseram ouvir a advertência do presidente estadual do partido Pedro Tobias, que alertou para o racha que a permanência no governo provocaria no partido. Citou o exemplo vindo da Europa, onde as tradicionais agremiações estão desaparecendo, justamente pela incapacidade de se reciclarem. Setenta e seis por cento dos eleitores do PSDB querem o partido fora do governo. O deputado bauruense só errou por ter feito o seu discurso quase num tom de súplica. Como se dissesse: "por favor, companheiros, não façam essa besteira". Melhor faria ao PSDB se tivesse virado à mesa. Pediu desculpas pela franqueza.
Foi cortês com Doria, interessado, tanto como Geraldo Alckmin, no apoio do PMDB visando uma possível candidatura à Presidência, em 2018. Aécio Neves, com todas as acusações que contra ele pesam, ainda permanece no partido, na condição de presidente afastado. Ele sabe que depende do PMDB na Comissão de Ética do Senado, para não ser cassado e preso. São todos reféns. Melhor permanecer sob o guarda-chuva de Temer, embora todo esburacado e com as varetas tortas.
Na ótica desses tucanos de plumagens cada vez mais ralas, a queda de Temer fortaleceria Rodrigo Maia. Se ele fizer as reformas trabalhista e previdenciária poderá ser nome forte para 2018. Para o PT, é melhor conservar Temer vivo, sangrando aos poucos, até a próxima eleição.
Os tucanos têm quatro ministros agarrados à barra da calça de Temer. O ex-guerrilheiro Aloysio Nunes, adora ser chanceler (Ministro das Relações Exteriores); Antonio Imbassahy, é Secretário do Governo; Bruno Araújo (Cidades) e Luslinda Valois (Direitos Humanos). A desculpa recorrente recai sobre a crise na economia, que precisa de estabilidade política para ser vencida. Aloysio disse que o PSDB "não é madame Bovary" - alusão ao romance francês do século 19 de Gustave Flaubert.
A personagem Emma Bovary trai o marido - depois se suicida. Veja até que ponto chega o simplismo analítico - e o cinismo político - diante da maior crise sistêmica vivida pela história republicana. Todos eles fazem uma equivocada ligação entre a aprovação das reformas e a permanência do tucanato no poder. Muito pelo contrário, as reformas tendem a ser aprovadas com a profundidade necessária quando o Palácio do Planalto tiver outro ocupante.
Ou seja, a manutenção de Temer fará com que as reformas passem com diversas alterações - produto de negociações para se manter a todo custo no poder -, prejudicando a essência do projeto modernizador das relações trabalhistas e previdenciárias.
Hoje, Temer é sinônimo de turbulência, de instabilidade. A cada semana um novo escândalo vai envolver o governo. E quem permanecer apoiando este bloco que está no poder não será protagonista na sucessão presidencial em 2018. Isto é, sair do governo é condição indispensável para ter sucesso eleitoral nas próximas eleições.
Somente o PSDB, os nanicos fisiológicos e os grandes bancos não compartilham do entusiasmo popular em defesa da ética e da moralidade republicanas. Poucos perceberam que as Medidas Provisórias, pelas quais Joesley Batista gastou um bom dinheiro em propinas para consegui-las, ainda permanecem em vigor com suas isenções e benesses de interesse do capitalismo quadrilheiro.
Permanecendo como está, a tendência é a crise, já profunda, se agravar ainda mais tanto na área econômica como na política. E agora chega ao Judiciário. De quem se esperava alguma coisa, só veio decepção.
O ex-ministro da Justiça de FHC, Miguel Reale Jr., autor do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, pediu demissão do PSDB, envergonhado: "Espero que o partido encontre um muro suficientemente grande para que possa lhe servir de túmulo".