A geada muito forte daquele ano tinha queimado todo o cafezal. Para eles foi muito difícil deixar o lugar onde, durante tantos anos, viveram e criaram os filhos, entretanto a situação tornara-se insustentável e o remédio seria mudarem-se para outro lugar, para outra casa onde os rudimentos de lavrador pudessem ser novamente aproveitados. A mudança foi programada para as nove horas da manhã e, na hora combinada, um caminhão encostou para recolher os móveis, os trastes de estimação e outros de pouco ou algum valor.
Foi necessário colocar tudo em frente da casa para facilitar os serviços de embarque. Alguns mantimentos como o saco de feijão, arroz e batatas também precisavam ser carregados para as primeiras refeições na nova moradia.
Das paredes foram retirados os quadros de fotografias dos ancestrais e dos santos da devoção; um quadro da Santa-Ceia e um crucifixo cor de ébano enrolado em um rosário; duas bacias grandes para banhos, o guarda-louças envidraçado, de cor escura e flores pintadas de branco com prateleiras na cor celeste, duas camas do tipo Patente, três colchões de palha de milho rasgadas, roupas de uso diário e um xale de lã para proteção do pescoço.
Para dar sorte assim como nos casamentos, uma chuva fria e penetrante caia sem cessar. Quando se faz uma mudança, nada deve ficar para trás, inclusive aquele velho e descorado guarda-chuva com uma haste quebrada e que mesmo assim, serve e é de grande utilidade no momento da chuva.
Além dos móveis e utensílios domésticos, lá no quintal galinhas estavam trepadas na cerca, todas juntas como se aguardassem o momento de terem seus pés amarrados para embarcarem dentro de engradados para a grande viagem. O cachorro Pombinho andava de um lado para outro, rabo entre as pernas, desajeitado, arrastando-se sem saber encontrar um lugar e manifestando, a seu modo, uma certa preocupação com todo aquele rebuliço. Os periquitos seguiriam viagem em seus poleiros presos por correntinhas. A água derramada pela chuva formava na terra fofa uma lama pesada e viscosa, dando oportunidade para que dois patos a revolvessem com o bico procurando algum alimento.
Pelas vidraças quebradas de uma pequena janela penetrava um vento frio, em razão da chuva que também era muito fria. Nos fundos da casa uma enorme porca com seus filhotes, sujos de lama, grunhia dolorosamente presa pela perna a um pé de laranja-lima, ignorando é claro, todo aquele desusado movimento à sua volta. Para garantir o leite das crianças era muito importante não ser deixada para trás, a cabra Moreninha, companheira de tantos anos e responsável pela robustez das crianças daquela família. Foi muito triste a despedida do sítio! Durante mais de cinco anos nenhuma preocupação. Agora, a situação era outra. Seria necessário comprar, inclusive, novas roupas do corpo, pois na cidade não havia o costume de uso das roupas campeiras. O caminhão em marcha lenta, deslizava na lama e graças a perícia de seu condutor, a mudança que estava firme e amarrada na carroceria não fazia qualquer movimento.