Tribuna do Leitor

Conchas

Angela Elys Gasparini Kiatake Bianchini
| Tempo de leitura: 1 min

O mar sempre me fascinou por causa daquela variedade de seres infinitos que abrigam as águas verde-azuladas além da linha do horizonte, estalando onda na areia. Eu gostava de caminhar pela orla e catar as conchinhas.

Escolhia as mais redondas, perfeitas e tradicionais - até o dia em que meu pai caminhou comigo.

Ele escolhia conchas que nada tinham a ver com o meu padrão do que deveria ser uma concha. "Olha que bonita!" - e lá vinha a concha esdrúxula para o balde. Às vezes, descobria formas outras, como a gente faz com as nuvens: "Parece uma Nossa Senhora...". "Onde, pai?". "De perfil, assim..."

E eu via a concha por trás da concha. E o meu balde se enchia de um punhado delas - personalizadas, diferentes, estranhamente belas.

Meu pai me ensinou muitas coisas, era um professor de carreira e da vida. Talvez mais desta última. Com a lição da concha eu aprendi a sua visão profunda do amor.

Eu sempre me senti amada, porque ele me via além da concha, além dos meus defeitos, me amava como sou, na minha essência única, imperfeita e bela. Assim ele via o mundo. E assim partiu para uma praia muito maior, infinitamente ilimitada, sem fronteiras, cheia de conchas raras, como o seu amor pleno.

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