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Mordida

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Passar pela vida e não viver intensamente é o que mais fazemos. Mesmo sabendo ser ela água ligeira, desperdiçamos momentos significativos. Não deveríamos viver assim, mas assim vivemos. Faríamos a diferença se tirássemos do momento único tudo o que de intenso e de bom ele pudesse nos dar. Em família, por exemplo, o minuto é precioso. As crianças crescem rapidamente e, ao se perceberem de asas crescidas, voam para não mais voltar. Os velhos, a quem tanto amamos, cumprem fatal sentença, viram retrato de doída saudade.

A casa de repente fica vazia e nós ficamos sós. O mesmo acontece com parentes e amigos queridos. Nada escapa, tudo é laço a ser desfeito pela mão insensível do tempo. O que amamos, o que nos realiza, o que nos preenche, tudo vai, na velocidade absurda dos dias, deixando de ser. Exatamente por isso, deveríamos encarar a vida com o desejo teso do fruto a ser mordido.

Sim, porque morder o fruto é morder a vida. Morder com sabedoria, se intenso queremos viver. Morder com desejo, se intenso queremos gozar. Arrancar com o dente faminto a carne macia da polpa, lamber dela todo o muito doce, depois sorver em gole profundo esse suco, esse mel, e entregar-se inteiro ao momento único, porque o relógio tem ponteiros de tudo acabar. Desola-nos perceber que não poucas vezes desperdiçamos momentos únicos apenas porque não os mastigamos devidamente. Bocas apressadas são bocas compromissadas, tudo engolem sem sequer o gosto perceber. Bocas apressadas são bocas ansiosas, tudo devoram sem sequer o sabor entender. Mastigação mecânica, ruminação burocrática, bocas que, no preço da pressa, põem tudo a perder.

Tal mantra, evidentemente não deve ser aplicado em igual medida a todos. Impossível generalizar, somos diferentes. Há os iluminados, que atacam a vida com todos os dentes e muito pouco deixam escapar. De olhos e poros abertos, amam intensamente e por isso são imensamente amados. Nascendo ou se pondo o sol , a beleza fugaz do momento nunca se lhes passa despercebida. Estão sempre conectados, mas em pessoas, claro. Não aceitam viver senão em plenitude, em tudo mergulham fundo, nada no depois, tudo no já. Seres iluminados são seres especiais.

Penoso reconhecer nem todos são assim. Existem bocas inapetentes. Há fastio, muita sombra e tristeza entre nós. Falta fome, falta fruto. Nenhum desejo ou apenas desejos vazios, aqueles que só satisfazem por algum momento, nada preenchem, não realizam. São desejos analgésicos, desejos cosméticos, a dor continuará.

Saudades do Vinícius. Ele, que tão intensamente viveu e que poemas e sambas geniais compôs, deixou-nos recado bem assim: "Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu, porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu". ­ísque na mão, amigos talentosos, noites memoráveis, mulheres, samba e poesia, assim vivia apaixonadamente o "poetinha".

Vinícius sabia morder o fruto.

Assim viveu. Assim mordeu.

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